"Questão a resolver: como conciliar a crença que o mundo é, em grande parte, uma ilusão, com crença na necessidade de melhorar essa ilusão? Como ser simultaneamente desapaixonado e não indiferente, sereno como um velho e ativo como um jovem?" Aldous Huxley

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domingo

A minha coisa de cabelos castanhos

Passei pela sala, minha irmã tava assistindo um concurso de beleza.

_ Vai assistir algo que não diminua teu cérebro, Giovana. Teus neurônios tão se suicidando!


_ Lucas, vê se me erra. Por que não volta pros teus quadrinhos infantis, hein? Aquilo sim é intelectualidade. Aposto que teu QI triplica a cada fala de 100 caracteres.


Mas eu nem tava lendo quadrinhos. E não eram infantis, mas ela nunca tinha aberto um. Saí no quintal, me apoiei no varal pelas juntas dos braços e soltei o peso. O varal é meio baixo e eu sou meio alto. Fiquei passando o pé descalço no chão molhado, choveu agora há pouco, e fiquei encarando o céu com os olhos espremidos, acho que eu devo passar menos horas enfiado no meu quarto ou vou acabar fotofóbico. Tanto faz, nem gosto muito de sol de qualquer jeito.


Depois de um tempinho o braço começou a doer, daí andei um pouco em círculos e voltei pra porcaria do meu quarto. Deitei na cama. Caralho, que tédio. Talvez eu devesse mesmo ir ler um quadrinho. Sabe, eu era bem ligado nessa de quadrinhos, me divertia à beça. Sei lá por que, mas ultimamente perdeu a graça. As publicações novas não estão prendendo meu interesse, e os clássicos que eu já conheço de cor se tornaram insuportavelmente monótonos. A Giovana deve estar certa. Acho que eu fiquei velho pra aquela merda.


Sentei no computador e entrei no msn. Tem que ter um desgraçado à toa pra sair comigo. Rolei a barra. Ninguém de interessante, que merda. Fui ao youtube, mas que estranho, nenhuma das bandas que eu conheço surtiram qualquer efeito. Aí abri outra aba e digitei por ninfetas, no google imagens. Eu poderia procurar pornografia de verdade, é que sei lá, tô quase bêbado de preguiça, quero algo leve.


Umas menininhas pirralhas, que coisa não?, e umas outras anônimas no momento daquelas fotos provavelmente tão entediadas quanto eu estou agora. Fui passando as páginas, mas nem deu vontade de continuar. Uns peitos feios, disformes. Deixa pra lá. Aí notei que a Julinha tava online. Julinha é minha amiga. Às vezes a gente se pega, outras vezes a gente só conversa. É que a Julinha é meio criança de vez em quando, mas ela é engraçada. Cliquei no nome dela e disse que tava indo pra lá, ela nem respondeu mas eu fui mesmo assim. Ela mora aqui perto. Fui saindo, aí a mala da minha irmã chamou querendo saber quando eu voltava.


_ Sei lá Gi, antes do natal.


_ Idiota.


_ Fala pra mãe que eu fui na casa da Julia.


Aí ela respondeu com um grunhido afirmativo e eu saí. Sei lá, eu gosto da minha irmã. Ela é meio imbecil às vezes mas é coisa da idade. O porteiro já me conhecia, então me deixou entrar, aí subi com o elevador e cheguei a mão na porta. Aconteceu que tava o maior berreiro lá dentro, então eu não bati na porta. Era o pai dela gritando com ela. Hesitei por uns segundos, e quando eu ia decidindo que era melhor ir embora ouvi um barulho na maçaneta. A porta abriu e o pai dela saiu, transtornado e ofegante. Eu sai do caminho dele. Ele se sobressaltou um pouco com a minha presença, mas bem pouco. Aí parou na minha frente, olhou pra minha cara, primeiro com vestígios da raiva que expressara há pouco, mas logo em seguida ele soltou o ar que estufava-lhe o peito e me lançou um olhar de derrota. Eu fiquei meio sem reação, não sabia se devia abraçar ele ou ficar puto por ele ter gritado daquele jeito com a minha amiga, ou simplesmente correr antes que toda aquela fúria voltasse e se virasse pro meu lado. Mas acabei só ficando parado, com cara de taxo. Aí o pai dela saiu e desceu pelas escadas, sabe-se lá para onde, sem transparecer mais nada. Eu entrei.


