"Questão a resolver: como conciliar a crença que o mundo é, em grande parte, uma ilusão, com crença na necessidade de melhorar essa ilusão? Como ser simultaneamente desapaixonado e não indiferente, sereno como um velho e ativo como um jovem?" Aldous Huxley

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sábado

O problema das cidades grandes

Olhei pelo parabrisa, as luzinhas da cidade estavam todas piscando. Pensei em um flashmob gigantesco, em invasão alienigena, em energia das fadas; depois pensei na fumaça de algum carburador. De qualquer forma, se fosse haver algo grande eu teria visto no jornal. Esse é o problema das cidades grandes, acreditamos mais nos jornais que em nossos olhos. O sinal abriu, acelerei. Hoje é domingo.
Não estou muito certo de que isso interessa, mas meu nome é Luis Otávio. Nome estúpido, não? Era um saco chamar Luis Otávio no fundamental. Pior ainda era a minha mãe, senhora Ana Luiza, que obrigava o mundo inteiro a pronunciar meus dois nomes. Era até entediante ser chamado com toda aquela pompa desnecessária. Acho que ela queria que eu fosse importante. Importante e íntegro. É, porque nome composto é coisa de gente reta, bem resolvida, com caráter polido e carreira decente. Voce já viu algum mendigo de nome composto? Algum viciado? Não. E se eles, por infelicidade do destino, têm mesmo um nome composto, logo abdicam de um deles ou substituem-nos por algum apelido tosco - a verdade é que nome composto é uma coisa imponente, é preciso muita dignidade para que lhe chamem pelos dois nomes.
O triste é que eu não mereço os dois nomes. E acho que decepcionei minha velha. Eu sei que depois do Luis Otávio todo mundo aí começou a imaginar um cara alto, de ombros largos, camisa de manga comprida com gravata vermelha, e meu carro foi logo jogado no patamar de um importado preto, polidíssimo e brilhante, com os vidros fechados e o ar condicionado ligado. E erraram. Quer dizer, minha camisa é mesmo de botão, de mangas curtas, mas de botão - só que tem o logotipo da empresa onde eu trabalho ridiculamente bordado no bolso do lado direito. E é azul clara. E meu carro é branco, e sem brilho. Um gol 93, se alguém realmente ainda está interessado na minha estória.
Bom, no caso de alguém estar, deve querer saber para que eu estou uniformizado em um domingo. O caso é que eu não voltei para casa desde o fim do expediente de sexta feira. Ah é, eu sou o menino do xérox. Entretanto isso não deve ser analisado como extrema rebeldia, pois de fato não tenho esposa, filhos, cachorros ou qualquer coisa que o valha esperando por mim em casa. Minha casa é medíocre. Quase uma quitinete. E sempre muito mal organizada. minha mesa de centro - era uma dessas bem vagabundas - quebrou uns meses atrás, quando um amigo trôpego sentou-lhe em cima. Desde então, minha mesa de centro são três latas de tinta e uma madeira quadrada - que tive o admirável trabalho de colar nas latas - com uma toalhinha. Isso mesmo, uma toalhinha! Tanta desgraça nesse mundo, e a minha mesa de latas de tinta tem toalhinha. Ai. ai, e é rendada... Bom, mas voltando ao fato de eu ainda não ter voltado para casa: estava de saco cheio. Ainda estou de saco cheio, só que preciso ir visitar minha mãe. A família inteira vai estar lá, e eu estou nojento e fedendo a bebida. Mesmo sabendo que a velha não iria ligar, estou indo em uma