"Questão a resolver: como conciliar a crença que o mundo é, em grande parte, uma ilusão, com crença na necessidade de melhorar essa ilusão? Como ser simultaneamente desapaixonado e não indiferente, sereno como um velho e ativo como um jovem?" Aldous Huxley

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sexta-feira

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Eu estou meio perdida entre uma embriaguez mental niilista e autodestrutiva e essa coisa de aprender, agir, mudar, criar... Mudo de lado de hora em hora, e estou ficando tonta. A responsabilidade é minha, o futuro é meu, a realização ou a frustração que virá disso tudo será completamente minha. E eu quero que seja realização. Estou decidida, quero pensar e agir, construir coisas das quais eu me orgulhe, quero ser, quero ter o controle. É que aquela preguiça fica me rondando, na espreita, esperando qualquer fiapo de fraqueza, para tentar minha mente. E isso sim é o demônio: a preguiça. Não é uma criaturinha vermelha com rabo de seta sentado no seu ombro, não, o demônio é o seu próprio desânimo, é a falta de persistência, é o cansaço que sussurra dentro da nossa cabeça o tempo todo na tentativa de nos fazer desistir das nossas metas. E vender-se ao demônio é prazer puro por algum tempo, já dizia a bíblia... Mas depois vem a danação. Não, não. NÃO. Decidi: agora quero ser ascese.

quinta-feira

A revolução que eu hei de instigar

Por que estamos nos fechando, nos calando e fugindo? Quanto mais eu aprendo sobre o mundo de hoje - globalizado, urbanizado, industrializado, científico, racional e superlotado -, mais eu percebo que as pessoas estão agindo mal consigo.
Que não soe como propaganda socialista, mas na nossa sociedade as pessoas estão tão presas ao consumo ou ao trabalho que esquecem de zelar por sua própria condição como ser humano. De tão atarefados, percebo que o padrão é que elas ignorem valores pessoais, autoentendimento, as crises existenciais rotineiras e os anseios de mudança para gastarem seu precioso tempo em banalidades estéreis: o trabalho, os filmes e livros massificados, as compras e o transporte coletivo estão roubando-lhes preciosas horas de existência.
O problema é que esse costume vem se transvestindo em algo natural e, o mais preocupante, cultural. O perigo desse crescente desinteresse com questões psicológicas profundas é que os nossos sentimentos não se apagam simplesmente por não receberem atenção. Na verdade eles se agravam, pois, quando não são corrigidos ou canalizados no começo, sentimentos dessa espécie tendem a crescer e a tornarem-se comuns, de forma que, a cada dia que passa, fica mais difícil dar-se conta do absurdo daquela tristeza irracional, cuja tendência é ser considerada normal.
E é por isso que, dizem os jornais, o consumo de calmantes e antidepressivos atual é tão grande. As pessoas ignoram o próprio inconsciente pela dificuldade que representa tentar entendê-lo, e assim seus problemas escapam do controle. Quando esses problemas começam a realmente interferir na rotina de seu sujeito, este procura por drogas psiquiátricas para calarem-no sem gasto algum de tempo ou psicologia. E o resultado é a perda da consciência de si mesmo, da própria existência.
Quando alguém opta por alienar-se de si, a capacidade crítica e de criação dessa pessoa é seriamente danificada. Alguém que prefere fechar-se para os próprios sentimentos não é capaz de ajudar o mundo com novas ideias, não é sequer capaz de agir por alguma causa. Nós, cada um de nós, somos o ser mais importante do universo em nossa própria concepção - nascemos vivemos e morremos conosco, nossa lucidez para com nossa condição é o que há de mais precioso, deus nenhum pode salvar-nos da loucura de não estarmos presentes em nós mesmos. Logo, se abdicamos desse autoacompanhamento, se entregamos nosso estado psicológico ao acaso enquanto escondemos os sinais de que algo precisa ser feito quanto a eles com antidepressivos, por conseguinte, se deixamos de estar presentes em nós mesmos, como podemos estar presente em qualquer outro assunto? Como podemos ter alguma opinião política? Como podemos ter algo a dizer? A desimportância das pessoas consigo, que anda em voga no século XXI, causa mais que alta nos números de depressão e insatisfação: causa também alienação política, o que viabiliza corrupção, manipulação, injustiça - todos fontes de novas crises emocionais subconscientes.
As pessoas têm fechado os olhos para a própria condição na esperança de encontrarem fora de si a realização e o incentivo que as faltam, e aparentemente têm procurado-no no consumo e nos ídolos do rock, e estes, tenho dito, são drogas psiquiátricas providenciadas pelo governo para manter o povo quieto e distante como convém.
Entretanto toda droga para de fazer efeito um dia (não há meia vida que suporte tantas depressões consecutivas), e quando doses suficientes não puderem ser encontradas - o que eu não acho improvável, pois a desesperança, o niilismo e a preguiça existêncial podem reproduzir-se tão rápido quanto bactérias em um meio adequado, e a juventude hodierna é o meio adequado - quando doses suficientes não puderem ser encontradas, restar-nos-ão duas alternativas: enlouquecimento e suicídio, ou, minha preferida, revisão de conceitos.
Quando, finalmente, depois de muita decepção, as pessoas começarem a descobrir que reprimir suas tristezas por praticidade está fazendo-as doentes, quando entenderem que não há nada que resolva o vazio interno senão autobservação, elas irão (serão obrigadas a) dar um basta e enfrentar a si mesmas. Só depois dessa revolução pessoal será possível alguma mudança - mas, para os que dizem que a minha geração não tem valor histórico, eu peço mais algum tempo. (revoltas em Londres, revoltas no Chile, revoltas no Mundo Árabe... evite julgar um ser humano antes que ele amaduresça, é tão injusto...)