A cena era meio triste. A Julinha tava sentada no canto da sala, abraçada com os joelhos, chorando aos soluços, parecia uma criancinha indefesa. A Julia tem muito disso. Tem hora que ela é inconsequente e maluquinha, e impera sobre a turma toda. Mas tem outras horas que ela simplesmente fica vulnerável e desprotegida, e por algum motivo nessas horas eu fico louco de vontade de abraçar ela bem forte, fazer um carinho e dizer que vai passar. Foi mais ou menos o que eu fiz.


Fechei a porta e tranquei, a chave ainda estava lá, e fui me sentar ao lado dela. Ela só levantou o rosto pra ver quem era, mas continuou exatamente como estava. A gente ficou lá em silêncio uns quarenta minutos, eu encostado na parede e ela encolhida em mim, e as lágrimas foram acabando. Findo esse tempo, ela disse que tava com fome. Eu sei que eu devia ter levantado e ido arrumar algo pra ela comer, mas se eu deixasse aquele momento de fragilidade escapar, ela nunca ia me falar exatamente o que estava acontecendo. A Julinha é bem assim. Ela é completamente legível por suas atitudes e comentários, mas tirando os momentos de desgraça em que abaixa todas os muros, ela nunca fala qual é a real. Ela é carente pra caramba, mas odeia expor os fatos. Eu não sei do que ela tem medo, mas sei que ela se sente tão confortável nessa instabilidade que evita racionalizar. Ohei pra cara dela e perguntei bem sério:


_ Porque ele tava gritando?


Ela ficou em silêncio. Deu pra ver que ela estava metade lidando com a dificuldade que tinha pra responder, e metade planejando como desconversar. Mas acabou soltando:


_ Ele tá exausto de mim, assim como todo mundo. E ele está certo. Eu tenho feito todo mundo louco. Eu tô fazendo de tudo pra tornar mais doloroso pra ele, mas eu sei que não foi culpa dele. Sei mesmo. É que eu sinto muito ódio, e tenho descontado nele, por ele ser o único que tem obrigação jurídica de me suportar, mas também em mim mesma. Por isso tanta inconsequência. Por isso tanta resposta ríspida. Mas eu tô acabando com ele, e hoje ele precisou gritar. Ele disse que eu sou a maior egoísta do mundo por querer piorar tudo pra todo mundo só porque eu não consigo superar. Ele foi pra um hotel e me deixou o número dele. Disse que ele também tem algo para superar, mas que se eu mudar de ideia, é só eu ligar e ele volta pra cá, pra nós passarmos por isso juntos. Aí eu gritei que ele queria era reconstruir a vida dele com qualquer vadia e deixar eu me me matar que nem ela fez, que queria se livrar do estorvo que eu sou assim como se livrou dela, ou então deixar eu me perder no mundo pra parar de impedir a felicidade dele. Eu disse um milhão de bobagens, todas as piores que eu fui capaz de pensar. Aí ele respondeu que queria que eu entendesse a realidade, e saiu. Mas eu sei que tô errada e ele tá certo. Eu tô com muita fome.