loja, aí vou passar em casa e só depois vou para a casa dela. É que ela está bem doente. Na pior, se querem saber. Eu vou vê-la aos domingos e às quartas, mas hoje a reunião se estendeu para a parentada toda, como que num ritual de despedida. Não que estejamos preparados para a morte dela. É que quando uma coisa é iminente, não interessa você estar pronto ou não, e sim preparar tudo para que aconteça da melhor forma. Se é que tem alguma forma boa de morrer. É que a minha velha é um tanto emotiva, então nós queremos que ela tenha a chance de dizer o que quiser para quem quiser, por via das dúvidas. Nesse ponto da narrativa eu bem poderia começar um monólogo sobre a doença da minha mãe, explicar todos os pormenores, descrever a personalidade das minhas tias gordas e os quadros da sala da casa, mas eu tou com preguiça, então vou apenas contar uma estória, de quando eu era menino.
Eu tava lá, no quintal, brincando com o barro - é que nós tinhamos uma horta. Minha velha é bem conservadora e por isso gosta de plantar a própria cebolinha, e tal. Hoje o espaço abriga uma grama ordinária, três cadeirinhas de ferro e uma mesa, minha velha também gosta dessa lengalenga de tomar chá e conversar - enfim, brincando com o barro, aí ela apareceu. Eu já tinha passado a lama até na cara, estava imundo, e quando ela chegou eu tive certeza de que ia tomar o maior esporro. Mas ela falou (eu lembro, certinho) "Luis Otávio, o jantar já está pr-- oh. Luis Otávio, vá tomar um banho para comer, meu filho." E só. Quando eu passei por ela, beijou-me a cabeça enlameada. Nosso piso era branco, e eu fiz a maior meleca com as minhas pegadas marrons, mas quando eu voltei pra comer já estava tudo muito branco de novo. Minha velha é dessas que amam a gente até quando estamos sujos de barro no meio da cozinha branca.
E agora, vejam só, eu estou meio triste. Quer dizer, ela tá lá, a beira da morte, e eu sou o garoto do xérox. Ela queria tanto me ver com o tal carro importado e a camisa de manga comprida! Eu sei que queria. Niguém bota "Luis Otávio" como nome do filho assim, à toa, sem pretensão... E eu tô fedendo. Terminei meu terceiro colegial capengando, arrumei um emprego de vendedor, e enganei todo mundo com essa de "quero só juntar um dinheirinho, mas ano que vem eu faço faculdade". Era sempre ano que vem. Até que param de perguntar da faculdade. É que eu nunca fui muito certo sobre o que queria fazer, e, pra ser sincero, eu também nunca quis muito. Quando eu percebi que já era tempo, e isso foi lá pelos 23, arrumei um jeito de sair de casa. E aí fui pra aquele moquifo, com toalhinha na mesa de centro, e não saí até hoje. Pra vocês verem até onde chega a merda da acomodação de um ser humano.
Meu vocabulário não é dos melhores, não tive curso superior, também não arrumei garota nenhuma, e assim fui ficando sem inspiração. Acabou que a vida foi passando e eu encostei num canto. Sei lá. Mas acontece que não tá nada bem. Perdi contato com os amigos do colegial (mas também eu não tinha muitos, espinhudo e encurvado como eu era), aliás, aposto que estão bem de vida hoje, os filhos da puta, a maioria de carro importado e camisa de manga. Mas não ter feito faculdade nem é o meu recalque não. Meu recalque é ter sido tão alheio. Eu podia ter dedicado a minha vida a algo importante, sabe? Não necessariamente a uma profissão, mas