"Questão a resolver: como conciliar a crença que o mundo é, em grande parte, uma ilusão, com crença na necessidade de melhorar essa ilusão? Como ser simultaneamente desapaixonado e não indiferente, sereno como um velho e ativo como um jovem?" Aldous Huxley

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quarta-feira

Amor

Quatro horas da manhã, a música ricocheteava na cabeça junto com pensamentos incertos e um tipo de enjôo. A bruma de nicotina que imperava por todos os lados estava começando a sufocá-la, então resolveu sair de lá. Das duas amigas com quem ela viera, uma já havia ido embora, acompanhada, e a outra parecia divertir-se a valer com o assunto da roda em que estava. Decidindo não atrapalhar, ela saiu sem se despedir. O plano era ir para casa, tomar um longo banho e dormir sozinha, na paz que domina uma mente depois de algumas horas de boate e tumulto.
O pub onde estavam ficava em uma ruela perdida entre a periferia nobre e a marginal, e três ou quatro ruas acima existia uma praça, onde ficavam os mototáxis. Enquanto saia do lugar, Brígida olhou para as paredes prestando atenção aos detalhes. O corredor apertado que levava à saída tinha paredes de tijolos, decoradas com espelhos manchados de margens extravagantes e folhetos de shows envelhecidos, pendurados e colados aleatoriamente. Abriu a porta e do lado de fora observou que, para quem não conhecesse o lugar, poderia passar por ali todos os dias sem nunca percebê-lo. Aquele mistério decadente de boate alternativa era realmente bonito, mas Brígida preferia o próprio quarto. Boates, por mais bela que fosse a decoração, eram sempre abafadas e sem nexo, absolutamente entediantes até que a consciência fosse entorpecida, e desde que a garota decidira não mais se amortecer com álcool ou o que fosse, a música passara a ser patética. Suas amigas, no entanto, achavam que ela precisava gostar desse tipo de coisa pra ser normal, e ser normal significava ser feliz, por isso forçavam-na a acompanhá-las de tempos em tempos. Brígida realmente precisava de ajuda, uma pena que as outras duas não entendessem que pubs não eram a solução. Chegou na praça e viu a casa velha com sofás na varanda onde os mototaxistas aguardavam pela clientela ou pelas ligações, e dirigiu-se ao único homem que estava lá. Foram até a moto, colocaram o capacete, subiram e ele deu partida. Quinze minutos mais tarde a moça percebeu que eles estavam se afastando da sua casa ao invés de se aproximarem, e perguntou se o homem realmente sabia a localização. Ele acelerou e não respondeu, então Brígida começou a ficar apreensiva. No segundo falsear devido à curva realizada bruscamente ela segurou em sua cintura, com medo, retirando as mãos tão logo quanto possível. Foi quando começou a argumentar que ele podia deixá-la ali mesmo, mas claro que em vão. Já estavam em uma estrada que levava à saída da cidade, e ela nem sequer teria como voltar caso fosse deixada ali. Tentou convencê-lo de que estavam tomando o caminho errado e pedir para voltarem, debalde. Depois de muita insistência ela gritou por socorro, e a resposta dele veio na forma de uma derrapada perigosa, depois da qual parou a moto. Ela aproveitou a deixa, incerta de estar tomando a melhor decisão, e correu. Havia campos dos dois lados, e uma estrada longa demais para chegar-se a qualquer lugar a pé por meio dela, então a única alternativa era pular uma das cercas e correr. Não era uma ideia promissora, Brígida podia perceber.
Saltou e correu, com capacete e tudo, tão rápido quanto era capaz. Ouviu o baque dos pés do rapaz batendo no chão depois de pular também a cerca, e ouviu-o começar a correr também. Era uma plantação baixa, sem árvores, não havia possibilidade de se esconder, mas ela podia ver a divisão de arame farpado para a fazenda ao lado, onde o mato e algumas árvores dariam-na maiores chances. Já sem fôlego e desesperada, pulou a segunda cerca, e ainda podia ouvir o impacto dos pés dele na terra, próximo o suficiente para alcançá-la. Logo depois de pular, começou a andar abaixada e depois a rastejar, na esperança de despistá-lo. Escondeu-se cerca de dez metros à frente, entre os pinheiros clonados que cresciam em uma espécie de bosque geometricamente programado. Entrou vários metros em tal bosque, então parou, sentou-se junto a uma árvore e tentou controlar a respiração ofegante, a fim de encobrir o barulho. Seus olhos estavam arregalados pelo terror e pela adrenalina, e a imaginação tão tomada por suposições e pensamentos de fuga que, não fosse o seu corpo em estado crítico de alerta, ela não poderia ouvir nada além de si.
Depois de um tempo que ela jamais saberia medir com certeza, ouviu os passos do homem. A respiração dele estava tão ofegante quanto a dela momentos atras, e assim sendo ele deslisou por um tronco e sentou-se exatamente como ela fizera. Mais algum tempo se passou enquanto o terror a torturava, então Brígida ouviu-o levantar-se. Lembrou-se da religião que a mãe lhe ensinara quando criança e pensou em rezar, mas logo compreendeu que, por ela não ter se agarrado a isso durante seus vinte e cinco anos, tal experiência agora não traria conforto. Como seja, ouviu passos humanos se aproximarem e praguejou, sem saber se era um castigo divino ou pura doença do mundo; levantou-se e correu mais por entre as árvores.
O rapaz ouviu o ruido, e a luz do luar e das estrelas, combinados a sua pupila já devidamente adaptada e a sua audição excitada pelo momento, permitiram-no descobrir para qual lado ela fora. Mais alguns passos e ele a encontrou, agarrou e, apesar da luta e dos gritos, jogou-a ao chão.
Não houve mais voz depois daquilo. Apenas as mãos dele e o olhar dela, de animal enfurecido, de humano ultrajado, de um ódio mais antigo que a própria existência e que perfurava-o mesmo que ele continuasse desviando seus olhos em sua agressão desesperada. Brígida lutou enquanto ele rasgava-lhe a blusa, e lutou muito mais quando suas mãos enfiavam-se repulsivamente por baixo da saia, mas quando percebeu que nem mesmo seu instinto de sobrevivência seria suficiente para igualar-lhes a força física, visto que ela era pequena e delicada, e ele, um homem forte, ela decidiu apelar para uma outra força - a dos seus olhos e raciocínio.
Parou completamente de resistir e fechou os olhos ensandecidos, amolecendo pernas e braços de tal forma que ele aproximou o rosto do dela para checar se havia desmaiado. Não é um estuprador experiente, ela pensou, pois se soubesse o que estava fazendo jamais aproximaria-se de sua boca - a circunstância merecia uma mordida de arrancar pedaço. Contudo, ela sabia que estava presa e que agredir-lhe apenas tornaria o ato mais repleto de prazer para ele. Afinal, tal atitude era a expressão de uma grande fúria e muito ódio, gerados por algum mal estar de proporções dantescas - e quem sente fúria e ódio, certamente gosta de receber fúria e ódio em troca, e a isso responder com mais fúria e mais ódio. Para atingi-lo como era preciso, a atitude dela deveria ser oposta.
Com essa conclusão (que levou apenas algumas frações de segundo) Brígida virou vagarosamente o rosto e beijou-lhe a face. Ele acelerou seu rítmo furtivo, e ela beijou-lhe a boca. Beijou tão docemente como se o amasse, lentamente, com lábios - inacreditavelmente - quentes e macios, e repetiu algumas vezes até que ele se rendeu. O movimento cessou e ele abriu a boca, ela introduziu sua lingua e imprimiu nos movimentos dessa todo o carinho que jamais fora capaz de expressar por um ser humano. Os lábios dele, até então imóveis, começaram a acompanhá-la, delicadamente, e suas ancas, de frenéticas que estavam, passaram a um movimento terno e lento como o beijo que trocavam. Ela finalmente abriu os olhos e deparou-se com os olhos dele, vidrados, com sobrancelhas em um misto de arrependimento e adoração, e uma lágrima escorrendo pelo rosto. Brígida percebeu pela primeira vez que ele era um moço muito bonito, mesmo naquela escuridão torpe e úmida. Passou suas mãos pelas costas dele, e ele se contraiu ao notificar que estavam muito geladas. Êxtase. O carinho dela se transformou em um aperto de unhas livre de julgamento. Ele abraçou-a, e depois levantou-se.
Quando se separaram, ela imediatamente começou a se recompor e tampar. Ele procurou por alguma coisa na bolsa que trouxera, e que agora encontrava-se jogada próxima a eles, enquanto chorava convulsivamente. O rosto dela não tinha expressão alguma. Finalmente, ele encontrou. Tirou da bolsa um revólver, olhou para cima e disparou. Dentro de sua própria boca. Ela gritou e se encolheu.
Uma pena nunca ter sabido o que despertara nele aquele ódio e aquela fúria. Não obstante, ele a havia ajudado. Nunca mais Brígida pisaria em uma festa, mas o conforto de seu quarto simplesmente não poderia voltar a ser deprimente e enlouquecedor como fora até então. Ela nunca mais se sentiria oca por sofrer sem motivo. Aquele homem com olhos de mel fora a única pessoa capaz de ajudá-la, e ela seria eternamente grata. Pegou a bolsa dele, o capacete, a chave da moto - que estava no bolso da calça jeans que ele sequer levantara -, e saiu. O banho quente e o vazio mental seriam muito mais completos hoje anoite. Era uma pena que o dia já clareava.



