"Questão a resolver: como conciliar a crença que o mundo é, em grande parte, uma ilusão, com crença na necessidade de melhorar essa ilusão? Como ser simultaneamente desapaixonado e não indiferente, sereno como um velho e ativo como um jovem?" Aldous Huxley

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domingo

Confissão (continuação)

Felipe olhou o visor do celular: Andressa, obviamente. Primeiramente sentiu raiva. Ele precisava de reclusão, de tempo, de se organizar, e ela era - sempre fora - incapaz de dar o devido espaço às pessoas. Mesmo assim, devido à culpa por não estar sendo honesto com, Felipe acabou atendendo calmamente o celular. Ele tivera uma resolução nos últimos minutos.
- Alô?
- Felipe, eu te odeio.
- O que? Não, você não me odeia Andressa.
- Você é um idiota. Tem razão, eu não te odeio, mas você é o maior cretino. Você não entende que está errado? Mesmo que você tenha me contado que me traiu, mesmo que você tenha terminado comigo no lugar de manter dois relacionamentos, você é um idiota. Um estúpido! Por que você fez isso, seu imbecil? Por quê?
E Andressa começou a chorar. Felipe levantou-se do meio fio e deu alguns passos a frente, mas sinalizou para que Ed continuasse ali, ele tinha tomado uma decisão. Doía muito em Felipe ouvir os soluços da menina. A relação deles já não estava boa e ela não o compreendia, mas depois de três anos é natural que se tenha um grande afeto pela outra pessoa, e ouvi-la chorar por algo que sequer era verdade era muito difícil. Foi então que Felipe olhou para uma parede, puxou o ar, criou coragem, e falou:
- Andressa, eu sou gay.
Ela parou de chorar no mesmo instante. Ed olhou-o, muito supreso. Ele olhou de volta para Ed, de relance, e voltou a encarar a parede, enquanto sua cabeça girava e reverberava, sentindo uma grande felicidade, um alívio estarrecedor, e muito, muito medo. Tudo isso durou apenas um segundo, que foi o tempo que Andressa levou para se recompôr e então, claro, soltar um grande "O QUÊ???". Felipe sorriu. Agora era tudo muito mais fácil. Sentou-se novamente no meio fio, ao lado de Ed, e respondeu a tudo o que ela perguntou. Disse que ela era uma menina muito íntegra, que tinha várias qualidades, que era sim atraente - e nada disso era mentira -, mas que essa é o tipo de coisa que não acontece, pois simplesmente é. Depois disse que queria vê-la, no dia seguinte, abraçá-la e pedir as devidas desculpas pelo sofrimento que a fizera ter com aquela mentira sobre traição, que queria olhar nos olhos dela e contar o que sentia, que queria dar a ela a chance de compreendê-lo, para que ela pudesse aceitar ou não, e também decidir como seria a relação dos dois dali para frente. Disse, então, que estava na festa de aniversário do avô, que não via a hora de explicar tudo a ela, mas que por hora era melhor que ela absorvesse a informação e pensasse a respeito, que ambos precisavam de tempo antes de esclarecerem tudo o que havia para ser esclarecido, e que ainda a amava muito, porém de uma forma diferente da que ela imaginava. Estabeleceram horário e local, despediram-se e então desligaram o celular.
Felipe colocou o telefone no bolso ainda olhando para a frente, um pouco inseguro sobre o que estaria reservado na feição do primo, e então, vagarosamente, virou-se para encará-lo. Ed estava, a princípio, muito surpreso. Depois fez-se grave. Então ele abriu um grande sorriso, deu-lhe um olhar de cumplicidade e disse:
- Mas por que diabos tu nunca me falou isso???
E abraçou Felipe em um gesto de amizade. Quem estava perplexo, afinal, era Felipe. De tudo o que ele imaginou como reação depois de confessar sua homossexualidade, um sorriso e um abraço era o que ele menos esperava. Felipe expôs, então, tal pensamento, e Ed gargalhou em resposta.
- Felipe, isso não significa nada meu velho. O primeiro passo para destronar o preconceito da cultura da gente é não ser preconceituoso contigo mesmo, mano. Como tu tem coragem de ter vergonha de ser gay? E como é que tu acha que alguém vai olhar pra tua homossexualidade sem julgar se tu mesmo tem vergonha disso? Felipe, brother, pessoas são só pessoas, independente do sexo ou da sexualidade. Beijar homem, beijar mulher, foder homem ou foder mulher não muda teu caráter, não muda quem você é. Eu, na verdade, acho que estar aberto a se relacionar com pessoas - homens e mulheres - te deixa mais disponível a conhecer gente que possa te ensinar algo sobre essa vida, e é por isso que eu não me limito com isso. E tu quer saber? Nada é assim tão sério quando a gente sabe que não é tão sério. Para de achar que ser diferente é grave, só aí é que tu vai conseguir sentir prazer em não ser robô.
Felipe olhava-o boquiaberto - Ed definitivamente ganhara um novo discípulo para sua filosofia informal. As palavras de Edmundo haviam tocado-o muito fundo. Foram tudo o que ele sempre sussurrara à própria consciência, mas nunca teve a coragem de ouvir. Finalmente, vendo alguém assim tão nobre e tão completo, e ao mesmo tempo tão simples, Felipe sentiu-se capaz de fazer aquilo que sempre quisera: deu a Ed o seu primeiro beijo de verdade, o primeiro sincero, o primeiro que ele realmente quis dar, ao qual Ed correspondeu na mais completa harmonia - e beijo nenhum poderia ter sido mais lindo.