sei lá, podia ter virado hippie, podia ter feito algo de diferente nesse mundo, em vez de ficar apodrecendo com cerveja e televisão naquela quitinetezinha escrota. E, garoto do xérox? Mas que droga, qualquer coisa é mais vivo que garoto do xérox. Não que eu seja idiotinha o bastante para desprezar esse tipo de emprego, na verdade eu respeito muito quem rala pra ganhar a vida, seja como garoto do xérox ou como gigolô. Só que gigolô ainda teria mais emoção. Sabe? Sei lá. Garoto do xérox é monótono. Eu não queria ser milionário, mas também não queria essa vida de tédio. E, ah, a minha velha merecia mais que um garoto do xérox.
Saí do trabalho na sexta e fui para um boteco. Sou meio fraco para bebidas, se querem saber. No terceiro copo minha barriga começa a doer, e quase sempre acabo com diarreia. Mas adoro ficar ébrio. Bom, bebi uns vários copos, não comi nada, vomitei de leve, e aí bebi mais uns. Depois rumei para um puteiro. Eu sei que é triste precisar de um puteiro, e depois de vomitar ainda, quase que uma foto da decadência, mas cara, eu não tava nem aí. É por isso que eu curto ficar ébrio, é que então eu consigo não estar nem aí.
Quando cheguei lá, caramba, que tristeza que me deu. Odeio bêbado chorão, mas não deu, chorei. Umas putas gordas, outras meio pelancudas, credo. Mas arrumei uma até que boazinha. O legal mesmo foi que não transei. No quarto, continuei chorando, como uma menininha, e, pasmem, ela foi compreensiva. É lendário encontrar uma puta compreensiva. Mas essa ouviu a minha estória toda, falou uma ou outra coisa - que, alias, nem eram absurdas. Acho que no final das contas ser puta deve ensinar bastante sobre as pessoas... - e me deixou chorar. Aí eu paguei, fui beber mais pois estava voltando a ficar sóbrio e isso não era confortável, e aí fui para uma praça. O resto nem é importante. Dormi por lá, continuei bebendo e me odiando no dia seguinte, liguei pra um amigo, conversamos, ele foi embora e eu continuei na minha fossa, dormi em outra praça. Hoje de manhã eu cheguei a uma bela conclusão: a culpa é minha sim, mas a cagada não é irreversível. Tenho um empreguinho chato e uma vida chata, e isso é chato, mas se eu continuar nessa depressão boiola vou acabar é me matando. Decidi que vou passar numa loja granfina, comprar uma camisa de manga comprida e uma gravata, tomar um belo banho, fazer a barba e vesti-la; vou arrumar minha mala e depois vou lá ver minha mãe. Aí eu converso com as tias gordas, ajudo na cozinha, sorrio o tempo inteiro, dou um beijo na testa da minha velha e digo que amo muito ela. E aí eu vou embora.
Tem um lugarzinho, numa cidade litorânea a umas duas horas daqui, onde eu sempre quis morar. É um morro com vista pro mar, que não é ocupado. Vou fazer uma cabana por lá, e ficar alguns dias. Até alguém vir me mandar sair. Depois eu junto minhas coisas, volto pra cá, e se eu não for demitido, continuo sendo o garoto do xérox. Só que vou usar o dinheiro pra um curso superior. Administração, quem sabe? E já tenho a camisa e a gravata, e tal. A vida na cidade é uma bosta. Ninguém tá nem aí, mesmo sóbrios. O negócio é que ou você cala a boca e vai fazer o que tem de fazer, do tipo faculdade e puxar saco da chefia, ou você fica sendo o garoto do xérox. Esse é outro problema das cidades grandes, acreditamos mais num diploma que na pessoa que existe atrás dele...