domingo

A minha coisa de cabelos castanhos

Passei pela sala, minha irmã tava assistindo um concurso de beleza.

_ Vai assistir algo que não diminua teu cérebro, Giovana. Teus neurônios tão se suicidando!


_ Lucas, vê se me erra. Por que não volta pros teus quadrinhos infantis, hein? Aquilo sim é intelectualidade. Aposto que teu QI triplica a cada fala de 100 caracteres.


Mas eu nem tava lendo quadrinhos. E não eram infantis, mas ela nunca tinha aberto um. Saí no quintal, me apoiei no varal pelas juntas dos braços e soltei o peso. O varal é meio baixo e eu sou meio alto. Fiquei passando o pé descalço no chão molhado, choveu agora há pouco, e fiquei encarando o céu com os olhos espremidos, acho que eu devo passar menos horas enfiado no meu quarto ou vou acabar fotofóbico. Tanto faz, nem gosto muito de sol de qualquer jeito.


Depois de um tempinho o braço começou a doer, daí andei um pouco em círculos e voltei pra porcaria do meu quarto. Deitei na cama. Caralho, que tédio. Talvez eu devesse mesmo ir ler um quadrinho. Sabe, eu era bem ligado nessa de quadrinhos, me divertia à beça. Sei lá por que, mas ultimamente perdeu a graça. As publicações novas não estão prendendo meu interesse, e os clássicos que eu já conheço de cor se tornaram insuportavelmente monótonos. A Giovana deve estar certa. Acho que eu fiquei velho pra aquela merda.


Sentei no computador e entrei no msn. Tem que ter um desgraçado à toa pra sair comigo. Rolei a barra. Ninguém de interessante, que merda. Fui ao youtube, mas que estranho, nenhuma das bandas que eu conheço surtiram qualquer efeito. Aí abri outra aba e digitei por ninfetas, no google imagens. Eu poderia procurar pornografia de verdade, é que sei lá, tô quase bêbado de preguiça, quero algo leve.


Umas menininhas pirralhas, que coisa não?, e umas outras anônimas no momento daquelas fotos provavelmente tão entediadas quanto eu estou agora. Fui passando as páginas, mas nem deu vontade de continuar. Uns peitos feios, disformes. Deixa pra lá. Aí notei que a Julinha tava online. Julinha é minha amiga. Às vezes a gente se pega, outras vezes a gente só conversa. É que a Julinha é meio criança de vez em quando, mas ela é engraçada. Cliquei no nome dela e disse que tava indo pra lá, ela nem respondeu mas eu fui mesmo assim. Ela mora aqui perto. Fui saindo, aí a mala da minha irmã chamou querendo saber quando eu voltava.


_ Sei lá Gi, antes do natal.


_ Idiota.


_ Fala pra mãe que eu fui na casa da Julia.


Aí ela respondeu com um grunhido afirmativo e eu saí. Sei lá, eu gosto da minha irmã. Ela é meio imbecil às vezes mas é coisa da idade. O porteiro já me conhecia, então me deixou entrar, aí subi com o elevador e cheguei a mão na porta. Aconteceu que tava o maior berreiro lá dentro, então eu não bati na porta. Era o pai dela gritando com ela. Hesitei por uns segundos, e quando eu ia decidindo que era melhor ir embora ouvi um barulho na maçaneta. A porta abriu e o pai dela saiu, transtornado e ofegante. Eu sai do caminho dele. Ele se sobressaltou um pouco com a minha presença, mas bem pouco. Aí parou na minha frente, olhou pra minha cara, primeiro com vestígios da raiva que expressara há pouco, mas logo em seguida ele soltou o ar que estufava-lhe o peito e me lançou um olhar de derrota. Eu fiquei meio sem reação, não sabia se devia abraçar ele ou ficar puto por ele ter gritado daquele jeito com a minha amiga, ou simplesmente correr antes que toda aquela fúria voltasse e se virasse pro meu lado. Mas acabei só ficando parado, com cara de taxo. Aí o pai dela saiu e desceu pelas escadas, sabe-se lá para onde, sem transparecer mais nada. Eu entrei.


A cena era meio triste. A Julinha tava sentada no canto da sala, abraçada com os joelhos, chorando aos soluços, parecia uma criancinha indefesa. A Julia tem muito disso. Tem hora que ela é inconsequente e maluquinha, e impera sobre a turma toda. Mas tem outras horas que ela simplesmente fica vulnerável e desprotegida, e por algum motivo nessas horas eu fico louco de vontade de abraçar ela bem forte, fazer um carinho e dizer que vai passar. Foi mais ou menos o que eu fiz.