Eu fiquei impressionado com a sinceridade e completamente assustado. Aquela era uma Julia que eu nunca conhecera. Ela falou baixo e lentamente, sem perder o fluxo, e eu estava comovido por ela ter conseguido. Ela definitivamente precisava dizer aquilo em voz alta. Isso foi de uma maturidade que ninguém jamais poderia supor que aquela Julia drogadinha e hostil pudesse ter. O que aconteceu foi que a mãe dela se suicidou, faz acho que cinco meses. A mãe era maníaco depressiva, e um dia simplesmente resolveu tomar uma coleção de comprimidos pra foder com a vida de todo mundo, inclusive a própria. A Julia ficou revoltada, e daí saiu toda essa merda. Levantei e fui até a geladeira, que estava caoticamente vazia. Ela e pai estavam arrasados, nada estava certo pra eles, logo a despesa não estava sendo feita regularmente. Acabei arrumando um macarrão, ajeitei a mesa e tudo, e depois de meia hora fui até a sala e levantei a Julia, que ainda estava no mesmo canto, mas agora toda esparramada e com os olhos vagos. Levei ela até a mesa, comemos em relativo silêncio - ela só agradeceu e elogiou a comida - e quando terminamos, ela me surpreendeu ainda mais: ela sorriu. Levantou, chegou perto de mim, se ajoelhou em frente à minha cadeira, e sorriu de boca e olhos de um jeito todo lindo. O cabelo dela estava uma zona, o nariz vermelho e o rosto inchado, com algumas marcas de unha pelo rosto, mas mesmo assim ficou bonita quando sorriu. Mais bonita ainda porque sorriu pra mim. Aí ela disse "obrigada", beijou minha boca e me deu um abraço terno. Depois me olhou com olhos convidativos, meio safados e um tanto debochados, comprimiu o sorriso, pegou minha mão e foi me guiando até o banheiro, ligou o chuveiro, tirou a roupa e sentou na banheira, de costas pra mim, e foi jogando a cabeça pra trás até que pudesse me ver, de ponta cabeça pela perspetiva dela. Então ela me lançou a maior risada de criança, e eu acabei indo ensaboar o cabelo dela com o xampu. Depois levei ela pro quarto, estendi um cobertor e fiquei lá, olhando ela dormir. Ela era super bonita e eu estava louco de vontade, mas acabei sendo só um pai. Na verdade eu sabia que naquela hora ela precisava mesmo era de um pai, ainda que não soubesse. Na manhã seguinte minha mãe ligou perguntando quando eu voltava, e eu disse que ainda tava na casa dela e tal, aí me lembrei do puta vazio existencial que estava me corroendo antes de eu entrar naquele apartamento. Acho que todo mundo devia usar suas horas de tédio maluco pra cuidar de alguma coisa. Qualquer coisa. Isso preenche, tá ligado? Isso faz bem, e é mais útil. Agora eu vou levar a minha coisa pra tomar um sorvete. Só não consigo decidir se vai ser um programa pai e filha ou um encontro de casalzinho. Pretendo ficar aqui mais uns dias, e depois eu sei que ela vai ligar pro pai dela e ter uma conversa longa e pessoal. Aí eu volto pros meus gibis.