Uma instrospecção de um professor que hoje ganhou minha estima:
"A mente é a droga. Pensem, imaginem, que dá barato. Mas tomem cuidado, tudo tem uma contraindicação..."

terça-feira

Nossas páginas

"People are just people
They shouldn't make you nervous
People are just people like you..."
(Regina Spektor, Ghost Of Corporate Future)


Sempre ouvi dizer que todos somos legais até a segunda página. Estou começando a discordar. Afinal, todo mundo é legal exatamente depois da segunda página - na máscara somos todos clichés. É inegável que nas primeiras conversas com alguém estejamos todos encenando um papel, fingindo sermos o que melhor nos aprece, ou mostrando a nossa face mais trabalhada. E essa parte da relação é tediosa. Mais tarde, quando tirados os saltos e as maquiagens, é que a pessoa começa a mostrar quem ela realmente é. Somente lá pela quarta página é que podemos descobrir-lhe as reais qualidades e defeitos, sentir algo em relação a ela e ter um esboço de opinião a respeito. Antes disso, é tudo raso e fútil.
Mesmo porque julgar a pessoa até a segunda página é a maior injustiça. E se a casca dela não condiz com a sua? Isso não deveria significar que vocês não se darão bem. Quem já foi forçado a conviver com alguém cuja máscara lhe fosse repulsiva talvez concorde: depois da segunda página, quando não há mais tribo, classe social, time ou partido político, todos nós somos muito parecidos e capazes de afinidades. As primeiras páginas só servem para seccionar as pessoas, algo que eu acho extremamente inútil e triste. A diversidade da mentalidade humana é o que mais me encanta, não consigo concordar com a ideia de fugirmos de pensadores à priori diferentes.
Mas não posso fechar meus olhos ao fato de que estar rodeado por semelhantes gera conforto e é essencial, já que do contrário nos sentimos deslocados e frágeis e isso é muito desagradável. Insisto, porém, em que não passa de uma questão de ponto de vista: só iremos nos sentir estranhos longe de máscaras com as quais nos identificamos enquanto classificarmos as pessoas por tais máscaras. Uma vez entendido que essa casca é dispensável e estando-se decidido a olhar mais fundo, nós podemos compreender e sermos compreendidos por qualquer um. Sentirmo-nos deslocados é um erro da cultura imposta quando entendemos que o ser humano é nada além de um ser humano, em qualquer lugar. Aceitar e ser aceito só depende de lermos o trecho inteiro.