Fechei a porta e tranquei, a chave ainda estava lá, e fui me sentar ao lado dela. Ela só levantou o rosto pra ver quem era, mas continuou exatamente como estava. A gente ficou lá em silêncio uns quarenta minutos, eu encostado na parede e ela encolhida em mim, e as lágrimas foram acabando. Findo esse tempo, ela disse que tava com fome. Eu sei que eu devia ter levantado e ido arrumar algo pra ela comer, mas se eu deixasse aquele momento de fragilidade escapar, ela nunca ia me falar exatamente o que estava acontecendo. A Julinha é bem assim. Ela é completamente legível por suas atitudes e comentários, mas tirando os momentos de desgraça em que abaixa todas os muros, ela nunca fala qual é a real. Ela é carente pra caramba, mas odeia expor os fatos. Eu não sei do que ela tem medo, mas sei que ela se sente tão confortável nessa instabilidade que evita racionalizar. Ohei pra cara dela e perguntei bem sério:


_ Porque ele tava gritando?


Ela ficou em silêncio. Deu pra ver que ela estava metade lidando com a dificuldade que tinha pra responder, e metade planejando como desconversar. Mas acabou soltando:


_ Ele tá exausto de mim, assim como todo mundo. E ele está certo. Eu tenho feito todo mundo louco. Eu tô fazendo de tudo pra tornar mais doloroso pra ele, mas eu sei que não foi culpa dele. Sei mesmo. É que eu sinto muito ódio, e tenho descontado nele, por ele ser o único que tem obrigação jurídica de me suportar, mas também em mim mesma. Por isso tanta inconsequência. Por isso tanta resposta ríspida. Mas eu tô acabando com ele, e hoje ele precisou gritar. Ele disse que eu sou a maior egoísta do mundo por querer piorar tudo pra todo mundo só porque eu não consigo superar. Ele foi pra um hotel e me deixou o número dele. Disse que ele também tem algo para superar, mas que se eu mudar de ideia, é só eu ligar e ele volta pra cá, pra nós passarmos por isso juntos. Aí eu gritei que ele queria era reconstruir a vida dele com qualquer vadia e deixar eu me me matar que nem ela fez, que queria se livrar do estorvo que eu sou assim como se livrou dela, ou então deixar eu me perder no mundo pra parar de impedir a felicidade dele. Eu disse um milhão de bobagens, todas as piores que eu fui capaz de pensar. Aí ele respondeu que queria que eu entendesse a realidade, e saiu. Mas eu sei que tô errada e ele tá certo. Eu tô com muita fome.


Eu fiquei impressionado com a sinceridade e completamente assustado. Aquela era uma Julia que eu nunca conhecera. Ela falou baixo e lentamente, sem perder o fluxo, e eu estava comovido por ela ter conseguido. Ela definitivamente precisava dizer aquilo em voz alta. Isso foi de uma maturidade que ninguém jamais poderia supor que aquela Julia drogadinha e hostil pudesse ter. O que aconteceu foi que a mãe dela se suicidou, faz acho que cinco meses. A mãe era maníaco depressiva, e um dia simplesmente resolveu tomar uma coleção de comprimidos pra foder com a vida de todo mundo, inclusive a própria. A Julia ficou revoltada, e daí saiu toda essa merda. Levantei e fui até a geladeira, que estava caoticamente vazia. Ela e pai estavam arrasados, nada estava certo pra eles, logo a despesa não estava sendo feita regularmente. Acabei arrumando um macarrão, ajeitei a mesa e tudo, e depois de meia hora fui até a sala e levantei a Julia, que ainda estava no mesmo canto, mas agora toda esparramada e com os olhos vagos. Levei ela até a mesa, comemos em relativo silêncio - ela só agradeceu e elogiou a comida - e quando terminamos, ela me surpreendeu ainda mais: ela sorriu. Levantou, chegou perto de mim, se ajoelhou em frente à minha cadeira, e sorriu de boca e olhos de um jeito todo lindo. O cabelo dela estava uma zona, o nariz vermelho e o rosto inchado, com algumas marcas de unha pelo rosto, mas mesmo assim ficou bonita quando sorriu. Mais bonita ainda porque sorriu pra mim. Aí ela disse "obrigada", beijou minha boca e me deu um abraço terno. Depois me olhou com olhos convidativos, meio safados e um tanto debochados, comprimiu o sorriso, pegou minha mão e foi me guiando até o banheiro, ligou o chuveiro, tirou a roupa e sentou na banheira, de costas pra mim, e foi jogando a cabeça pra trás até que pudesse me ver, de ponta cabeça pela perspetiva dela. Então ela me lançou a maior risada de criança, e eu acabei indo ensaboar o cabelo dela com o xampu. Depois levei ela pro quarto, estendi um cobertor e fiquei lá, olhando ela dormir. Ela era super bonita e eu estava louco de vontade, mas acabei sendo só um pai. Na verdade eu sabia que naquela hora ela precisava mesmo era de um pai, ainda que não soubesse. Na manhã seguinte minha mãe ligou perguntando quando eu voltava, e eu disse que ainda tava na casa dela e tal, aí me lembrei do puta vazio existencial que estava me corroendo antes de eu entrar naquele apartamento. Acho que todo mundo devia usar suas horas de tédio maluco pra cuidar de alguma coisa. Qualquer coisa. Isso preenche, tá ligado? Isso faz bem, e é mais útil. Agora eu vou levar a minha coisa pra tomar um sorvete. Só não consigo decidir se vai ser um programa pai e filha ou um encontro de casalzinho. Pretendo ficar aqui mais uns dias, e depois eu sei que ela vai ligar pro pai dela e ter uma conversa longa e pessoal. Aí eu volto pros meus gibis.

Identificação (continuação)