domingo

Lugar comum

- Mas você suportaria sustentar vadios com o seu próprio trabalho?
- Então, mas a gente já faz isso. Só que eles chamam-se políticos. E outra, qual o seu objetivo por aqui? Acumular riqueza, bens e luxos, ou estar bem e ser o melhor que puder? Porque, se for o segundo - e deveria ser o segundo - você talvez devesse olhar melhor ao seu redor. Existem pessoas morrendo de fome, pessoas morrendo de frio - existências que valem exatamente tanto quanto a sua. Você suportaria ser indiferente a isso?
- Augusto, seu discurso socialista me cansa. Eu não devo ter qualquer empatia com a desgraça socioeconômica, essa é a magia de um sistema autossuficiente.
- Um sistema que cuida de si mesmo, enquanto esmaga o povo. E vocês concordam.
- Não acredito que você consiga acreditar em uma colocação tão pueril com seus quarenta e dois anos de idade. Será que você nunca vai amadurecer e entender que teoria e prática divergem? Você soa como um adolescente falando, Augusto.
- E você, Paulo, soa exatamente como um adulto. Sem sonhos, sem pretensões que não sejam graficamente prováveis, pragmático e insensível.
- E qual a vantagem em ser entusiasta? Qual o ponto em viver entre ilusões, com desejos impossíveis e com crenças equivocadas? Qual o sentido de tudo isso, depois que se olha pelo lado de fora uma vez?
- Eu não sei, Paulo. Mas responda-me você: qual é a vantagem do racionalismo e do decadentismo sob os quais você enxerga sua vida?
- Eles não são vagos ou fugidios. Seu sermão de altruísmo e empatia é quase místico. Ele não tem bases reais, foi todo fundado em esperanças e suposições. Não é um discurso seguro. Pode sim acontecer, mas eu posso citar-lhe vários exemplos - se não empíricos, ao menos embasados - de falência para o socialismo. E mesmo para a bondade humana. Não me ataque com termos pejorativos como pragmatismo ou niilismo. Trata-se de lógica. Uma lógica que demanda maturidade para ser atingida. Uma lógica que idealistas incorrigíveis, adolescentes de quarenta e dois anos, não podem compreender.
- Proposta alguma funcionará enquanto a maior parte da população continuar cega pelos discursos embasados do capitalismo. E sabe o que mais me chateia? As bases de que esses discursos se valem. São todos construídos sobre a natureza má do homem. O homem é egoísta, o homem é avarento, o homem é perverso; e todos aceitam isso prontamente. Como que "sim, nós somos sim", e ao admitir isso tivessem motivo para continuar sendo. Será que nenhum de vocês, adultos lógicos e senhores de si, é capaz de perceber o quão errado esse discurso é? Será que nenhum de vocês pode sentir que nós devemos mudar?
- Eu vejo isso como um teatro darwinista: somos todos animais em busca da própria sobrevivência e precisamos adaptarmo-nos ao meio (no caso, ao sistema), ao invés de tentarmos mudá-lo. A natureza prevalece. Você é apenas uma mutação inútil. Mais um dos que tentarão mudar o mundo para cair e ser esquecido mesmo pelos livros de história. E sabe por quê? Porque o seu gene reacionário não se encaixa no nosso contexto.
- O seu cientificismo é só o que você consegue ver. E você nem mesmo foi autor deste. É assim que eu vejo tudo isso. Eu e meus semelhantes somos sim adolescentes em ideário, mas vocês, embora adultos em comportamento, são crianças coagidas pela mídia. Vocês acreditam em tudo que uma revista especializada coloca. Vocês se ajoelham para a ciência sem questionar, pois a grande maioria não tem bases - sim, bases - para questionar. Vocês se ajoelham às faces da ciência assim como os medievais se ajoelhavam nas igrejas. E são tão cegos que aniquilam, com as próprias mãos e palavras, os dissidentes da ordem que os domina. Você está iludido, Paulo.
- Caralho, isso é o que eu mais odeio sobre socialistas. A saliva branca que espuma de suas bocas quando usam palavras bonitas em um discurso de luta de classes. Um bando de graduados cheios de morais e frustrados com o mercado de trabalho. Fracassados imaturos, que em vez de trabalhar nos próprios atributos para conseguir um emprego melhor, saem por aí mentindo idealismos sobre um mundo perfeito. Então somos todos crianças perante o pai governo. A diferença é que os mais espertos de nós sabem o que fazer para agradar ao papai e conseguir dele o que deseja, e outros choram birrentos no tapete da sala. Quer mesmo ser algo de útil, Augusto? Então cresça fronte ao governo, torne-se independente dele no lugar de reclamar assistencialismo, seja um anarquista. Continuaria sendo absolutamente inútil e você ainda seria frustrado, mas ao menos mereceria respeito.
- Ótimo. Um adulador que respeita a rebeldia e se acha digno de criticar o comportamento mais lógico para os filhos de um pai indiferente, o choro reivindicativo; brilhante, Paulo, simplesmente brilhante.
- Pois não, chame-me hipócrita agora. É a pejorativa esquerdista clássica. Lembra do meu niilismo e pragmatismo? É. Eles casam bem com hipocrisia. Corroa-se, eu até gosto. E não é por que isso me faz mais apto a sobreviver no sistema vigente. É algo sobre o meu caráter. Porque eu realmente sou egoísta, avarento e perverso, mas não é esse o meu "motivo", a minha inspiração, para continuar sendo. Não. Eu continuo sendo porque eu gosto. E eu não estou dizendo isso somente para irritá-lo - embora seu rosto avermelhando-se esteja-me sendo deleitoso de olhar -, estou dizendo tudo isso por que é a mais pura verdade. Augusto, eu conheço você há mais de quinze anos e me sinto à vontade para confessar, eu gosto e eu faço de propósito, eu sou assim e eu não sinto nenhum impulso autônomo para mudar. O que eu finjo é pela convivência social, mas meus sentimentos podem divergir um tanto. E eu não acho que eu tenha qualquer disfunção cerebral, nem que eu seja o único a sentir tudo isso. Transforme-me em um socialista, pois, em um filantropo convicto - e sincero -, e eu calo-me para sempre. Contudo, até mesmo você sabe que é impossível.