--- Fim ---

terça-feira

Nossas páginas

"People are just people
They shouldn't make you nervous
People are just people like you..."
(Regina Spektor, Ghost Of Corporate Future)


Sempre ouvi dizer que todos somos legais até a segunda página. Estou começando a discordar. Afinal, todo mundo é legal exatamente depois da segunda página - na máscara somos todos clichés. É inegável que nas primeiras conversas com alguém estejamos todos encenando um papel, fingindo sermos o que melhor nos aprece, ou mostrando a nossa face mais trabalhada. E essa parte da relação é tediosa. Mais tarde, quando tirados os saltos e as maquiagens, é que a pessoa começa a mostrar quem ela realmente é. Somente lá pela quarta página é que podemos descobrir-lhe as reais qualidades e defeitos, sentir algo em relação a ela e ter um esboço de opinião a respeito. Antes disso, é tudo raso e fútil.
Mesmo porque julgar a pessoa até a segunda página é a maior injustiça. E se a casca dela não condiz com a sua? Isso não deveria significar que vocês não se darão bem. Quem já foi forçado a conviver com alguém cuja máscara lhe fosse repulsiva talvez concorde: depois da segunda página, quando não há mais tribo, classe social, time ou partido político, todos nós somos muito parecidos e capazes de afinidades. As primeiras páginas só servem para seccionar as pessoas, algo que eu acho extremamente inútil e triste. A diversidade da mentalidade humana é o que mais me encanta, não consigo concordar com a ideia de fugirmos de pensadores à priori diferentes.
Mas não posso fechar meus olhos ao fato de que estar rodeado por semelhantes gera conforto e é essencial, já que do contrário nos sentimos deslocados e frágeis e isso é muito desagradável. Insisto, porém, em que não passa de uma questão de ponto de vista: só iremos nos sentir estranhos longe de máscaras com as quais nos identificamos enquanto classificarmos as pessoas por tais máscaras. Uma vez entendido que essa casca é dispensável e estando-se decidido a olhar mais fundo, nós podemos compreender e sermos compreendidos por qualquer um. Sentirmo-nos deslocados é um erro da cultura imposta quando entendemos que o ser humano é nada além de um ser humano, em qualquer lugar. Aceitar e ser aceito só depende de lermos o trecho inteiro.