- Oi Felipe. Tudo beleza? Cara, cê tá com a maior cara de destruído. Não tá dormindo direito não, é?
- Oi Ed, tô bem sim cara, e você? É, tou quebradaço, tá dando pra perceber? Que merda.
- Mas e a Andressa, ela não veio? Como ela tá?
A Andressa. Felipe sentiu uma enorme preguiça, então, pois o Ed e a Andressa eram colegas e conversavam entre si, então ele precisaria contar a estória da traição, e isso pouco a pouco chegaria nas tias e nas primas e mais olhos julgadores cairiam sobre ele, o que definitivamente não era conveniente agora. Acontece que Felipe não tinha escolha, e mesmo que não contasse nada, Andressa contaria dali a alguns dias, e certamente dramatizando tudo e fazendo-o parecer um crápula. Mas que merda, de novo. Não tinha saída.
- Nós terminamos, cara...
- Sério? Nossa, que duro... Sinto muito. Que que aconteceu? Cês eram tão casalzinho, velho... Não entendo mesmo.
E então Felipe contou sua versão da mentira. A reação de Edmundo foi supreendente. Edmundo tinha lá seus dezoito anos e ainda não abandonara sua rebeldia adolescente. Quando questionado, ele jurava não pertencer a tribo nenhuma, dizia que se limitar assim era ridículo, que ele não era estereotipável, que ele era ele mesmo e pronto. De qualquer forma, para facilitar a descrição, Edmundo tinha algo de punk. Seu cabelo era preto com as pontas azuis, habitualmente espetado, mas agora, com a família toda reunida no aniversário do avô, estava molhado e penteado para baixo por insistência da mãe. Bem, Edmundo tomava banhos e tinha um tênis surrado no pé, no lugar do imaginável coturno, logo ele não era tão punk assim, mas sua jaqueta de couro e a tatuagem do simbolo do anarquismo continuavam ali. O menino era inegavelmente libertário, visivelmente aberto a novas correntes de pensamento, e isso permitia que ele tivesse um ideário de respeito ao diferente, o que confortava Felipe. Mas, apesar de tudo isso, Edmundo tinha uma moral reta, e em circunstâncias normais teria abominado algo como traição em um relacionamento tão sólido como era o de Felipe e Andressa, já que isso quebrava a noção de respeito mútuo, que era algo que Edmundo colocava acima de tudo. Foi por isto que Felipe se surpreendeu: Edmundo perguntou-lhe, com sincera incompreensão e visível perplexidade, contudo sem julgamento ou acusação, o motivo para ele ter feito aquilo.
Era óbvio que traição não fazia parte da personalidade de Felipe. Edmundo sabia bem disso. De todos os primos, Edmundo era o que conhecia-o melhor, e ao unir tal ato com sua feição derrotada, percebeu que o primo não estava bem. Ed colocou a mão no ombro de Felipe e sugeriu que fossem conversar do lado de fora. Felipe, alheio a tudo, deixou-se guiar.
Quando chegaram na esquina do quarteirão, que ficava cinco casas depois da casa onde estavam, sentaram-se no meio fio. Felipe, primeiramente, deixou-se ouvir apenas o silêncio do local, que era prazeroso depois de passar horas condicionado às músicas e vozes da festa do avô. Depois, foi interrompido por um grande nervosismo de quem está prestes a contar uma mentira que ainda não inventou. Foi quando Felipe olhou para Edmundo. Edmundo era diferente. Edmundo não julgava as pessoas. Edmundo era o mais parecido com um amigo que Felipe jamais tivera. E, quando Felipe olhou-o, foi retribuído com um olhar de paciência e preocupação. Felipe sentiu, naquele momento, que confiava no primo, e por isso permitiu-se chorar na frente dele.
- Eu... Eu não traí ela. Ed, você já sentiu algo que você soubesse que era inofensivo e sincero, mas que você tivesse a certeza de que ninguém entenderia?
Ed enrugou a testa e olhou para a rua enquanto pensava, e quando Felipe começou a sentir-se envergonhado, a resposta veio:
- Cara, claro que já. A opinião dos outros fere muito a gente, e claro que nem todo mundo entende aquilo que nós pensamos. Por isso tem gente que deixa de falar muita coisa que pensa. A incompreensão dos outros chega junto com reprimendas, e não interessa se o que a gente fala é sincero e inofensivo, nem todo mundo vai achar isso. Mas eu falo mesmo assim.
Isso era o que Ed tinha de mais bonito, Felipe pensava. Ele sabia responder as palavras certas mesmo sem saber os detalhes do problema exposto. E ele não exigia sabê-los. Felipe ficou absurdamente contente quando Ed não perguntou mais nada. Ficaram os dois em silêncio olhando para a rua vazia, sentindo ambos um conforto e um contentamento simples que não tinham há um bom tempo. Então o celular de Felipe tocou.

Continua

Repressão

foda-se vc. e qr saber? eu q me foda, tbm. nós temos problemas. ñ estou tentando vestir a personagem de menina fodida na vida. eu ñ sou. ms nós temos problemas sim. e vc ñ tá com a menor vontade de se desdobrar pra abraçar os meus. nem eu os seus. tanto faz.
Recebida: 17:19:10
Hoje
De: Andressa
01692573664

Felipe fechou o celular e colocou-o de volta no bolso, sem afetação pela mensagem. Na verdade até revirou os olhos depois de lê-la. Não é que Felipe não tivesse sentimentos ou consideração por Andressa, e sim que ela simplesmente não entenderia. Ela nunca entenderia. Andressa tem aquela mania de entrar na mentalidade das pessoas e julgar o que elas estão fazendo a partir do motivo pelo qual ela (acha que) sabe que a pessoa está agindo. Acontece que ela se mete a psicóloga e vive convicta de que está certa, mas não percebe que algumas pessoas destoam do pequeno padrão que ela tem de seres humanos. Vez ou outra formam-se por aí seres humanos mais complexos, menos lógicos, do que aqueles com os quais ela sempre conviveu. De fato ela é excelente com pessoas comuns, realmente tem sucesso ao lê-las. Contudo, Andressa nunca conheceu pessoas de fato problemáticas, e por isso não sabe compreendê-las. E isso não significa que Felipe seja um garoto problemático, como Andressa sugeriu por sms. Ser problemático é muito mais profundo, muito mais completo. Mas Felipe não era, digamos, um garoto mainstream, e por isso a psicologia rasa de Andressa não o incluia. Ele, entretanto, entendia Andressa muito mais do que ela jamais saberia - e por isso se colocou afastado.
Felipe estava em uma festa de família, aniversário do avô. Assim que devolveu o celular ao bolso e transpareceu exaustão, pôs-se a inspecionar os arredores para assegurar que nenhum parente havia percebido sua infelicidade. Felipe era muito fechado, mas essa não era a real causa de tamanha preocupação. Era só que dizer a verdade no momento seria embaraçoso demais, além de quase impossível. O menino não estava pronto para dizer o que sentia em voz alta, não estava sequer seguro sobre isso. Além de tudo, ele estava com medo. Olhou para a mesa de salgadinhos: nenhuma prima ou tia por perto, decidiu distrair-se com alguma comida. Andressa sim era bastante padrão. Ela não tinha consciência disso, mas era completamente vítima do sistema. Ela era insegura, sentia necessidade de ser considerada bonita, não suportava críticas e trocava o formato do salto periodicamente como mandavam as revistas. Essa estória de ela ler filosofia ou gostar de compreender pessoas era uma grande fachada, ademais conhecimento nenhum transforma o caráter sem que a pessoa se empenhe para tal - e, como dito, Andressa nem mesmo sabia que ela era um perfeito clichê. Felipe fora namorado dela, por dois ano e três meses. Ele finalmente percebera que estivera enganado quanto a ela, que deixou-se apaixonar pelo estandarte que ela carregava e por uma menina que de fato não existia em lugar algum fora da cabeça dele. Quando Felipe, enfim, deu-se conta disso, a relação perdeu todo o sentido. Talvez esse tenha sido o empurrão fatal para a conclusão que atormentava-o então, mas com certeza não fora o início. Uma única decepção amorosa não seria suficiente, o homossexualidade é profundo e pessoal demais para ser concebido com uma única experiência frustrante.
O ponto é que Andressa não entenderia. Foram namorados por anos e Felipe tinha absoluta certeza de que ela jamais estivera suficientemente ciente da linha de raciocínio dele para compreender algo tão significativo. Andressa não sabia nada sobre ele, assim como não sabia nada sobre pessoas diferentes do padrão. A bem dizer, Andressa não sabia sobre nada que não se referisse a ela mesma ou a matérias escolares. Felipe não podia abrir-se com ela. Além disso, ele sempre esteve muito desconfortável com outros garotos, pela insegurança e pelo medo que sentia ao flagrar-se pensando em coisas que, tecnicamente, não deveria. Não que ele achasse errado ser homossexual, mas ia contra a educação que ele tivera - que ele engolira à força - até então. Com isso, acabou isolando-se por conveniência, e, embora Felipe tivesse sim alguns colegas, nenhum era íntimo o bastante para ajudar com a angústia que ele sentia no momento.
O menino, confuso e desorientado, suportou o namoro até o último instante. Contudo a futilidade e o egoísmo de Andressa estavam sufocando-o, além de sua carência e possessividade, e Felipe definitivamente não estava passando por um momento compreensivo de sua vida, por isso terminou o namoro. Como a descoberta de sua homossexualidade, somado a sua confusão mental, tinham gerado o congelamento completo dos carinhos dele com ela, e como tudo isso deixara-o absurdamente introspectivo e alheio às (constantes) crises dela, Andressa - quase que logicamente - acusou-o de traição. Felipe ficou muitissimo triste com a desconfiança dela, mas decidiu que seria mais fácil e eficaz mentir traição no lugar de confessar sua recente revolução interna. Disso tudo foi que emergiu a vigésima sétima mensagem enfurecida de Andressa, recebida instantes atrás.
Tendo em mãos a estória real, entretanto, fica claro que Andressa, por sua ignorância quanto aos verdadeiros motivos, estava julgando tudo errado. O caso é que Felipe não liga. Ele até reconhece que seria mais justo, mais moralmente correto, contar a ela o que realmente estava acontecendo. Na mente dele até latejava a necessidade de fazê-lo. Mas não hoje. Não ainda. Primeiro ele queria estar certo sobre o que estava sentindo, sobre seus motivos e sua determinação. Antes de qualquer coisa ele queria criar coragem, conseguir forças e compreender seus anseios - e não era um desejo imoral. Depois ele conversaria com a família. Com Andressa. Pouco a pouco sua opção sexual deixaria de ser um grande impasse, um obstáculo, e se transformaria em algo natural e sem peso, em algo indiferente no que tange à personalidade e à essência dele. Ele só não estava pronto ainda. Seria muito difícil para Andressa e para a família efetivamente aceitarem e compreenderem sem julgar aquela "nova" característica. Felipe estava refletindo sobre o enorme obstáculo que figurava assumir-se algo frequentemente incompreendido. Também tinha vagos vislumbres sobre conceitos como liberdade e autenticidade. Felipe pensava um turbilhão de coisas grandes e complicadas, quando um primo, dois anos mais novo que ele e visivelmente diferente do comum, aproximou-se e puxou assunto.