domingo

Lugar comum

- Mas você suportaria sustentar vadios com o seu próprio trabalho?
- Então, mas a gente já faz isso. Só que eles chamam-se políticos. E outra, qual o seu objetivo por aqui? Acumular riqueza, bens e luxos, ou estar bem e ser o melhor que puder? Porque, se for o segundo - e deveria ser o segundo - você talvez devesse olhar melhor ao seu redor. Existem pessoas morrendo de fome, pessoas morrendo de frio - existências que valem exatamente tanto quanto a sua. Você suportaria ser indiferente a isso?
- Augusto, seu discurso socialista me cansa. Eu não devo ter qualquer empatia com a desgraça socioeconômica, essa é a magia de um sistema autossuficiente.
- Um sistema que cuida de si mesmo, enquanto esmaga o povo. E vocês concordam.
- Não acredito que você consiga acreditar em uma colocação tão pueril com seus quarenta e dois anos de idade. Será que você nunca vai amadurecer e entender que teoria e prática divergem? Você soa como um adolescente falando, Augusto.
- E você, Paulo, soa exatamente como um adulto. Sem sonhos, sem pretensões que não sejam graficamente prováveis, pragmático e insensível.
- E qual a vantagem em ser entusiasta? Qual o ponto em viver entre ilusões, com desejos impossíveis e com crenças equivocadas? Qual o sentido de tudo isso, depois que se olha pelo lado de fora uma vez?
- Eu não sei, Paulo. Mas responda-me você: qual é a vantagem do racionalismo e do decadentismo sob os quais você enxerga sua vida?
- Eles não são vagos ou fugidios. Seu sermão de altruísmo e empatia é quase místico. Ele não tem bases reais, foi todo fundado em esperanças e suposições. Não é um discurso seguro. Pode sim acontecer, mas eu posso citar-lhe vários exemplos - se não empíricos, ao menos embasados - de falência para o socialismo. E mesmo para a bondade humana. Não me ataque com termos pejorativos como pragmatismo ou niilismo. Trata-se de lógica. Uma lógica que demanda maturidade para ser atingida. Uma lógica que idealistas incorrigíveis, adolescentes de quarenta e dois anos, não podem compreender.
- Proposta alguma funcionará enquanto a maior parte da população continuar cega pelos discursos embasados do capitalismo. E sabe o que mais me chateia? As bases de que esses discursos se valem. São todos construídos sobre a natureza má do homem. O homem é egoísta, o homem é avarento, o homem é perverso; e todos aceitam isso prontamente. Como que "sim, nós somos sim", e ao admitir isso tivessem motivo para continuar sendo. Será que nenhum de vocês, adultos lógicos e senhores de si, é capaz de perceber o quão errado esse discurso é? Será que nenhum de vocês pode sentir que nós devemos mudar?
- Eu vejo isso como um teatro darwinista: somos todos animais em busca da própria sobrevivência e precisamos adaptarmo-nos ao meio (no caso, ao sistema), ao invés de tentarmos mudá-lo. A natureza prevalece. Você é apenas uma mutação inútil. Mais um dos que tentarão mudar o mundo para cair e ser esquecido mesmo pelos livros de história. E sabe por quê? Porque o seu gene reacionário não se encaixa no nosso contexto.
- O seu cientificismo é só o que você consegue ver. E você nem mesmo foi autor deste. É assim que eu vejo tudo isso. Eu e meus semelhantes somos sim adolescentes em ideário, mas vocês, embora adultos em comportamento, são crianças coagidas pela mídia. Vocês acreditam em tudo que uma revista especializada coloca. Vocês se ajoelham para a ciência sem questionar, pois a grande maioria não tem bases - sim, bases - para questionar. Vocês se ajoelham às faces da ciência assim como os medievais se ajoelhavam nas igrejas. E são tão cegos que aniquilam, com as próprias mãos e palavras, os dissidentes da ordem que os domina. Você está iludido, Paulo.
- Caralho, isso é o que eu mais odeio sobre socialistas. A saliva branca que espuma de suas bocas quando usam palavras bonitas em um discurso de luta de classes. Um bando de graduados cheios de morais e frustrados com o mercado de trabalho. Fracassados imaturos, que em vez de trabalhar nos próprios atributos para conseguir um emprego melhor, saem por aí mentindo idealismos sobre um mundo perfeito. Então somos todos crianças perante o pai governo. A diferença é que os mais espertos de nós sabem o que fazer para agradar ao papai e conseguir dele o que deseja, e outros choram birrentos no tapete da sala. Quer mesmo ser algo de útil, Augusto? Então cresça fronte ao governo, torne-se independente dele no lugar de reclamar assistencialismo, seja um anarquista. Continuaria sendo absolutamente inútil e você ainda seria frustrado, mas ao menos mereceria respeito.
- Ótimo. Um adulador que respeita a rebeldia e se acha digno de criticar o comportamento mais lógico para os filhos de um pai indiferente, o choro reivindicativo; brilhante, Paulo, simplesmente brilhante.
- Pois não, chame-me hipócrita agora. É a pejorativa esquerdista clássica. Lembra do meu niilismo e pragmatismo? É. Eles casam bem com hipocrisia. Corroa-se, eu até gosto. E não é por que isso me faz mais apto a sobreviver no sistema vigente. É algo sobre o meu caráter. Porque eu realmente sou egoísta, avarento e perverso, mas não é esse o meu "motivo", a minha inspiração, para continuar sendo. Não. Eu continuo sendo porque eu gosto. E eu não estou dizendo isso somente para irritá-lo - embora seu rosto avermelhando-se esteja-me sendo deleitoso de olhar -, estou dizendo tudo isso por que é a mais pura verdade. Augusto, eu conheço você há mais de quinze anos e me sinto à vontade para confessar, eu gosto e eu faço de propósito, eu sou assim e eu não sinto nenhum impulso autônomo para mudar. O que eu finjo é pela convivência social, mas meus sentimentos podem divergir um tanto. E eu não acho que eu tenha qualquer disfunção cerebral, nem que eu seja o único a sentir tudo isso. Transforme-me em um socialista, pois, em um filantropo convicto - e sincero -, e eu calo-me para sempre. Contudo, até mesmo você sabe que é impossível.