quinta-feira

Lilie

Quinta à noite, os carros não dão a mínima para a maldita pedestre na chuva. E nem ela. Ela meio que estava gostando de se molhar, de molhar os papeis na bolsa. Eram cartas que ela recebera da família no último ano. Haviam feito um trato: não se veriam por um tempo. Quanto tempo? O tempo que precisasse, ela disse. O nome dela era Jéssica. Era. Depois daquela conversa ela desistiu de ter nome. Aconteceu, simplesmente. Foi aquele tipo de coisa que precisava acontecer com ou sem o consentimento de alguém. E bom, ninguém consentiu, não exatamente. Só calaram. Não tinham forças para parar, segurar, consertar. Nem para tentar. O que houve foi que Jéssica era uma daquelas adolescentes idiotas que pensam que sabem tudo, e ela sempre fez besteiras maiores que as quais com que podia arcar. Ela quase sabia disso. Mas só quase. Foi entender mesmo quando precisou dormir na calçada e acordou com dores. Que seja. Jéssica era imatura, e conhecia bem as palavras. Talvez bem não... Mas as conhecia. E palavras fortes em uma boca imatura nunca pode dar em coisa boa. Não dava. Ela perdia amigas e machucava garotos com a maior frequência. Sem falar que também se machucava com tais palavras. Como não poderia deixar de ser, machucava a família. E claro que fazia tudo isso consciente. Vale lembrar que vez ou outra Jéssica tentava se frear - mas nunca conseguiu, pelo que se sabe. Acabou passando dos limites com a família um dia, e sabendo disso propôs ficar longe durante o tempo necessário. Não foi fácil nem bonito, e um tanto longe de divertido. No primeiro dia ela andou para longe. No segundo, comeu a comida industrializada que trazia na bolsa. No terceiro gastou algum dinheiro com comida e decidiu alugar um quarto. Foi parar em um fim de mundo, e notou que precisaria de um emprego. Começou a desanimar, a se arrepender, mas era orgulhosa. Em uma semana conseguiu emprego em uma lanchonete, o que foi um alívio já que a dívida no pensionato estava começando a ficar preocupante. Mudou para um hotel barato com o primeiro salário, e decidiu infantilmente ir a uma festa com uma colega do trabalho. A garota se chamava Amanda, era uns dois anos mais velha que Lilie - já não usava seu nome verdadeiro, doía-lhe ser chamada por tal -, e vivia em circunstâncias parecidas com as dela, embora por motivos diferentes. Ficara grávida em pleno colegial, e, não que tenha sido propriamente expulsa de casa, o orgulho adolescente é tão complicado... Acabou brigando com o namorado e sofrendo aborto espontâneo em menos de dois meses, mas já eram águas passadas. Foram à festa, que fez toda a diferença. Lá conheceram Sabrina, uma trintona de quem logo se tornaram grandes amigas. Sabrina se divorciara recentemente e, embora mais velha, não era psicologicamente muito mais complexa que as outras duas. Aconteceu que encontram umas nas outras apoio, algo como a família que as faltava, e boas companhias para noites vazias. Foram morar juntas - tudo no nome de Sabrina, que era, nas aparências, a mãe das outras duas. Mas só nas aparências. Até que as três se pareciam fisicamente: todas com cabelos e olhos castanhos, lábios grossos. Já havia se passado cinco meses desde que Lilie saira de casa. Mandou uma carta aos pais informando endereço, pedindo para que não a visitassem ou informassem tal endereço e contando que estava bem; enviou também uma foto das três juntas, e se desculpou por tudo em entrelinhas. Uns nove dias depois começou a receber correspondência, e se tornou tradição: toda quinzena a família mandava uma carta. Lilie nunca respondeu a nenhuma, mas eles continuavam a mandar. O sucesso da garota com a reconciliação incentivou Amanda a procurar a própria mãe, com o que não obteve êxito. A mãe dela havia se mudado, e muita coisa fora dita, gritada, tanto que Amanda logo achou melhor deixar tudo como estava. Daí pra frente foi tudo tranquilidade: Sabrina acabou encontrando um pretendente, Amanda voltou a sair com garotos e Lilie conseguiu emprego como funcionária de uma loja de roupas em um bom bairro. Bom, nem tudo. Lilie andava triste. As cartas lembravam-na de quem ela fora, lembravam-na de que ela tinha tudo, de que se colocara naquilo por vontade própria, e também lembravam-na, embora por palavras austeras, de que poderia receber amor caso pedisse. Ela se sentia culpada, novamente, pelos erros que cometera. Bastou ler o primeiro "querida" em uma das cartas para desabar. Então voltou a sentir aquela culpa e aquela frustração, e também a descontá-las nas pessoas mais próximas. Ela quase fez tudo de novo. Mas na terceira briga, quando viu nas amigas o mesmo rancor que levara anos para despertar na antiga casa, ela se abaixou. Escorregou pela parede e chorou, sem dignidade nenhuma, até fazer as colegas sentirem pena. Quando parou de soluçar se desculpou, culpou aos hormônios e foi dormir. As outras duas acreditaram. Depois decidiu que iria consertar as coisas. Hoje acordou, deixou um bilhete na garrafa de café avisando que voltaria tarde e saiu, levando as cartas. É uma quinta feira de manhã.