Continua

quinta-feira

A revolução que eu hei de instigar

Por que estamos nos fechando, nos calando e fugindo? Quanto mais eu aprendo sobre o mundo de hoje - globalizado, urbanizado, industrializado, científico, racional e superlotado -, mais eu percebo que as pessoas estão agindo mal consigo.
Que não soe como propaganda socialista, mas na nossa sociedade as pessoas estão tão presas ao consumo ou ao trabalho que esquecem de zelar por sua própria condição como ser humano. De tão atarefados, percebo que o padrão é que elas ignorem valores pessoais, autoentendimento, as crises existenciais rotineiras e os anseios de mudança para gastarem seu precioso tempo em banalidades estéreis: o trabalho, os filmes e livros massificados, as compras e o transporte coletivo estão roubando-lhes preciosas horas de existência.
O problema é que esse costume vem se transvestindo em algo natural e, o mais preocupante, cultural. O perigo desse crescente desinteresse com questões psicológicas profundas é que os nossos sentimentos não se apagam simplesmente por não receberem atenção. Na verdade eles se agravam, pois, quando não são corrigidos ou canalizados no começo, sentimentos dessa espécie tendem a crescer e a tornarem-se comuns, de forma que, a cada dia que passa, fica mais difícil dar-se conta do absurdo daquela tristeza irracional, cuja tendência é ser considerada normal.
E é por isso que, dizem os jornais, o consumo de calmantes e antidepressivos atual é tão grande. As pessoas ignoram o próprio inconsciente pela dificuldade que representa tentar entendê-lo, e assim seus problemas escapam do controle. Quando esses problemas começam a realmente interferir na rotina de seu sujeito, este procura por drogas psiquiátricas para calarem-no sem gasto algum de tempo ou psicologia. E o resultado é a perda da consciência de si mesmo, da própria existência.
Quando alguém opta por alienar-se de si, a capacidade crítica e de criação dessa pessoa é seriamente danificada. Alguém que prefere fechar-se para os próprios sentimentos não é capaz de ajudar o mundo com novas ideias, não é sequer capaz de agir por alguma causa. Nós, cada um de nós, somos o ser mais importante do universo em nossa própria concepção - nascemos vivemos e morremos conosco, nossa lucidez para com nossa condição é o que há de mais precioso, deus nenhum pode salvar-nos da loucura de não estarmos presentes em nós mesmos. Logo, se abdicamos desse autoacompanhamento, se entregamos nosso estado psicológico ao acaso enquanto escondemos os sinais de que algo precisa ser feito quanto a eles com antidepressivos, por conseguinte, se deixamos de estar presentes em nós mesmos, como podemos estar presente em qualquer outro assunto? Como podemos ter alguma opinião política? Como podemos ter algo a dizer? A desimportância das pessoas consigo, que anda em voga no século XXI, causa mais que alta nos números de depressão e insatisfação: causa também alienação política, o que viabiliza corrupção, manipulação, injustiça - todos fontes de novas crises emocionais subconscientes.
As pessoas têm fechado os olhos para a própria condição na esperança de encontrarem fora de si a realização e o incentivo que as faltam, e aparentemente têm procurado-no no consumo e nos ídolos do rock, e estes, tenho dito, são drogas psiquiátricas providenciadas pelo governo para manter o povo quieto e distante como convém.
Entretanto toda droga para de fazer efeito um dia (não há meia vida que suporte tantas depressões consecutivas), e quando doses suficientes não puderem ser encontradas - o que eu não acho improvável, pois a desesperança, o niilismo e a preguiça existêncial podem reproduzir-se tão rápido quanto bactérias em um meio adequado, e a juventude hodierna é o meio adequado - quando doses suficientes não puderem ser encontradas, restar-nos-ão duas alternativas: enlouquecimento e suicídio, ou, minha preferida, revisão de conceitos.
Quando, finalmente, depois de muita decepção, as pessoas começarem a descobrir que reprimir suas tristezas por praticidade está fazendo-as doentes, quando entenderem que não há nada que resolva o vazio interno senão autobservação, elas irão (serão obrigadas a) dar um basta e enfrentar a si mesmas. Só depois dessa revolução pessoal será possível alguma mudança - mas, para os que dizem que a minha geração não tem valor histórico, eu peço mais algum tempo. (revoltas em Londres, revoltas no Chile, revoltas no Mundo Árabe... evite julgar um ser humano antes que ele amaduresça, é tão injusto...)