E Augusto ficou em silêncio. As luzes pareceram abaixar, onde quer que eles estivessem; a musica soou distante e fraca. Paulo reverberava sozinho, a boca espumante por seu próprio discurso, copiosamente enfeitado por palavras bonitas e silogismos também comprados, embora de filósofos menos populares, a pensar-se vitorioso daquele nada. Eles não eram vencedores ou fracassados, e eles não sabiam o que estavam dizendo.

- Você disse anarquista, sim?
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quarta-feira

Impressões

Um lugar fétido, sujo e pervertido. Paredes descascadas, tijolos quebrados e um cheiro horrível. No chão, uma mulher jovem e feia. O rosto marcado pelo barro já seco, a boca escancarada com um filete de sangue e os olhos entreabertos em uma tentativa - teria tentado? - jocosa de desdém. A roupa estava parcialmente rasgada e os braços e pernas caídos de forma nada equilibrada, na mão esquerda jazia um canivete e no corpo pequenos buracos retos dos quais borbulhara sangue quente há pouco, o mesmo que agora seco e estampado na blusa azul causava repulsa e um sarcasmo doentio. Frio, Pressa, Nojo, Enfastio.
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Blusa de frio larga, colorida e fora da moda. De lã. Cabelo bagunçado, vento e chuva, muita chuva. Doces e risadas, um abraço bem apertado, travesseiros e meias. Em cima da cama, com uma escova na mão e uma pluma de aniversário posando de cachecol, uma mulher está a cantar algum hino de fim de formatura com a maior força possível, remetendo a alguma piada interna do grupo de amigas que estão no quarto. Todas riem, uma se levanta, a empurra da cama e toma seu lugar, cantando com expressões ainda mais forçadas, e dançando propositalmente mal. A que fora empurrada cai no tapete, com as almofadas, ri, sobe outra vez e pega a escova com a outra. Cantam juntas. Brigadeiro. Edredrom. Alegria, Despreocupação, Espontaneidade, Carência.
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Quarto. Ele, com outra. Ela na porta. P da vida. Puta da vida. Fudidissma, a maçaneta da porta bate com força na parede. A tal outra sai de foco. Tanto faz: se esconde, foge, vira pó - não é importante. Ele arregala os olhos e se cobre. Ela não chora. Não chora, não fica estática, não sai correndo. Vai, a passos rápidos, para cima dele, e bate, soca, quebra, machuca, com muita vontade e todo o seu potencial. Ele se encolhe. Não xinga nem protege. Aguenta calado. Ela também não xinga. Bate até cansar. E sai. Ódio, Indignação, Agressividade.
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Noite. Sozinha. Perdida. Longe de casa. As letras de neon de uma casa de shows alternativa ditando a aura da rua. Um homem gordo. Cheiro de cigarro. Ela trajando uma saia pink, blusa rendada e salto alto. Fome. Pouco dinheiro. Dois homens mexem com ela, nada obsceno, mas ela resolve andar mais rápido. O barulho do salto no asfalto. Vergonha, Medo, Insegurança.
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Conversas. Respostas rápidas. Palavras jorrando por impulso. Ambos gesticulando confusamente. Risos. Sarcasmos. Entrelinhas e mais risos. Falam sobre assunto nenhum e não parecem nem um pouco preocupados com a densidade e importância dos temas e teses. Às vezes discordam sem raciocinar e na maioria mentem morais sem saber o porquê. Divertem-se. Entretêm. E agradam. Então entra um terceiro na roda, cujos tópicos são mais bem articulados e chamativos. Ela sede o espaço. Logo se perde na discussão e para de tentar se posicionar. Eles continuam a conversar no mesmo rítmo, naturalmente. Ciúme, Raiva, Auto-depreciação.