E Augusto ficou em silêncio. As luzes pareceram abaixar, onde quer que eles estivessem; a musica soou distante e fraca. Paulo reverberava sozinho, a boca espumante por seu próprio discurso, copiosamente enfeitado por palavras bonitas e silogismos também comprados, embora de filósofos menos populares, a pensar-se vitorioso daquele nada. Eles não eram vencedores ou fracassados, e eles não sabiam o que estavam dizendo.

- Você disse anarquista, sim?
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terça-feira

Tédio no senado

Hoje eu liguei a televisão no TV senado. Não vou mentir, estava tentando pôr no canal de música, mas errei o número, e então tive preguiça de mudar novamente já que eu ainda não tinha despertado completamente. Bom, com a pálpebra pesada e a bebericar meu café, comecei a assistir. Que grande decepção.
O canal está de parabéns, explicando acontecimentos históricos e o funcionamento do nosso sistema político de forma clara nos intervalos, incentivando a cultura e noticiando o telespectador sobre os projetos de lei aprovados mais recentemente. Meu problema foi com a sessão do senado a que assisti.
Apesar do meu incômodo com como o representante de tal lia mal, com estranheza, aparentando nunca ter visto antes o papel que lia, o meu problema real foi com como era feito: dois homens de idade avançada sentados em uma mesa com papéis e um copo de água, lendo suas falas - fiquei inconformada, eram falas mesmo! Um se dirigindo ao outro através da uma leitura plástica. Estavam lendo projetos de lei já aprovados e sugestões para os tais com uma entonação tão morta que eu duvido que eles mesmos estivessem realmente concentrados no que liam. Ademais, eles fizeram a reunião toda em trinta minutos, dando pausas de só alguns segundos para argumentação pelos presentes. Claro que ninguém se pronunciou. Me pareceu ser sempre assim, e não houve manifestações que desmentissem isso.
Por que, afinal, todos aqueles senadores estão recebendo salário? Nem um mísero comentário. Ao meu ver eram todos figurantes de um teatro ruim - um teatro ruim, foi a exata impressão que tive. Pessoas, instruídas e civilizadas com ternos vindos da lavanderia, lendo e ouvindo palavras de um português nada usual; fingindo o que o cargo impunha e agindo segundo as formalidades. Em momento nenhum eu vi naquilo algum tipo de vontade ou verdade.
Roupas bem passadas e palavras bonitas nunca vão resolver nossos problemas. Pessoas reais, com sentimento - estudo também - e muita determinação é que vão. Não encontrei determinação nas vozes que ouvi em tal sessão.
Contudo, a minha decepção não desmerece em nada o canal, o qual recomendo. Pode não ser mais legal que o canal de música, mas é preciso que os nossos direitos sejam sabidos por nós, para só então ser sensato esperar que sejam reivindicados. O canal é acessível por parabólicas, televisão paga e mesmo aberta em algumas cidades; além de estar disponivel no site do mesmo.