domingo

Lugar comum

- Mas você suportaria sustentar vadios com o seu próprio trabalho?
- Então, mas a gente já faz isso. Só que eles chamam-se políticos. E outra, qual o seu objetivo por aqui? Acumular riqueza, bens e luxos, ou estar bem e ser o melhor que puder? Porque, se for o segundo - e deveria ser o segundo - você talvez devesse olhar melhor ao seu redor. Existem pessoas morrendo de fome, pessoas morrendo de frio - existências que valem exatamente tanto quanto a sua. Você suportaria ser indiferente a isso?
- Augusto, seu discurso socialista me cansa. Eu não devo ter qualquer empatia com a desgraça socioeconômica, essa é a magia de um sistema autossuficiente.
- Um sistema que cuida de si mesmo, enquanto esmaga o povo. E vocês concordam.
- Não acredito que você consiga acreditar em uma colocação tão pueril com seus quarenta e dois anos de idade. Será que você nunca vai amadurecer e entender que teoria e prática divergem? Você soa como um adolescente falando, Augusto.
- E você, Paulo, soa exatamente como um adulto. Sem sonhos, sem pretensões que não sejam graficamente prováveis, pragmático e insensível.
- E qual a vantagem em ser entusiasta? Qual o ponto em viver entre ilusões, com desejos impossíveis e com crenças equivocadas? Qual o sentido de tudo isso, depois que se olha pelo lado de fora uma vez?
- Eu não sei, Paulo. Mas responda-me você: qual é a vantagem do racionalismo e do decadentismo sob os quais você enxerga sua vida?
- Eles não são vagos ou fugidios. Seu sermão de altruísmo e empatia é quase místico. Ele não tem bases reais, foi todo fundado em esperanças e suposições. Não é um discurso seguro. Pode sim acontecer, mas eu posso citar-lhe vários exemplos - se não empíricos, ao menos embasados - de falência para o socialismo. E mesmo para a bondade humana. Não me ataque com termos pejorativos como pragmatismo ou niilismo. Trata-se de lógica. Uma lógica que demanda maturidade para ser atingida. Uma lógica que idealistas incorrigíveis, adolescentes de quarenta e dois anos, não podem compreender.
- Proposta alguma funcionará enquanto a maior parte da população continuar cega pelos discursos embasados do capitalismo. E sabe o que mais me chateia? As bases de que esses discursos se valem. São todos construídos sobre a natureza má do homem. O homem é egoísta, o homem é avarento, o homem é perverso; e todos aceitam isso prontamente. Como que "sim, nós somos sim", e ao admitir isso tivessem motivo para continuar sendo. Será que nenhum de vocês, adultos lógicos e senhores de si, é capaz de perceber o quão errado esse discurso é? Será que nenhum de vocês pode sentir que nós devemos mudar?
- Eu vejo isso como um teatro darwinista: somos todos animais em busca da própria sobrevivência e precisamos adaptarmo-nos ao meio (no caso, ao sistema), ao invés de tentarmos mudá-lo. A natureza prevalece. Você é apenas uma mutação inútil. Mais um dos que tentarão mudar o mundo para cair e ser esquecido mesmo pelos livros de história. E sabe por quê? Porque o seu gene reacionário não se encaixa no nosso contexto.
- O seu cientificismo é só o que você consegue ver. E você nem mesmo foi autor deste. É assim que eu vejo tudo isso. Eu e meus semelhantes somos sim adolescentes em ideário, mas vocês, embora adultos em comportamento, são crianças coagidas pela mídia. Vocês acreditam em tudo que uma revista especializada coloca. Vocês se ajoelham para a ciência sem questionar, pois a grande maioria não tem bases - sim, bases - para questionar. Vocês se ajoelham às faces da ciência assim como os medievais se ajoelhavam nas igrejas. E são tão cegos que aniquilam, com as próprias mãos e palavras, os dissidentes da ordem que os domina. Você está iludido, Paulo.
- Caralho, isso é o que eu mais odeio sobre socialistas. A saliva branca que espuma de suas bocas quando usam palavras bonitas em um discurso de luta de classes. Um bando de graduados cheios de morais e frustrados com o mercado de trabalho. Fracassados imaturos, que em vez de trabalhar nos próprios atributos para conseguir um emprego melhor, saem por aí mentindo idealismos sobre um mundo perfeito. Então somos todos crianças perante o pai governo. A diferença é que os mais espertos de nós sabem o que fazer para agradar ao papai e conseguir dele o que deseja, e outros choram birrentos no tapete da sala. Quer mesmo ser algo de útil, Augusto? Então cresça fronte ao governo, torne-se independente dele no lugar de reclamar assistencialismo, seja um anarquista. Continuaria sendo absolutamente inútil e você ainda seria frustrado, mas ao menos mereceria respeito.
- Ótimo. Um adulador que respeita a rebeldia e se acha digno de criticar o comportamento mais lógico para os filhos de um pai indiferente, o choro reivindicativo; brilhante, Paulo, simplesmente brilhante.
- Pois não, chame-me hipócrita agora. É a pejorativa esquerdista clássica. Lembra do meu niilismo e pragmatismo? É. Eles casam bem com hipocrisia. Corroa-se, eu até gosto. E não é por que isso me faz mais apto a sobreviver no sistema vigente. É algo sobre o meu caráter. Porque eu realmente sou egoísta, avarento e perverso, mas não é esse o meu "motivo", a minha inspiração, para continuar sendo. Não. Eu continuo sendo porque eu gosto. E eu não estou dizendo isso somente para irritá-lo - embora seu rosto avermelhando-se esteja-me sendo deleitoso de olhar -, estou dizendo tudo isso por que é a mais pura verdade. Augusto, eu conheço você há mais de quinze anos e me sinto à vontade para confessar, eu gosto e eu faço de propósito, eu sou assim e eu não sinto nenhum impulso autônomo para mudar. O que eu finjo é pela convivência social, mas meus sentimentos podem divergir um tanto. E eu não acho que eu tenha qualquer disfunção cerebral, nem que eu seja o único a sentir tudo isso. Transforme-me em um socialista, pois, em um filantropo convicto - e sincero -, e eu calo-me para sempre. Contudo, até mesmo você sabe que é impossível.

