"Questão a resolver: como conciliar a crença que o mundo é, em grande parte, uma ilusão, com crença na necessidade de melhorar essa ilusão? Como ser simultaneamente desapaixonado e não indiferente, sereno como um velho e ativo como um jovem?" Aldous Huxley

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sábado

O problema das cidades grandes

Olhei pelo parabrisa, as luzinhas da cidade estavam todas piscando. Pensei em um flashmob gigantesco, em invasão alienigena, em energia das fadas; depois pensei na fumaça de algum carburador. De qualquer forma, se fosse haver algo grande eu teria visto no jornal. Esse é o problema das cidades grandes, acreditamos mais nos jornais que em nossos olhos. O sinal abriu, acelerei. Hoje é domingo.
Não estou muito certo de que isso interessa, mas meu nome é Luis Otávio. Nome estúpido, não? Era um saco chamar Luis Otávio no fundamental. Pior ainda era a minha mãe, senhora Ana Luiza, que obrigava o mundo inteiro a pronunciar meus dois nomes. Era até entediante ser chamado com toda aquela pompa desnecessária. Acho que ela queria que eu fosse importante. Importante e íntegro. É, porque nome composto é coisa de gente reta, bem resolvida, com caráter polido e carreira decente. Voce já viu algum mendigo de nome composto? Algum viciado? Não. E se eles, por infelicidade do destino, têm mesmo um nome composto, logo abdicam de um deles ou substituem-nos por algum apelido tosco - a verdade é que nome composto é uma coisa imponente, é preciso muita dignidade para que lhe chamem pelos dois nomes.
O triste é que eu não mereço os dois nomes. E acho que decepcionei minha velha. Eu sei que depois do Luis Otávio todo mundo aí começou a imaginar um cara alto, de ombros largos, camisa de manga comprida com gravata vermelha, e meu carro foi logo jogado no patamar de um importado preto, polidíssimo e brilhante, com os vidros fechados e o ar condicionado ligado. E erraram. Quer dizer, minha camisa é mesmo de botão, de mangas curtas, mas de botão - só que tem o logotipo da empresa onde eu trabalho ridiculamente bordado no bolso do lado direito. E é azul clara. E meu carro é branco, e sem brilho. Um gol 93, se alguém realmente ainda está interessado na minha estória.
Bom, no caso de alguém estar, deve querer saber para que eu estou uniformizado em um domingo. O caso é que eu não voltei para casa desde o fim do expediente de sexta feira. Ah é, eu sou o menino do xérox. Entretanto isso não deve ser analisado como extrema rebeldia, pois de fato não tenho esposa, filhos, cachorros ou qualquer coisa que o valha esperando por mim em casa. Minha casa é medíocre. Quase uma quitinete. E sempre muito mal organizada. minha mesa de centro - era uma dessas bem vagabundas - quebrou uns meses atrás, quando um amigo trôpego sentou-lhe em cima. Desde então, minha mesa de centro são três latas de tinta e uma madeira quadrada - que tive o admirável trabalho de colar nas latas - com uma toalhinha. Isso mesmo, uma toalhinha! Tanta desgraça nesse mundo, e a minha mesa de latas de tinta tem toalhinha. Ai. ai, e é rendada... Bom, mas voltando ao fato de eu ainda não ter voltado para casa: estava de saco cheio. Ainda estou de saco cheio, só que preciso ir visitar minha mãe. A família inteira vai estar lá, e eu estou nojento e fedendo a bebida. Mesmo sabendo que a velha não iria ligar, estou indo em uma