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Colação de grau. Oitava serie. Orador da turma. Palco. Microfone. As mãos dela estão tremendo e suando, com varias pequenas aglomerações de vermelho por baixo da pele branca e fria, então. Põe o papel no suporte e respira fundo, discretamente, tentando disfarçar o nervoso. Silencio. Todos os olhares. Uma tosse. Sua deixa. Começa, a voz treme, decide olhar para o fundo da sala, começa a proferir as palavras já tão bem ensaiadas. Vai muito rápido, percebe que está fugindo das entonações que ensaiara com tanto apreço, e no caminho seus olhos se encontram com aquele amigo. Ele faz uma careta engraçada e caçoa sobre postura da professora carrasca. Ela ri histericamente, para de falar, olha para as pessoas das três primeiras fileiras. Ele sorri e a olha afetuosamente. Ela volta os olhos para e primeira linha e recomeça o discurso, sem ligar para as palavras que acaba trocando e inserindo um ou outro gracejo improvisado. O discurso acaba. Aplausos. Segurança, Confiança, Aceitação, Amizade.
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Cachorro. Pelos brilhantes e macios. Mau hálito. Latidos. Mordida. [?]
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Entre os zilhões de coisas que me passaram pela mente hoje (influenciadas por músicas, ideias e puro tédio, ilustrando cada sentimento que me contemplou nessa tarde), vomitei aqui os que estavam me dando indigestão.

sexta-feira

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Todos queremos ser únicos. Essa história de querer se sentir aceito só é verdade por alguns ângulos. Na maior parte do tempo estamos mesmo é tratando de ser diferente, de parecermos nós mesmos - mas naquela versão pré-escolhida. Todo mundo sorri por dentro, mesmo que inconsciente, quando chamam-lhe de "estranho". A verdade é que assimilamos (e não sei se isso é certo ou não) ser diferente com ser especial. Não importa em qual aspecto, desde que você saia do senso comum. Mas o problema é que somos todos idênticos. Todos falamos do mesmo jeito, sentimos as mesmas coisas, erramos os mesmos erros, e, mais cedo ou mais tarde, pensamos sobre os mesmos assuntos. Não há fuga da regra: dois olhos, boca, nariz, cabelo, tronco e membros. Um corte de cabelo, uma maquiagem ou uma tatuagem não muda nada disso. Me peguei hoje mesmo cogitando a ideia de que os deficientes físicos se sintam especiais, diferentes, únicos por tal. Mas então caí no conceito de que todos estamos somente em busca de aceitação, que como eu disse, é uma verdade por alguns ângulos. Agora, pensando a respeito, acho que quase entendo os motivos. Nossos instintos animais nos levam a pedir por aceitação, com fins como perpetuação da espécie, proteção e todo o mais; mas a parte mais recente de nossa mente, aquela que nós mesmos construímos com costumes, crenças e regras e que tem total consciência do espelho, da tv e do computador, essa parte vive em prol de autoaceitação - e esta prima a excluisividade.
...O meu problema, realmente, é não saber qual dos dois lados grita mais alto em mim.