E Augusto ficou em silêncio. As luzes pareceram abaixar, onde quer que eles estivessem; a musica soou distante e fraca. Paulo reverberava sozinho, a boca espumante por seu próprio discurso, copiosamente enfeitado por palavras bonitas e silogismos também comprados, embora de filósofos menos populares, a pensar-se vitorioso daquele nada. Eles não eram vencedores ou fracassados, e eles não sabiam o que estavam dizendo.

- Você disse anarquista, sim?
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quarta-feira

Sobre os bits de informação

A literatura me tortura. Reler o conceito de romantismo até o fim foi quase masoquista. Da torre de Marfim, escapista, melancólica. O pior foi ler sentimentalismo diretamente associado - quase que sinônimos - a egocentrismo. E a conteúdos rasos. Ah. Depois os conceptismos, cultismos, rebuscamentos confusos e quiasmos toscos, seguidos das antíteses incoerentes (mas que caiam bem na métrica). Também vi os bucolismos desprovidos de quaisquer significados, novamente prezando-se as formas e as regras. Fiquei frustrada (e envergonhada) pelo condoreirismo, ainda egocêntrico e sentimental. Expressões grotescas de todas as épocas.

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O estudo das produções humanas é extremamente útil à formação do caráter, pois retratam muitas experiências que todos nós estamos fadados a viver um dia. A melhor parte é que vemo-las por lentes impessoais, pelas quais conseguimos julgar diferentes quadros de forma equilibrada e sincera, para só depois percebermos o quão próximo de nós mesmos é a tal característica recém-julgada. Eu revirei os olhos e esbocei críticas a muitas das manifestações artísticas de diferentes períodos da historia para só depois enxergar que eram exatamente as minhas debilidades que eu estava satirizando. Foi desagradável, já que tive plena consciência de que aqueles comentários jocosos eram realmente a minha opinião sobre o que eu estava lendo ou vendo, e que eu realmente repudiava muitos dos meus traços de personalidade. É frutífero estudar as criações humanas por serem elas fotografias de nós todos, julgar tais é uma maneira de ver a si mesmo como se do lado de fora.


Acho engraçado como o que eu ouço/leio/vejo/sinto frequentemente se reproduz mais tarde em outras circunstancias, e meu cérebro as une como que por impulso, a formular conclusões, gracejos ou perguntas que me surgem inesperadas. Vi algo sobre assimilarmos conscientemente menos da metade de todas as informações que o nosso cerébro percebe a cada instante, sendo que o restante fica no inconsciente sem que tenhamos a percepção disso. Acho que daí surgem tantas analogias e combinações, e destas as criações intelectuais, factuais ou materiais. Por isso o mundo que nos cerca tem ampla interferência nessas criações, mas, ao mesmo tempo, a máquina humana é basicamente a mesma desde o primeiro milênio, o que influi na grande proximidade dos sentimentos vividos nesta e naquela época.