loja, aí vou passar em casa e só depois vou para a casa dela. É que ela está bem doente. Na pior, se querem saber. Eu vou vê-la aos domingos e às quartas, mas hoje a reunião se estendeu para a parentada toda, como que num ritual de despedida. Não que estejamos preparados para a morte dela. É que quando uma coisa é iminente, não interessa você estar pronto ou não, e sim preparar tudo para que aconteça da melhor forma. Se é que tem alguma forma boa de morrer. É que a minha velha é um tanto emotiva, então nós queremos que ela tenha a chance de dizer o que quiser para quem quiser, por via das dúvidas. Nesse ponto da narrativa eu bem poderia começar um monólogo sobre a doença da minha mãe, explicar todos os pormenores, descrever a personalidade das minhas tias gordas e os quadros da sala da casa, mas eu tou com preguiça, então vou apenas contar uma estória, de quando eu era menino.
Eu tava lá, no quintal, brincando com o barro - é que nós tinhamos uma horta. Minha velha é bem conservadora e por isso gosta de plantar a própria cebolinha, e tal. Hoje o espaço abriga uma grama ordinária, três cadeirinhas de ferro e uma mesa, minha velha também gosta dessa lengalenga de tomar chá e conversar - enfim, brincando com o barro, aí ela apareceu. Eu já tinha passado a lama até na cara, estava imundo, e quando ela chegou eu tive certeza de que ia tomar o maior esporro. Mas ela falou (eu lembro, certinho) "Luis Otávio, o jantar já está pr-- oh. Luis Otávio, vá tomar um banho para comer, meu filho." E só. Quando eu passei por ela, beijou-me a cabeça enlameada. Nosso piso era branco, e eu fiz a maior meleca com as minhas pegadas marrons, mas quando eu voltei pra comer já estava tudo muito branco de novo. Minha velha é dessas que amam a gente até quando estamos sujos de barro no meio da cozinha branca.
E agora, vejam só, eu estou meio triste. Quer dizer, ela tá lá, a beira da morte, e eu sou o garoto do xérox. Ela queria tanto me ver com o tal carro importado e a camisa de manga comprida! Eu sei que queria. Niguém bota "Luis Otávio" como nome do filho assim, à toa, sem pretensão... E eu tô fedendo. Terminei meu terceiro colegial capengando, arrumei um emprego de vendedor, e enganei todo mundo com essa de "quero só juntar um dinheirinho, mas ano que vem eu faço faculdade". Era sempre ano que vem. Até que param de perguntar da faculdade. É que eu nunca fui muito certo sobre o que queria fazer, e, pra ser sincero, eu também nunca quis muito. Quando eu percebi que já era tempo, e isso foi lá pelos 23, arrumei um jeito de sair de casa. E aí fui pra aquele moquifo, com toalhinha na mesa de centro, e não saí até hoje. Pra vocês verem até onde chega a merda da acomodação de um ser humano.
Meu vocabulário não é dos melhores, não tive curso superior, também não arrumei garota nenhuma, e assim fui ficando sem inspiração. Acabou que a vida foi passando e eu encostei num canto. Sei lá. Mas acontece que não tá nada bem. Perdi contato com os amigos do colegial (mas também eu não tinha muitos, espinhudo e encurvado como eu era), aliás, aposto que estão bem de vida hoje, os filhos da puta, a maioria de carro importado e camisa de manga. Mas não ter feito faculdade nem é o meu recalque não. Meu recalque é ter sido tão alheio. Eu podia ter dedicado a minha vida a algo importante, sabe? Não necessariamente a uma profissão, mas