domingo

sobre a igreja católica

Aeae pessoal, foi decretado que o Limbo não existe mais. Limbo é o lugar para o qual as pessoas de bem não batizadas vão. Bom, iam né. Agora o Papa e um grupo de graduados decidiram que "como Deus é piedoso, ele quer que todos os seres humanos sejam salvos". Maravilhoso, não é? Deus quer! "A partir de agora, pela resolução do Vaticano, as crianças que morreram e vierem a morrer antes de serem batizadas poderão ser salvas." Eles deixaram!! Ah, meu priminho vai finalmente encontrar a paz, cara, eles são o máximo mesmo né?! Eu devia ir até lá agradecer com ouro e segui-los pra sempre.
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Ok, achem o quão imaturo quiserem eu tratar com sarcasmo uma questão levada a sério por muitos; não pude evitar. A notícia é um pouco antiga (bastante, é de 2007), trombei com ela sem querer e precisava dividir minha indignação com alguém. Depois eu digo que religião é criação do homem e os fanáticos se ofendem, mas poxa, o papa está aí pra provar a minha tese sem eu nem pedir. Pois ele, e seus teólogos assistentes, decidiram por si a inexistência do limbo. Ou vai dizer que deus escreveu pra eles no alto de outra montanha?! Essa cegueira me incomoda. Está tudo alto e claro, mas alguns preferem fingir. Apenas uma questão de maturidade emocional para entender o mundo sob esse ou aquele prisma, eu sei, mas defender uma instituição que se desmoraliza por livre e espontânea vontade? Por favor, acordem logo.

quinta-feira

férias

Tenho tomado banhos semanais, só escovo meus dentes de três em três dias e nunca mais estendi a cama. A louça eu uso quantas vezes precisar, e deixo as formigas se encarregarem das baratas mortas. Também tenho matado borboletas. Quer dizer, elas me incomodam e só diferem das baratas ou pernelongos pela beleza. É tão estúpido matar mosquitos e poupar borboletas.
Não almoço direito já faz um tempo. Também faz um bom tempo que eu não estudo. Do livro que eu estava lendo com tanta vontade, não viro uma página faz semanas. Os papeis coloridos que comprei pra decorar o quarto continuam na sacola, ao lado dos recortes de jornal que seriam um mural, e acho que nunca assisti a tantos filmes seguidos. Dia desses fui ao centro de pijama.
Acabei de rabiscar minha mão. Bastante. Sujei a mesa por sinal, adoro me riscar quando não tenho o que fazer. Minha barriga está queimando de fome, acho que esqueci de comer. Tanto faz, estou resolvendo com chocolate. Minha caligrafia está mundando. É engraçado, ela muda todo ano. Minha cachorra já está quase aprendendo a repôr o pote de ração sozinha. Não sei de mais nada. Estou uma bagunça e sem vontade de arrumar.

domingo

Advertir vs divertir


Me revolta irrita e indigna o sensacionalismo dos jornais televisivos. Ainda mais por nos soarem assim tão comuns. Todos os dias um estupro, um assassínio, um novo espancamento. E é claro que todas as notícias chegam acompanhadas de relatos, lágrimas e apelos. Os jornais mais lembram novelas quando especulam tão descaradamente a desgraça das pessoas. São particularidades que não deveriam ir ao ar. E o pior é que a palhaçada acontece com a nossa aprovação - o digo porque mais de uma vez os tais casos de bairro caíram em meus testes de atualidades (questões de múltipla escolha das provas semanais sobre contemporaneidades que os alunos deveriam saber).
Isso não é assunto para jornal, não mesmo. Tudo bem que o jornal em seu papel de mídia de massa tem o dever de informar o publico sobre os fatos, e eu até aceito que ele faça o trabalho de conscientização contra a violência; são, inclusive, coisas que eu aprecio. Mas há diferenças entre comentar um problema social e entreter a sociedade com seus problemas. Porque é assim que eu vejo o sensacionalismo para com os casos de bairro: entretenimento. Há não muito tempo assisti uma reportagem em que era mostrado a cena do reconhecimento do corpo de uma criança que fora estuprada e assassinada, ao fim do que a jornalista tentava conseguir algumas palavras do pai desolado. Isso é um absurdo. Não dizermos nada a respeito é ainda mais absurdo.
Imagine a sua irmã caçula vítima de pedofilia. Agora imagine todos os jornais competindo pela melhor cobertura da sua desgraça. Então, como você se sente ao imaginar as entrevistas? É gostoso pensar na edição melancólica do seu choro convulsivo no final da matéria? Que tal a foto da sua irmãzinha embaixo de todas as manchetes? Ficou feliz por ver o rostinho dela no jornal de ontem? ESTÚPIDOS.