As circunstâncias alteram-se a cada momento, mas, afinal, nossas fraquezas e habilidades são em suma parecidas - o que me convence de que não é absurdo termos ainda as angustias que tinham os navegadores do mundo plano e de monstros marinhos. Vi na humanidade a qual tive acesso ignorâncias, fragilidades e soluções falhas que são integralmente comuns a mim. Encontrei defeitos e a principio me envergonhei por partilha-los. Contudo, odia-los e despreza-los, além de autodestrutivo, é inútil à resolução dos meus semelhantes defeitos. Pude ver que entender o processo histórico nos mais diversos pontos é essencial a cada um de nós, é a única forma de saber onde realmente pecamos, pois é o único espelho no qual podemos acreditar. Se a crítica vier de nós mesmos e for, à priori, mascarada, será intuitivo aceitá-la e possível segui-la. Ademais, a humanidade ainda tem qualidades a serem descobertas.

sábado

Voltando pra casa

Hoje eu saí da escola relativamente tarde. Estava cansada e faminta, por isso decidi que merecia um milk shake. Cheguei no ponto a tempo de pegar o ônibus, mas perdi-o, resolvida a comprar meu sorvete. Comprei, vi um outro ônibus que me faria a vez passar, não daria tempo de correr. Me sentei, esperei alguns minutos, mas eu sabia que nenhum ônibus que me atendesse passaria por ali nos próximos cinquenta. Subi até outro ponto, no qual fiquei só alguns segundos, quando decidi que um terceiro, um pouco mais acima, me daria mais opções. Fui, o ombro doendo pelas duas bolsas, o mp4 passou de ney para pitty, eu sorri. Pitty é tão nostálgico. No terceiro ponto havia ainda um banco, o qual eu desejava deveras então, mas estava ocupado pela bolsa de uma quarentona. Pensei azeda comigo, "é, é por isso que eu sento nos lugares reservados". Estava realmente pesado, então parei em frente ao banco, tirei a bolsa transversal e pus no chão fazendo manha, gemendo 'ai'. Ela tirou a bolsa. Agradeci e sentei-me, satisfeita. Passou um belo tempo, a mulher foi embora, outras chegaram, chequei meu celular, dezesseis ligações perdidas, todas da minha mãe, claro. Liguei pra ela, que estava estressada, perdi todo o bom humor e desliguei tão logo quanto pude. Música alta, brigando com a mãe, quão típica... Juro que percebi olhares de reprovação dos comparsas do ponto, mas posso ter imaginado. Outro ônibus que me servia passou, mas não parou. Frustrante. Escurecia, e o milk shake acabara. Aí notei que alguém falava comigo. Tirei um fone, pedi desculpa, era uma senhorinha. Bem frágil, magrelinha, toda enrrugada e de cabelos brancos. Meias estampadas marrons com bolinhas - acho que eram bolinhas - rosa, rasgadas nas pontas. Sandálias ortopédicas, vestido - ou saia? - e celular no pescoço. Só reparei dos joelhos pra baixo porque era tal o limite do meu campo visual. Enfim, falava comigo. Perguntava se o número, 62seiláoque, teria um 3 na frente. Disse que tinha, ela tentou digitar. Não conseguia, ofereci ajuda. Digitei, ela ligou, ouvi o começo da conversa e recoloquei os fones. Notei quando ela desligou, e por ter sido bem na pausa da música, notei que ainda falava. Tirei os fones. Ela começou a conversar comigo. Contou que iria à missa. Contou que suas pernas doíam. Contou que seis meses atrás um motorista de ônibus dera partida antes que ela conseguisse terminar de descer, e que ela caiu. Caiu de pé, "graças a deus", na hora não sentiu nada. Depois sentiu dor. Agora a perna doía "que nada dá jeito". O médico já passara-lhe remédios de todos os tipos. Doía ao dormir, e ao acordar. Ao acordar era pior, mal podia relar os pés no chão. Mas à noite era "uma dorzinha enjoada". Estava doendo naquele momento, mas ela aguentara por querer ir à missa. Era daí a vinte minutos. Contou que colocara uma prótese, não me lembro onde, dez anos atrás. Contou que já passara por quatro cirurgias. Contou que fez uma no coração. Contou que achava que os médicos escondiam-lhe os motivos da dor na perna, que achava que deveria operar, que sabia que eles não queriam operá-la pela idade avançada. Contou que machucara o joelho hoje cedo, batera na pia, sangrou até. Contou que o homem para quem ligara, para contar sobre a dor e o joelho, era como um filho. Contou que seu filho morrera, um mês atrás... Então a voz dela falseou. Olhei-a, os lábios tremiam. Queria chorar. Falou sobre como era tudo difícil. Contou que não sabia o que fazer, que achava que devia arriscar outra operação. "Vou deixar na mão de deus". Na mão de deus... Quis abraça-la, mas não o fiz, não sei porque. Aí um ônibus, o que passara antes sem parar, apareceu na esquina. Como eu sabia que o próximo demoraria a chegar, pedi licença para pegar aquele. Uma outra mulher, que já tinha alguns fios brancos, ouvia a nossa conversa. Melhor dizendo, as palavras dela. Eu não encontrei nada além de "é complicado...". Me deu licença, desejei-lhe boa sorte, com tudo, saí correndo pois o ônibus estava parado no ponto da frente, uns cinco metros pra lá. A outra mulher me lembrou que eu estava esquecendo a bolsa transversal, agradeci, peguei-a, corri. Entrei no ônibus, enfim. Chorei. Deus... Errei ao dizer que ele não existe. Sei lá se ele existe. Mas quem poderia dizer àquela senhorinha que ele é uma mentira? Tanto faz se ele existe... Mas eu desejo, do fundo de mim, que ele continue a existir na concepção dela. E sabe a Pitty, o milk shake, a grosseria no telefone, os assentos reservados? Então, nunca me senti tão idiota.