sei lá, podia ter virado hippie, podia ter feito algo de diferente nesse mundo, em vez de ficar apodrecendo com cerveja e televisão naquela quitinetezinha escrota. E, garoto do xérox? Mas que droga, qualquer coisa é mais vivo que garoto do xérox. Não que eu seja idiotinha o bastante para desprezar esse tipo de emprego, na verdade eu respeito muito quem rala pra ganhar a vida, seja como garoto do xérox ou como gigolô. Só que gigolô ainda teria mais emoção. Sabe? Sei lá. Garoto do xérox é monótono. Eu não queria ser milionário, mas também não queria essa vida de tédio. E, ah, a minha velha merecia mais que um garoto do xérox.
Saí do trabalho na sexta e fui para um boteco. Sou meio fraco para bebidas, se querem saber. No terceiro copo minha barriga começa a doer, e quase sempre acabo com diarreia. Mas adoro ficar ébrio. Bom, bebi uns vários copos, não comi nada, vomitei de leve, e aí bebi mais uns. Depois rumei para um puteiro. Eu sei que é triste precisar de um puteiro, e depois de vomitar ainda, quase que uma foto da decadência, mas cara, eu não tava nem aí. É por isso que eu curto ficar ébrio, é que então eu consigo não estar nem aí.
Quando cheguei lá, caramba, que tristeza que me deu. Odeio bêbado chorão, mas não deu, chorei. Umas putas gordas, outras meio pelancudas, credo. Mas arrumei uma até que boazinha. O legal mesmo foi que não transei. No quarto, continuei chorando, como uma menininha, e, pasmem, ela foi compreensiva. É lendário encontrar uma puta compreensiva. Mas essa ouviu a minha estória toda, falou uma ou outra coisa - que, alias, nem eram absurdas. Acho que no final das contas ser puta deve ensinar bastante sobre as pessoas... - e me deixou chorar. Aí eu paguei, fui beber mais pois estava voltando a ficar sóbrio e isso não era confortável, e aí fui para uma praça. O resto nem é importante. Dormi por lá, continuei bebendo e me odiando no dia seguinte, liguei pra um amigo, conversamos, ele foi embora e eu continuei na minha fossa, dormi em outra praça. Hoje de manhã eu cheguei a uma bela conclusão: a culpa é minha sim, mas a cagada não é irreversível. Tenho um empreguinho chato e uma vida chata, e isso é chato, mas se eu continuar nessa depressão boiola vou acabar é me matando. Decidi que vou passar numa loja granfina, comprar uma camisa de manga comprida e uma gravata, tomar um belo banho, fazer a barba e vesti-la; vou arrumar minha mala e depois vou lá ver minha mãe. Aí eu converso com as tias gordas, ajudo na cozinha, sorrio o tempo inteiro, dou um beijo na testa da minha velha e digo que amo muito ela. E aí eu vou embora.
Tem um lugarzinho, numa cidade litorânea a umas duas horas daqui, onde eu sempre quis morar. É um morro com vista pro mar, que não é ocupado. Vou fazer uma cabana por lá, e ficar alguns dias. Até alguém vir me mandar sair. Depois eu junto minhas coisas, volto pra cá, e se eu não for demitido, continuo sendo o garoto do xérox. Só que vou usar o dinheiro pra um curso superior. Administração, quem sabe? E já tenho a camisa e a gravata, e tal. A vida na cidade é uma bosta. Ninguém tá nem aí, mesmo sóbrios. O negócio é que ou você cala a boca e vai fazer o que tem de fazer, do tipo faculdade e puxar saco da chefia, ou você fica sendo o garoto do xérox. Esse é outro problema das cidades grandes, acreditamos mais num diploma que na pessoa que existe atrás dele...