terça-feira

Vencido por resistência

Ultimamente ele vinha negando todos os seus valores sem motivo aparente. As pessoas já não o entediavam tanto, até voltara a tomar banhos regulares. Chegava a fingir que havia encontrado motivos maiores, que pretendia ascensão espiritual; e pode-se dizer que era um bom ator. Espelhava-se agora nas qualidades mais bonitas de seus ídolos, estava até começando a voltar atrás em suas palavras turronas. Resolvera se inspirar em noções menos filosóficas, mais mundanas e plausíveis; algo mais perto do presente. E estava indo bem, até aquela madrugada.
Bisbilhotava sites aleatórios para espantar o tédio e o sono, até que encontrou teorias absurdas que de tão improváveis o davam certo conforto. Mergulhou de cabeça nas doutrinas bizarras, por distração. Sabia-as tolas, mas era tarde e nenhum conhecido online tinha palavras interessantes para dividir, então continuou. Leu até a manhã seguinte, mas nada como nos filmes. Não se manteve a base de café - não surtia efeito nenhum nele - e acabou cochilando por muitas vezes durante os trechos demasiadamente técnicos. No dia seguinte tinha olheiras, mau hálito e dores no corpo, e então dormiu como pedia-lhe seu corpo meramente humano. Acordou com o calor da tarde, desconfortável, tomou banho e ligou o computador novamente.
Leu mais alguns artigos, sentiu vontade sincera de ser estudado o bastante para provar ou derrubar algumas das teorias, depois sentiu tédio, e então voltou a rir de si.
De teorias da conspiração passara para idealismos religiosos e então para sociedades secretas - não que os três fossem assuntos realmente distintos -, e se lembrou de como tudo aquilo era ridículo. De qualquer forma, estava com fome e dor de cabeça, então se enfiou em um jeans velho, cobriu a camiseta já fina pelo uso com uma jaqueta igualmente desbotada, juntou seu caderno de anotações, a carteira e as chaves em uma bolsa e entrou no carro.
Foi a um restaurante barato, passou na drogaria e então resolveu visitar a biblioteca local. No andar de baixo, a sessão que ele sempre visitara. Pediu por um dos livros que tinham sido citados nos trabalhos que ele lera na noite anterior, e o bibliotecário o olhou com olhos duvidosos. Ele parecia novo mas já tinha indícios de calvice, e isso unindo-se a sua magreza e grandes olhos fez com que o outro visse nele alguém interessante. O bibliotecário o indicou o andar de cima, onde ficava o material de pesquisa da biblioteca, e o rapaz se surpreendeu por nunca ter sabido de tal andar. Subiu e se deparou com outra bibliotecária, essa bem mais velha, que aparentou não gostar dele logo no primeiro instante.
Foi entrando na sala, mas a mulher o parou. "Você não pode entrar. Escolha o livro, e eu pego", e colocou ruidosamente na mesa um catalogo não tão grosso quanto o rapaz esperava encontrar a julgar a decoração do lugar. Encontrou apenas um dos livros que lhe havia interessado, e achou que seria suficiente para começar. Pediu-o, e a mulher o entregou.
Sentou-se num banco, ali dentro mesmo, e abriu o livro. Leu os capítulos que pelo título lhe despertaram maior interesse, e depois de cerca de cinquenta páginas das mais loucas crendices, resolveu que já era o bastante.
Voltou para casa a pé, irresponsável quanto ao carro, para aproveitar o ar fresco da tarde, e se sentiu absurdamente bem por não ter então nenhuma linha a sua frente lhe guiando os pensamentos. Cansou-se perto de uma praça, então parou e sentou-se por lá. Consciente da sujeira do lugar, deitou-se no banco e se pôs a analisar o céu. Não que encontrasse o que analisar, ou que aquilo lhe fizesse sentido; mas era o que sempre havia visto fazerem nos filmes, e quis se sentir alegre por dentro como a expressão dos atores parecia demonstrar. Não conseguiu. A luz doeu-lhe, não entendia o desenho das nuvens e em pouco tempo o banco duro começou a incomodar. Foi mais ou menos nesse ponto que se lembrou de que normalmente os atores se deitavam na grama verde, com as cestas de piquenique ao lado, e ladeados de uma companhia do sexo oposto para dividir a tolice do momento. Bom, sem ter o trabalho de sentir-se bobo, sentou-se e ficou a olhar para frente. A praça até que estava movimentada. Velhos com cachorros, pais com filhos pequenos, e um ou dois casaizinhos. Comprou um sorvete ali por perto, voltou à praça e reabriu o caderno. Tinha resumido algumas ideias, copiado alguns conceitos necessários ao entendimento das mesmas, e nos cantos tinha rabiscado com sua caligrafia desleixada e quase ilegível as suas próprias conclusões e discordâncias. Olhou novamente para frente, a praça ficava perto de algumas ruas comerciais. Viu mulheres com sacolas, crianças andando em velotróis, crianças maiores correndo umas atrás das outras, e olhou de novo para o caderno. Deu mais duas colheradas no sorvete, foi até a lixeira e jogou ambos, o sorvete e o caderno, no lixo. Voltou para onde tinha deixado o carro, não gostava mesmo de andar, entrou nele e foi para casa.
Não encontrou nenhuma garota estonteante no caminho, não teve nenhum tipo de esclarecimento sobre a vida, nem mesmo se livrou da dor de cabeça. Só foi para casa, ligou o computador e voltou ao seu sarcasmo habitual.