Despedida

Tenho andado um pouco triste. Os problemas de antes já não me incomodam tanto, acho que superei aquelas deficiências que me perturbavam; mas no caminho descobri outras. Os furos na personalidade, a incapacidade de expressar certas coisas - tudo isso continua aqui, mas agora com outras máscaras. Evoluí muito, isso eu vejo. Hoje em dia eu mal reconheço a garota que eu era um ano atrás.
Eu costumava sonhar com o primeiro beijo, com o vestido de princesa da festa de quinze anos, com a popularidade que eu tanto queria. Hoje eu sinto que daria minha virgindade sem peso nenhum na consciência, hoje eu abomino 'parabéns pra você' e guardo em segredo a data do meu aniversário, e hoje eu me orgulho por não perder tempo comigo em nome de amizades colegiais.
Hoje eu olho mais adiante, e hoje eu tenho noção dos vazios do mundo. Um ano atrás eu nunca conseguiria saber o sentimento de depressão, eu não poderia entender uma crise existencial. Sinceramente é difícil acreditar que eu mudei tanto, não entendo o que houve em mim para inspirar essa revolução. Quando tento me lembrar da mentalidade que eu tinha, só sinto uma fumaça; uma confusão de visões simplistas e fúteis onde nada era verdade. Algo me diz que um dia eu vou olhar pra quem eu sou agora e ter exatamente a mesma impressão, mas deixemos isso para daqui a alguns anos.
O fato é que eu mudei. Perdi muito de mim, coisas boas, reconheço. Aquela inocência, aquela alegria boba, aqueles desejos fáceis de conseguir. Também progredi em aspectos positivos. Naquela época eu não era triste, eu não ligava. Hoje eu me cobro mais, me odeio mais. Hoje, embora eu soe mais infeliz, eu posso dizer que começo a descobrir quem eu sou; e isso me conforta. Mas hoje eu tenho medo.
Mais uma prova e eu estou oficialmente no terceiro colegial. Eu queria fazer o tempo parar.
Sei que eu vou estudar demais, ter ainda menos tempo para mim, sei que eu vou ter crises e desilusões piores que as de hoje, mas tudo isso eu posso aguentar. O que me assusta é saber que eu estou ficando mais velha. É ver que em um ano eu vou ter que decidir o que eu quero fazer com a minha vida, ser "adulta". Quando eu penso que meu próximo aniversário será de 17 anos, eu não consigo acreditar.
Estou insegura com a minha estrutura emocional, com os meus novos defeitos, com a ideia de continuar crescendo e mudando, mas estou ainda mais insegura com as decisões que terei de fazer. Quando eu me digo criança e percebo que já não parece natural, eu tenho vontade de gritar - e isso porque no fundo eu já não vejo a criança em mim. Claro, a ignorância e a fragilidade continuam ali; mas hoje é só isso: imaturidade, resquícios dos defeitos que eu ainda não consertei. É horrível a ideia de que de repente eu já não sou 'bonitinha', e sim patética.
Acho que no fundo o meu grande problema é saber por intuição que amanhã eu vou achar o meu hoje vazio de valor e significado, vou rir dele, vou desprezá-lo. E o pior: saber que amanhã eu vou ser distante e desconhecida da pessoa que eu sou Hoje. Eu vou sentir saudades de mim...
- Você é feliz?
- Não.
- Por quê?
- Porque eu não sou quem eu gostaria de ser.
- Alguém é?
- Não sei.
- Ninguém é.
- Por quê?
- Porque querer ser subentende não ser.
- Então a felicidade não existe.
- Não.
- Então por que a pergunta?
- Para provar minha teoria.
- Para quem?
- Para mim.
- Por quê?
- Para me consolar.
- Quanto a quê?
- Minha felicidade.
- Entristece-lhe?
- O tempo todo.
- Como?
- Fazendo-me egoísta.
- ...
- Egoísta. Insensível a dores alheias.
- Então todos os felizes são egoístas?
- Sim, exceto os infelizes.
- Mas os infelizes não são felizes!
- Por isso eu digo que o são.
- Você é louco.
- Provavelmente...
- Felicidade não existe.
- Não.
- Então ninguém é egoísta.
- Eu sou.
- E por isso é feliz?
- Você entendeu a teoria.