Despedida

Tenho andado um pouco triste. Os problemas de antes já não me incomodam tanto, acho que superei aquelas deficiências que me perturbavam; mas no caminho descobri outras. Os furos na personalidade, a incapacidade de expressar certas coisas - tudo isso continua aqui, mas agora com outras máscaras. Evoluí muito, isso eu vejo. Hoje em dia eu mal reconheço a garota que eu era um ano atrás.
Eu costumava sonhar com o primeiro beijo, com o vestido de princesa da festa de quinze anos, com a popularidade que eu tanto queria. Hoje eu sinto que daria minha virgindade sem peso nenhum na consciência, hoje eu abomino 'parabéns pra você' e guardo em segredo a data do meu aniversário, e hoje eu me orgulho por não perder tempo comigo em nome de amizades colegiais.
Hoje eu olho mais adiante, e hoje eu tenho noção dos vazios do mundo. Um ano atrás eu nunca conseguiria saber o sentimento de depressão, eu não poderia entender uma crise existencial. Sinceramente é difícil acreditar que eu mudei tanto, não entendo o que houve em mim para inspirar essa revolução. Quando tento me lembrar da mentalidade que eu tinha, só sinto uma fumaça; uma confusão de visões simplistas e fúteis onde nada era verdade. Algo me diz que um dia eu vou olhar pra quem eu sou agora e ter exatamente a mesma impressão, mas deixemos isso para daqui a alguns anos.
O fato é que eu mudei. Perdi muito de mim, coisas boas, reconheço. Aquela inocência, aquela alegria boba, aqueles desejos fáceis de conseguir. Também progredi em aspectos positivos. Naquela época eu não era triste, eu não ligava. Hoje eu me cobro mais, me odeio mais. Hoje, embora eu soe mais infeliz, eu posso dizer que começo a descobrir quem eu sou; e isso me conforta. Mas hoje eu tenho medo.
Mais uma prova e eu estou oficialmente no terceiro colegial. Eu queria fazer o tempo parar.
Sei que eu vou estudar demais, ter ainda menos tempo para mim, sei que eu vou ter crises e desilusões piores que as de hoje, mas tudo isso eu posso aguentar. O que me assusta é saber que eu estou ficando mais velha. É ver que em um ano eu vou ter que decidir o que eu quero fazer com a minha vida, ser "adulta". Quando eu penso que meu próximo aniversário será de 17 anos, eu não consigo acreditar.
Estou insegura com a minha estrutura emocional, com os meus novos defeitos, com a ideia de continuar crescendo e mudando, mas estou ainda mais insegura com as decisões que terei de fazer. Quando eu me digo criança e percebo que já não parece natural, eu tenho vontade de gritar - e isso porque no fundo eu já não vejo a criança em mim. Claro, a ignorância e a fragilidade continuam ali; mas hoje é só isso: imaturidade, resquícios dos defeitos que eu ainda não consertei. É horrível a ideia de que de repente eu já não sou 'bonitinha', e sim patética.
Acho que no fundo o meu grande problema é saber por intuição que amanhã eu vou achar o meu hoje vazio de valor e significado, vou rir dele, vou desprezá-lo. E o pior: saber que amanhã eu vou ser distante e desconhecida da pessoa que eu sou Hoje. Eu vou sentir saudades de mim...

segunda-feira

Meu futuro

Me peguei olhando demais para os homens de camisa de manga comprida e calça social, para seus carros do ano brilhantes, para os cabelos curtos e escovados de suas esposas, para seus filhinhos de olhos claros; de repente descobri que morro de vontade de fazer parte dessa estupidez.
Demonstro princípios antimaterialistas o tempo todo, e nem vou me dar ao trabalho de esconder minha hipocrisia sob a pressão da mídia. Acontece que, por mais que eu idolatre a ideia de uma casa no campo, paz e conforto, eu não posso dizer que um emprego importante e férias no exterior sejam noções que me causem repulsa. Quero-as, e por vontade própria.
Penso muito a respeito: o que eu vou fazer, como eu quero viver. E ainda que na maioria arrebatadora das vezes eu diga desprezível o sucesso financeiro se em contrapeso estiver a realização pessoal; eu não pretendo viver de esmola. Nem de esmola, nem sem os prazeres da vida moderna.
Ainda me surpreendo com a minha própria insensatez por vender valores nos quais nem eu mesma acredito. É simplesmente lindo renunciar ao capitalismo e me cercar de moralismos; mas percebi o outro lado quando vi que são poucos os assim predispostos. No ponto extremo do meu sonho respondo por uma sociedade alternativa, onde não circula moeda alguma. Maravilhoso. Mas e quando a comida faltar?
Impossível acreditar em uma vida sem pretenções. Meus filhos fugiriam dali o quanto antes; os olhos brilhando só de pensar na cidade grande. Eu mesma não tenho espírito pra viver essa perfeição. Eu sou humana, colegianda e abarrotada de ambições. Eu quero passar no vestibular, fazer faculdade mestrado e doutorado; eu quero ocupar um alto cargo, quero um carro macio e dar uma educação de elite para os meus filhos. Eu, mera idealista corrompida que sou, quero uma casa de campo para ir aos fins de semana.