quinta-feira

Tutela do Brasil

A mamãe fala mal do papai. O papai fala mal da mamãe. Vovô, vou votar nulo.
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Estou escandalizada. Nunca acompanhei política antes, então talvez esse seja o incentivador do meu assombramento. Contudo, mesmo por um ângulo de aceitação e banalização das baixarias do horário eleitoral, as coisas ainda me parecem sérias.
Tudo bem, alfinetadas entre as oposições eu nem tento discutir, tirar vantagem de todos os deslizes dos outros candidatos já virou pré-requisito da politicagem. O que me incomoda, ainda, são as manifestações populares. A confusão que os "militantes" causaram no Rio de Janeiro não me parece normal, nem justificável, e a bobina de fita crepe arremessada no candidato José Serra menos ainda.
Estamos em uma democracia, e em período eleitoral. Democracia, você pode se expressar livremente, sem violência. Eleitoral, você pode escolher, sem violência. Ninguém está se impondo no poder, ninguém está se colocando acima da força popular. Por que, então, tantas manifestações? Concordo plenamente com a ideia de expressão de opinião, e não vejo nada de errado em debater visões políticas diferentes. Na verdade, acho que ambos são essenciais no presente momento. Mas não há explicação para tumultos e agressões físicas.
Ontem (ou anteontem, os jornais se acumulam e ficam jogados pela minha casa) foi publicada na seção de fotos do jornal A Cidade uma pichação, aqui em Ribeirão mesmo, que incentivava o voto nulo. Fiquei muito preocupada com o ocorrido, pois a ideia de movimentos a favor da anulação de voto me parece radical e digna de um quadro imensamente mais grave que o atual - quero dizer, a Dilma tem cara de má e as olheiras do Serra me assustam, mas não estamos sob uma ditadura nem nada do tipo.
Depois procurei pela pichação para aqui publicar e me deparei com inúmeros materiais de conteúdo parecido - charges, camisas, vídeos e artigos expressando a revolta popular.
Mas eu me pergunto, revoltados por quê?
É certo que os ditos golpes baixos do horário eleitoral instigam violência, - e me atrevo a dizer que Dilma não tem maturidade para entender com o que está mexendo - mas vamos com calma. De primeiro achei tudo vil e baixo e quis desligar a televisão, já que na minha inocente concepção política era algo digno e importante, e esse tipo de ataque nunca acontecia explicitamente. Mas, superada a frustração, mudei minha visão sobre o tema. É certo. É importante. É bom que os próprios partidos se desmascarem aos olhos públicos, para que saibamos em o que estamos apostando. Mas, logicamente, a visão crítica de cada um precisa continuar alerta; ou seriamos manipulados pela primeira campanha suja que aparecesse. Só que, assim me parece, uma parte dos brasileiros não tiveram maturidade para filtrar os fatos que devem ser pesados das palavras pesadas que a oposição colocou no meio para descredibilizar o candidato. E daí saem tumulto no Rio, campanhas pró voto nulo e todo tipo de insatisfação.
Mesmo assim, há algo de estranho nesse sentimento de opressão que vem se estampando no povo, ainda mais quando as leis da democracia vêm sendo corretamente seguidas - ainda que nem sempre para bom uso, como vimos diariamente no horário eleitoral do primeiro turno - e, torno a dizer, quando ninguém está nos obrigando a nada. O povo precisa é de pensar antes de agir. Atacar os candidatos não ajuda a esclarecer suas propostas, nem a mudá-las.