Sobre a ataraxia politica.


Desde o grito da informática, que chegou com a terceira revolução industrial, jovens do mundo inteiro se esqueceram de contestar a sociedade, politica e economia mundial; para se trancarem em seu próprio mundo, onde regem suas próprias leis e onde os aborrecimentos daquela existência cada dia mais complexa não entram. Depois de pouco tempo, a juventude estava tão desintegrada do sistema vigente que qualquer intervenção por parte desta perdeu o sentido. E é aí que nós estamos. Agora, convenhamos: o sistema político, satisfatório ou não, foi projetado por pessoas incomparávelmente mais engajadas que a nossa geração; por tanto nossa falta de atitude, de vontade ou de ideais é simplesmente coerente. De todo modo, sistema nenhum é perfeito, então por que é tão dificil de se aceitar que o atual é correspondente ao nosso momento histórico? Acho que é hora de enxergar que revolta nem sempre é a melhor conduta. Às vezes, integração já basta.

sexta-feira

Virtude de errar.


Eu erro porque eu erro. Erro porque quero, erro só por errar. Eu sei onde errei, e se não sei é mais um erro. Meu erro. Errei e vou continuar errando. É errado tentar corrigir pra mim. Meu erro minha culpa. Eu vou ver o erro quando eu quiser ver. Vou errar de novo se não quiser corrigir. Mas entenda, os erros são meus. Errando eu acerto e errando eu aprendo. Aprendo errado na maioria das vezes, mas aprendo errado do meu jeito. Não me diga onde eu errei sem saber por meio de qual teoria errônea eu errei tal erro. Não erre pra me protejer. Erre por si e erre com si, erre e aprenda, então erre de novo. Erre comigo, erre sozinho, erre quantas vezes cada erro permitir. Erre e entenda o erro, ou erre e veja tudo errado. Erre e me veja errar. Erre se vendo errar. Alguma coisa sempre estará errada. Se estiver tudo certo, saiba, está errado. Errar é uma arte, errar é uma bênção. Eu erro, tu erra, ele erra, nós erramos, vós errais, eles erram mais.

terça-feira

-

Dar um tapa e ganhar um beijo arde mais que três tapas.

sexta-feira

-


Não se prendam no interesse das pessoas. É superficial e falso. E, achem isto pessimista ou não, é só especulação para fofocar mais tarde. Quase ninguém se importa de verdade.

ha ha ha ha ha


Só agora eu percebi...

Que eu posso ser a minha melhor amiga,
Que o que os outros pensam não é a verdade,
Que o que eu sinto nem sempre pode ser dito em voz alta,
Que comprar briga é estupidez,
Que vaidade é um peso,
Que acreditar basta,
Que amor próprio é a alma da felicidade,
Que rir sozinha faz muito bem,
Que querer demais enlouquece,
Que gestos mudos gritam alto,
Que se focar no futuro não é tão chato,
Que relacionamentos são de mentira,
Que precisar e não ter é a pior tortura,
Que dor ensina e musica cura,
Que nem todos querem ver como eu vejo,
Que o clímax fica nos detalhes,
Que desconhecer o amor não faz dele menos real,
Que você nunca foi quem eu pensei.
-

Expectativas


Você quer ser de verdade. Você quer sentir plenamente. Você quer ser belo e culto. Você quer ser humilde. Você quer saber que é bom. Você quer que saibam que você é bom. Você quer olhar pra cima e rir da vida. Você quer que os outros entendam o que você diz. Você quer poder ficar no topo. Você quer que o tempo seja favorável. Você quer amar alguém.