Uma instrospecção de um professor que hoje ganhou minha estima:
"A mente é a droga. Pensem, imaginem, que dá barato. Mas tomem cuidado, tudo tem uma contraindicação..."

domingo

Um papel que achei no chão

Queria começar dizendo que é bem mais fácil quando você é bonita. Não digo apenas pelo meu emprego de entregar flyers no semáforo, mas por tudo. Ser bonita facilita a vida: você pode cortar fila em casos de extrema urgência, respondem com mais vontade quando você pede informações na rua, conseguir favores torna-se mais fácil e as pessoas se aproximam com mais frequência. Não dá pra negar que o mundo é mais simpático com quem é bonito. E eu sou bem feia.
O que existe no interior de cada um é o mais importante, mas não se finjam inocentes: as aparências são essenciais sim e todos nós somos primeiramente julgados por elas. Mesmo porque é o interior, e rápido como as pessoas olham umas pras outras hoje em dia - afinal, existe gente demais -, ninguém faz muito mais que ver superficialmente a superfície. E não foi pleonasmo.
Quanto a escola, preciso desabafar, a escola é o inferno para quem não nasceu bonito. Os apelidinhos e o tal do bullying eu não vou nem me preocupar em descrever porque eu acredito que todos que já passaram pela escola - feios ou não - sabem exatamente do que se trata. Mas alguns detalhes somente nós, feios, sabemos de fato. A desconfiança dos professores, que secretamente acham-nos sempre mais plausíveis de culpa pelas taxinhas na cadeira ou qualquer ato que o valha. A chacota do sexo oposto, sempre pronto para humilhar nossos anseios. O espelho do banheiro feminino. O julgamento cruel e escancarado de todos para tudo o que você faz ou diz. As comparações...
E então o feio cresce, sai fora da escola, arruma um emprego e acha que tudo vai melhorar - mas é óbvio que seus chefes continuaram julgando-o, e as pessoas continuaram negando-se a pegar seus folhetos, e perder-se em um bairro nobre será sempre um grande problema.
Nós feios fomos fadados à vergonha, a vivermos escondidos e a passarmos ligeiros como animais, fomos rebaixados em termos existenciais, e temos que aceitar diariamente o nosso legado. Você, bonitinho, pode achar que é exagero, mas eu digo que não é. Por nossa desgraça existencial não ser assim tão explícita, quem não partilha do sentimento tende a achar que estamos mentindo. O ponto é que nada disso é perceptível exceto para aqueles que o sentem por experiência própria. É impossível explicar corretamente um preconceito que o interlocutor nunca sofreu. A causa do nosso sofrimento não é visível, mas ainda assim é concretamente sensível e sofrível e enorme para os que estão sob seu prisma de incidência.
Mas, acreditem ou não no suplício de ser feio, não é sobre isso que quero tratar por aqui. Quero falar sobre preconceito. Eu concluí o ensino médio, tenho e hoje dezenove anos, trabalho como estagiaria em uma pequena firma e estou matriculada em um curso profissionalizante. Entregar flyers é um trabalho extra para financiar um carro. Acontece que a obsessão humana pelas aparências já me fechou muitas portas, e eu não vou manter isso no anonimato. Empregos, relacionamentos, amizades, sucesso. Porque ninguém quer que alguém feio represente algo grande e importante, como ser oradora da turma, e muito menos se esse algo envolve dinheiro, no caso de uma empresa. Qual parte de ser gorda invalida-me para ser secretária? O mundo está ficando cego tamanha a importância que guardam ao âmbito visual, pois a visão a qual me refiro é aquela que absorve o sentido do quadro, e não apenas a fotografia. Eu não tenho o arquétipo propagado pela moda, mas minha fisiologia e meu espírito são iguais aos de todo mundo, e eu desejo e choro e sorrio e sonho e sinto tanto quanto qualquer um.
Semana passada eu estava entregando os panfletos quando cheguei em um palio cinza. Como eu estava andando entre as duas filas, entreguei-o para uma garotinha que tinha lá seus seis anos e estava ilicitamente no banco do acompanhante, de vidro escancarado, provavelmente divertindo-se a valer com o vento e a paisagem. Quando eu entreguei o papel, ela me olhou e sorriu com a maior sinceridade. Acho que ela ainda não sabia o que se convencionou que é feio, por isso foi capaz de me olhar nos olhos e sorrir com espontaneidade. E, sabem?, aquilo me motivou. Afinal, eu não seria feia se ninguém tivesse imposto um padrão para isso. E não existe um padrão além desse inventado. Se uma criança que ainda não aprendeu-o pôde olhar-me sem dó e sem julgamentos, então talvez quando as pessoas conseguirem desaprender as regras que separam beleza e feiúra, elas possam olhar-se como a garota do palio cinza.
...Mas não é uma tarefa simples.
Acontece que, depois daquele dia, eu decidi que vou ao menos tentar fazer algo a respeito. E foi por isso que escrevi esse flyer, que você está lendo. Encontrei nisso uma forma de ativismo ideólogico e não vou abandoná-lo, independente de quantas pessoas amassem e lancem ao chão perante os meus olhos esse texto que escrevi com sentimento e imprimi com meu dinheiro - vou continuar distribuindo-os em nome do bem estar que senti quando aquela menina me olhou. Porque eu desejo que todos os feios sejam olhados daquela forma um dia. E também os deficientes, os errantes e os viciados. Eu desejo um mundo em que as pessoas se olhem sem subliminaridades. Eu anseio por um mundo sem preconceito, e por isso vou continuar imprimindo e entregando panfletos.
Fico muito feliz por você ter lido esse texto no lugar de tê-lo amassado e jogado ao chão ou ignorado no tapete do carro; já que ele é extenso e não tem joguetes publicitários para prender sua atenção: acontece que normalmente as mensagens mais importantes não vêm em tinta fluorescente ou letra tamanho 36... Repasse a mensagem em nome de um mundo melhor.

terça-feira

Nossas páginas

"People are just people
They shouldn't make you nervous
People are just people like you..."
(Regina Spektor, Ghost Of Corporate Future)