terça-feira

mais férias

Sabe quando você canta junto com a música no tom exato do cantor, e então acredita que nem é tão difícil, mas depois tenta sozinho e percebe que você é terrível? É mais ou menos como quando você começa um desenho, acha que vai ficar esplêndido, e quando você termina e olha de longe descobre como as coisas ficaram desproporcionais e confusas e estranhas e horríveis. Também lembra aquela sensação de quando você começa a escrever um livro, pára na página 30 e percebe que odiou. Aí você religa a música, apaga o texto e rasga o desenho, olha pra baixo e vê que uma janela do msn está piscando: um desocupado resolveu te cumprimentar. Então você responde, e ambos conversam inutilidades até você esquecer de todo o resto... É, talvez não seja tão chato assim ter "amigos".

(sim, ainda preciso das aspas)

sábado

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Não tema
Não traia
Não odeie
Não dissimule
Não manipule

Você faz certo daí, eu faço daqui, e ninguém se machuca hoje.

quinta-feira

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Só existem dois jeitos dignos de viver: acima de tudo ou excluido de todos. Toda e qualquer filosofia de vida entre estas é mediocre, e de mediocre basta o mundo.

sábado

Estratégias.


Pense, planeje, risque, pense mais, apague, risque tudo de novo, seja criativo, capriche, apague de novo, risque, borre tudo, pense novamente, desenhe por cima, esboce, amasse e jogue no canto do escritório.
Pegue outra folha, rabisque tudo outra vez...

Ser é agir.



Não se pode ter tudo. Não se pode ter metade, nem um terço e nem um quarto. Não se pode ter amor pleno, nem felicidade enterna e nem bondade pura. Não se pode nada. Quem pode é você.

"Colápso do Século 21"



O homem tem dois inimigos: a sociedade, e ele mesmo.
E um dos dois ainda há de acabar com ele...

domingo

Ficção.


Ficção é fuga. Fuga é ficção.

segunda-feira

Bonzinhos


Bonzinhos são aqueles que se dão mal pra exemplificar lições que os outros nunca aprenderão por si só. Não, eu não sou boazinha.

Dia da mulher


Uma grande hipocrisia.

domingo

Tentando..

Ninguém disse que seria facil e ninguém disse que facilitaria. Ninguém disse como fazer e ninguém disse que faria.

sábado

Novo mundo.


Ela estava parada, com todo um mundo a sua frente. Sentou-se na ponta do precipicio e observou com a calma de um pai.

Pensou no velho mundo que se esvaía de cada folha que ela conseguia ver dali. Pensou nas novas modas e manias que se impregnavam nos vãos das rochas, e pensou nos amigos que já teve.

Carregada pela nostalgia, ela reviu cada sorriso e sentiu novamente os melhores abraços; e então relembrou a bruscalidade com que tudo acabou.

Um dia fora tudo tão limpo, tão harmônico, tão inabalável. Ela chorou por não ter visto este dia. Como é que conseguimos desmoralizar tanto nossa própria honra?

Embargada pela culpa e pela saudade, ela jogou uma pequena pedra para além do nada do abismo. Beijos sem qualquer emoção. Palavras sem qualquer fundo de verdade. Consolos superficiais. Ideais baratos. Não não, não é neste mundo que ela quer viver.

Ela queria tanto ser diferente. Sentir de verdade, ver de verdade, ser de verdade. Mas no novo mundo não havia espaço pra nada disso... Olhou pra frente novamente e lembrou-se de que o motorista ainda estava ao seu lado, segurando suas compras e esperando para levá-la de volta ao hotel, quando ouviu sua voz pela primeira vez:

- A cidade não para de crescer. O que diabos estão esperando para cortar estas arvores velhas e construir um hotel descente por aqui?

E com a inexpressividade de um recém nascido, Miranda pegou as sacolas e entrou na Mercedes parada a poucos metros dali.

sexta-feira

Tempo.


Flores murcham e folhas caem, mas o verão sempre volta.

Resumo.


É tudo uma questão de lógica. É tudo uma questão de sentimentalismo. É tudo uma questão de prioridades. É tudo uma questão de ponto de vista.