Mas sua inteligência tosca não te deixa ser de verdade, e nem sentir plenamente. Sua determinação coagida te afasta da beleza e da sabedoria. Seu fascinio com a perfeição borra sua humildade projetada. Sua baixa estima emudece os elogios. Sua revolta sem sentido eneblina o céu mais azul. Sua sede por voz própria te leva a gritar alto demais. Sua falta de preparo deixa a escalada mais longa. Sua pressa atrasa o tempo. E não, você não sabe... Mas amar alguém é negar tudo isso.

-


Ouvi falar que cada um escolhe o seu caminho, e que criticar o caminho do próximo mostra falta de confiança nas próprias escolhas, por tanto: sigam seus caminhos e sejam muito felizes por lá! (:

domingo

Trégua.


Matei um mosquito e me senti culpada. O ceu sujo de nuvens carregadas pareceu sombrio. As garotas gordas me encantaram em suas mini saias. Concelhos e confissões quebraram minha guarda. A insônia chegou com força, e trouxe reflexões atrazadas. A ética me obrigou a maquiar muitas conclusões. Me enganei e gostei do sabor. Assiti a filmes suficientes para ofuscar minha realidade. E depois de polida, ela pareceu um teatro monótono. Em alguma parte daquele inverno eu esqueci de ser dócil. No verão seguinte eu já nem lembrava dos cheiros. Cresci, ou fingi que cresci, e passei a ver tudo em preto e branco. Tentei então me rebelar. Não consegui. Me calei. Aí tentei mudar. Foi dificil. Tentei mais. O sol roubou lágrimas dos meus olhos. Compromissos me roubaram a sanidade. Tentei vingança. Falhei. Rostos sorriram ao meu redor. Rostos se fecharam ao meu redor. Rostos não se moveram ao meu redor. Muitos rostos estiveram ao meu redor. Por todos os lados, com todas as mascaras. Olhei de volta. Sorri de volta. Chorei de volta. Julguei de volta. E por fim, cansei de volta. Agora o tempo está lindo, e eu quase ouço um riacho chiar de longe. Acho que mereço um descanço.

quarta-feira

Deixe ser.


É preciso ter feridas para ter historia, ter cicatrizes para ter provas, e ter historia e provas para ter vivido. Então viva, porque feridas se curam e cicatrizes tem seu charme...

sábado

Apelo.


Uma dica: Pare de cuidar dos problemas alheios, e talvez então os seus diminuam.
Uma ideia: Esqueça dos seus motivos e tente se lembrar das suas origens, e talvez então você não se contradiga.

Um conselho: Não se pare sempre que se flagrar perto demais de dar a cara à tapa, e talvez então você viva algo que valha a pena.

Um pedido: Diga mais “não” ao próximo que a si mesmo, e talvez então você poupe lamentos no discurso final.

Uma ordem: Acredite em você, e talvez então as pessoas acreditem.

domingo

Pressa de viver...


Escolhas que escolhemos sem querer ao seguir caminhos, e caminhando sem andar, pensamos em decisões que decidimos sem pesar; e assim a vida segue, sem parar pra tomar fôlego, um lance atrás do outro. Fica muito fácil errar sem ter tempo para planejar a rodada, mas a sorte prefere as atitudes precipitadas...

segunda-feira

Sonho Implantado.


Amor, namoro, par perfeito, príncipe encantado, casamento, AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH. Quem implanta nas nossas cabeçinhas desde sempre que pra ser feliz é preciso estar com alguém? Deve ser a mesma maldita criatura que implanta que popularidade, sexo e beleza trazem felicidade. Qual será o tempo que cada um de nós precisa para entender que a beleza é relativa, o sexo dispensável e a popularidade estúpida? Pior, qual será o tempo preciso para entender que o amor próprio é tão suficiente quanto o amor entre dois seres? Estar acompanhado é só um detalhe, um detalhe fútil.

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Acho que o tempo necessário e o ser que implanta tais verdades são diretamente proporcionais.