Sempre ouvi dizer que todos somos legais até a segunda página. Estou começando a discordar. Afinal, todo mundo é legal exatamente depois da segunda página - na máscara somos todos clichés. É inegável que nas primeiras conversas com alguém estejamos todos encenando um papel, fingindo sermos o que melhor nos aprece, ou mostrando a nossa face mais trabalhada. E essa parte da relação é tediosa. Mais tarde, quando tirados os saltos e as maquiagens, é que a pessoa começa a mostrar quem ela realmente é. Somente lá pela quarta página é que podemos descobrir-lhe as reais qualidades e defeitos, sentir algo em relação a ela e ter um esboço de opinião a respeito. Antes disso, é tudo raso e fútil.
Mesmo porque julgar a pessoa até a segunda página é a maior injustiça. E se a casca dela não condiz com a sua? Isso não deveria significar que vocês não se darão bem. Quem já foi forçado a conviver com alguém cuja máscara lhe fosse repulsiva talvez concorde: depois da segunda página, quando não há mais tribo, classe social, time ou partido político, todos nós somos muito parecidos e capazes de afinidades. As primeiras páginas só servem para seccionar as pessoas, algo que eu acho extremamente inútil e triste. A diversidade da mentalidade humana é o que mais me encanta, não consigo concordar com a ideia de fugirmos de pensadores à priori diferentes.
Mas não posso fechar meus olhos ao fato de que estar rodeado por semelhantes gera conforto e é essencial, já que do contrário nos sentimos deslocados e frágeis e isso é muito desagradável. Insisto, porém, em que não passa de uma questão de ponto de vista: só iremos nos sentir estranhos longe de máscaras com as quais nos identificamos enquanto classificarmos as pessoas por tais máscaras. Uma vez entendido que essa casca é dispensável e estando-se decidido a olhar mais fundo, nós podemos compreender e sermos compreendidos por qualquer um. Sentirmo-nos deslocados é um erro da cultura imposta quando entendemos que o ser humano é nada além de um ser humano, em qualquer lugar. Aceitar e ser aceito só depende de lermos o trecho inteiro.

sexta-feira

"rambling man"


a gente morre o tempo todo. a gente vive morrendo, de novo e de novo. falamos coisas que não fazem sentido, com ou sem pretensão de parecer quaisquer coisas. agimos sem coerência, pra arrependermo-nos mais tarde. ou não. às vezes não ligamos a mínima. se eu me preocupo com a gramática e falo palavrões, é porque e apenas porque eu vejo que sempre erro na gramática, e ainda torço o nariz para alguns verbetes. essa romantização do ser e do não ser não faz o menor sentido, mas não deixa de ser tocante. o mesmo para a idealização do escrever, quando escrever é vazio. às vezes é esse vácuo mesmo que idealizam. a gente adora idealizar o ignóbil. no fundo a gente não faz ideia de o que pensa. e de o que somos. huxley me agradou hoje pela manhã, através da obra de um personagem. eu sempre reclamei não ter tido nenhum motivo maior, grandiloquente ou traumático que fosse, para moldar-me a personalidade - escolhi a dedo tudo o que fingi ser até agora. anthony, o personagem, colocou que a única possibilidade sincera de personalidade é aquela que não se é moldada pelo meio. aquela que não se define e que não tem razão para ser, pois somente esta pode vir do nosso verdadeiro âmago, e não de um desenhado pelas circunstâncias. ou talvez anthony não pensasse nada disso e o meu cérebro tenha deixado-se divagar demasiado. mas, independente disso, ele logo se embasbaca em sua própria desgraça de caráter romântico e justifica as conclusões como fugas generalizadoras vazias de significados, as quais ele apenas buscou por consolo fraco. não vou desmenti-lo, pois então ele explica que apenas os bárbaros e ignorantes têm uma personalidade, pois nada sabem de si, ou em que podem transformar-se, e a partir dessa linha deixa de felicitar-me para cair de cara em uma explicação surda. existir é tão vazio. ser. a gente não é. a gente nem sabe o que fazer para começar a ser. personalidades, limites, obras... não passam das fugas generalizadoras do anthony. do huxley. suas e minhas. e tanto faz ser romântico, intelectual, claro ou caótico - e ninguém está sugerindo respectividade entre essas linhas -, o homem "não-é" do mesmo jeito. e se eu perdi a clareza, não quer dizer que já não tenha um sentido. ao menos não obrigatoriamente. que seja. o homem não-é. o homem não-sabe. mas ele quer... só que, bem ou mal, eu estou morrendo agora mesmo.

oh naive little me, asking what things you have seen, and you're vulnerable in you head
you'll scream and you'll wail 'till you're dead
creatures veiled by night, fallowing things that aren't right,
and they are tired and they need to be led
but you'll scream and wail 'till you're dead
[...]
but if i sit here and weep, i'll be blown over by the slightest of breeze, and the weak need to be led
and the tender are carried to their bed, and it's a pale and cold affair, and i'll be dammed if i'll be found there
[...]
and it's hard to accept yourself as someone you don't desire
as someone you don't want to be
http://www.youtube.com/watch?v=JvwWzcLfH-k

quarta-feira

Sobre os bits de informação

A literatura me tortura. Reler o conceito de romantismo até o fim foi quase masoquista. Da torre de Marfim, escapista, melancólica. O pior foi ler sentimentalismo diretamente associado - quase que sinônimos - a egocentrismo. E a conteúdos rasos. Ah. Depois os conceptismos, cultismos, rebuscamentos confusos e quiasmos toscos, seguidos das antíteses incoerentes (mas que caiam bem na métrica). Também vi os bucolismos desprovidos de quaisquer significados, novamente prezando-se as formas e as regras. Fiquei frustrada (e envergonhada) pelo condoreirismo, ainda egocêntrico e sentimental. Expressões grotescas de todas as épocas.

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O estudo das produções humanas é extremamente útil à formação do caráter, pois retratam muitas experiências que todos nós estamos fadados a viver um dia. A melhor parte é que vemo-las por lentes impessoais, pelas quais conseguimos julgar diferentes quadros de forma equilibrada e sincera, para só depois percebermos o quão próximo de nós mesmos é a tal característica recém-julgada. Eu revirei os olhos e esbocei críticas a muitas das manifestações artísticas de diferentes períodos da historia para só depois enxergar que eram exatamente as minhas debilidades que eu estava satirizando. Foi desagradável, já que tive plena consciência de que aqueles comentários jocosos eram realmente a minha opinião sobre o que eu estava lendo ou vendo, e que eu realmente repudiava muitos dos meus traços de personalidade. É frutífero estudar as criações humanas por serem elas fotografias de nós todos, julgar tais é uma maneira de ver a si mesmo como se do lado de fora.


Acho engraçado como o que eu ouço/leio/vejo/sinto frequentemente se reproduz mais tarde em outras circunstancias, e meu cérebro as une como que por impulso, a formular conclusões, gracejos ou perguntas que me surgem inesperadas. Vi algo sobre assimilarmos conscientemente menos da metade de todas as informações que o nosso cerébro percebe a cada instante, sendo que o restante fica no inconsciente sem que tenhamos a percepção disso. Acho que daí surgem tantas analogias e combinações, e destas as criações intelectuais, factuais ou materiais. Por isso o mundo que nos cerca tem ampla interferência nessas criações, mas, ao mesmo tempo, a máquina humana é basicamente a mesma desde o primeiro milênio, o que influi na grande proximidade dos sentimentos vividos nesta e naquela época.


As circunstâncias alteram-se a cada momento, mas, afinal, nossas fraquezas e habilidades são em suma parecidas - o que me convence de que não é absurdo termos ainda as angustias que tinham os navegadores do mundo plano e de monstros marinhos. Vi na humanidade a qual tive acesso ignorâncias, fragilidades e soluções falhas que são integralmente comuns a mim. Encontrei defeitos e a principio me envergonhei por partilha-los. Contudo, odia-los e despreza-los, além de autodestrutivo, é inútil à resolução dos meus semelhantes defeitos. Pude ver que entender o processo histórico nos mais diversos pontos é essencial a cada um de nós, é a única forma de saber onde realmente pecamos, pois é o único espelho no qual podemos acreditar. Se a crítica vier de nós mesmos e for, à priori, mascarada, será intuitivo aceitá-la e possível segui-la. Ademais, a humanidade ainda tem qualidades a serem descobertas.

sábado

Voltando pra casa

Hoje eu saí da escola relativamente tarde. Estava cansada e faminta, por isso decidi que merecia um milk shake. Cheguei no ponto a tempo de pegar o ônibus, mas perdi-o, resolvida a comprar meu sorvete. Comprei, vi um outro ônibus que me faria a vez passar, não daria tempo de correr. Me sentei, esperei alguns minutos, mas eu sabia que nenhum ônibus que me atendesse passaria por ali nos próximos cinquenta. Subi até outro ponto, no qual fiquei só alguns segundos, quando decidi que um terceiro, um pouco mais acima, me daria mais opções. Fui, o ombro doendo pelas duas bolsas, o mp4 passou de ney para pitty, eu sorri. Pitty é tão nostálgico. No terceiro ponto havia ainda um banco, o qual eu desejava deveras então, mas estava ocupado pela bolsa de uma quarentona. Pensei azeda comigo, "é, é por isso que eu sento nos lugares reservados". Estava realmente pesado, então parei em frente ao banco, tirei a bolsa transversal e pus no chão fazendo manha, gemendo 'ai'. Ela tirou a bolsa. Agradeci e sentei-me, satisfeita. Passou um belo tempo, a mulher foi embora, outras chegaram, chequei meu celular, dezesseis ligações perdidas, todas da minha mãe, claro. Liguei pra ela, que estava estressada, perdi todo o bom humor e desliguei tão logo quanto pude. Música alta, brigando com a mãe, quão típica... Juro que percebi olhares de reprovação dos comparsas do ponto, mas posso ter imaginado. Outro ônibus que me servia passou, mas não parou. Frustrante. Escurecia, e o milk shake acabara. Aí notei que alguém falava comigo. Tirei um fone, pedi desculpa, era uma senhorinha. Bem frágil, magrelinha, toda enrrugada e de cabelos brancos. Meias estampadas marrons com bolinhas - acho que eram bolinhas - rosa, rasgadas nas pontas. Sandálias ortopédicas, vestido - ou saia? - e celular no pescoço. Só reparei dos joelhos pra baixo porque era tal o limite do meu campo visual. Enfim, falava comigo. Perguntava se o número, 62seiláoque, teria um 3 na frente. Disse que tinha, ela tentou digitar. Não conseguia, ofereci ajuda. Digitei, ela ligou, ouvi o começo da conversa e recoloquei os fones. Notei quando ela desligou, e por ter sido bem na pausa da música, notei que ainda falava. Tirei os fones. Ela começou a conversar comigo. Contou que iria à missa. Contou que suas pernas doíam. Contou que seis meses atrás um motorista de ônibus dera partida antes que ela conseguisse terminar de descer, e que ela caiu. Caiu de pé, "graças a deus", na hora não sentiu nada. Depois sentiu dor. Agora a perna doía "que nada dá jeito". O médico já passara-lhe remédios de todos os tipos. Doía ao dormir, e ao acordar. Ao acordar era pior, mal podia relar os pés no chão. Mas à noite era "uma dorzinha enjoada". Estava doendo naquele momento, mas ela aguentara por querer ir à missa. Era daí a vinte minutos. Contou que colocara uma prótese, não me lembro onde, dez anos atrás. Contou que já passara por quatro cirurgias. Contou que fez uma no coração. Contou que achava que os médicos escondiam-lhe os motivos da dor na perna, que achava que deveria operar, que sabia que eles não queriam operá-la pela idade avançada. Contou que machucara o joelho hoje cedo, batera na pia, sangrou até. Contou que o homem para quem ligara, para contar sobre a dor e o joelho, era como um filho. Contou que seu filho morrera, um mês atrás... Então a voz dela falseou. Olhei-a, os lábios tremiam. Queria chorar. Falou sobre como era tudo difícil. Contou que não sabia o que fazer, que achava que devia arriscar outra operação. "Vou deixar na mão de deus". Na mão de deus... Quis abraça-la, mas não o fiz, não sei porque. Aí um ônibus, o que passara antes sem parar, apareceu na esquina. Como eu sabia que o próximo demoraria a chegar, pedi licença para pegar aquele. Uma outra mulher, que já tinha alguns fios brancos, ouvia a nossa conversa. Melhor dizendo, as palavras dela. Eu não encontrei nada além de "é complicado...". Me deu licença, desejei-lhe boa sorte, com tudo, saí correndo pois o ônibus estava parado no ponto da frente, uns cinco metros pra lá. A outra mulher me lembrou que eu estava esquecendo a bolsa transversal, agradeci, peguei-a, corri. Entrei no ônibus, enfim. Chorei. Deus... Errei ao dizer que ele não existe. Sei lá se ele existe. Mas quem poderia dizer àquela senhorinha que ele é uma mentira? Tanto faz se ele existe... Mas eu desejo, do fundo de mim, que ele continue a existir na concepção dela. E sabe a Pitty, o milk shake, a grosseria no telefone, os assentos reservados? Então, nunca me senti tão idiota.

sexta-feira

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Todos queremos ser únicos. Essa história de querer se sentir aceito só é verdade por alguns ângulos. Na maior parte do tempo estamos mesmo é tratando de ser diferente, de parecermos nós mesmos - mas naquela versão pré-escolhida. Todo mundo sorri por dentro, mesmo que inconsciente, quando chamam-lhe de "estranho". A verdade é que assimilamos (e não sei se isso é certo ou não) ser diferente com ser especial. Não importa em qual aspecto, desde que você saia do senso comum. Mas o problema é que somos todos idênticos. Todos falamos do mesmo jeito, sentimos as mesmas coisas, erramos os mesmos erros, e, mais cedo ou mais tarde, pensamos sobre os mesmos assuntos. Não há fuga da regra: dois olhos, boca, nariz, cabelo, tronco e membros. Um corte de cabelo, uma maquiagem ou uma tatuagem não muda nada disso. Me peguei hoje mesmo cogitando a ideia de que os deficientes físicos se sintam especiais, diferentes, únicos por tal. Mas então caí no conceito de que todos estamos somente em busca de aceitação, que como eu disse, é uma verdade por alguns ângulos. Agora, pensando a respeito, acho que quase entendo os motivos. Nossos instintos animais nos levam a pedir por aceitação, com fins como perpetuação da espécie, proteção e todo o mais; mas a parte mais recente de nossa mente, aquela que nós mesmos construímos com costumes, crenças e regras e que tem total consciência do espelho, da tv e do computador, essa parte vive em prol de autoaceitação - e esta prima a excluisividade.
...O meu problema, realmente, é não saber qual dos dois lados grita mais alto em mim.