quinta-feira

Cotidiano

Hoje eu tirei a manhã pra sonhar. Inventar histórias, chorar e rir com elas... Me caçoei em pensamentos, e até me relevei um pouco. De horas em horas, os pensamentos começavam a ficar monótonos, e o tédio batia... Então eu tentava pregar o olho na linha que lia antes de começar a divagar, e minha mente se permitia outra viagem.

Passei por diálogos idealizados com as pessoas as quais admiro, depois por viagens que gostaria de fazer. Imaginei cada mínima conversa, cada olhar e cada cor. Pensei em faculdade, na decoração que um dia darei à minha casa; pensei nos sufocos que hei de passar com a minha filha (que, como torce minha mãe, - e eu também, confesso - há de ser uma chata de galochas), brinquei com minhas expressões no espelhinho do estojo; me chateei com o hipotético chefe cruel...

Pensei até nas pessoas que não suporto. Remoí as respostas que nunca dei, imaginei o sangue nos rostos que eu quis - ainda quero - ralar no asfalto; pensei até naquele cara que me chutou por insegurança.

Quando me cansei, olhei pro relógio: hora do banho. Entrei neste distraída, ainda acho que não lavei tudo o que devia. Então fiquei curtindo a água quente, me recusando a olhar pra baixo, tamanho o desgosto que sei que sentiria. Desenhei no espelho, deixei a bucha cheia de espuma, e me enrolei na toalha.

Aí almocei, pouco, juntei meus livros e saí correndo pra não perder o ônibus. Entrei nele, aquele calor, e me sentei no primeiro banco livre que encontrei. Analisei calmamente cada um que entrou, fazendo suposições sobre as respectivas personalidades - adoro fazê-las.

Pego esse ônibus todos os dias há quase dois anos. Já me familiarizei com algumas figuras. Uma professora sorridente, que sempre trata bem os velhinhos, uma garota dark, cuja voz é musical e com quem eu sempre quis conversar; e inúmeras outras personalidades quaisquer.

Duas me chamam a atenção: um homem (que eu vi pela primeira vez quando lia "Capitães da areia" e que por isso ficou eternamente gravado no meu subconsciente como o padre do livro) de meia idade, com traços miúdos, cabelo ralo e insegurança gritante com quem eu S-E-M-P-R-E quis conversar, mas que, embora me olhe todos os dias e escute as minhas conversas quando as profiro, nunca se sentou ao meu lado, ainda que eu sempre guarde-lhe um lugar; e um outro homem, que é a personificação do meu medo mais profundo: um típico fracassado de romance naturalista. Me corta o coração falar assim desse homem, tal qual me corta olhá-lo. Dia desses, inconformada com a aflição que sentia ao olhá-lo, comecei a me investigar o porquê. Descobri que tenho dó do desgraçado. As orelhas de abano, a cabeça triangular, as entradas grandes, o bigode escuro, o olhar baixo e o uniforme de ajudante do supermercado classe C. Adoraria saber o que dizer para melhorar o dia daquele homem.

Outras pessoas passaram a roleta, e minha costumeira seção de "ódio-próprio", como gosto de chamar, começou. Mas nesse dia foi um pouco diferente. Ironizei três ou quatro dos meus traços caricaturais, mas uma voz em mim respondeu com compaixão.

- Hoje é o dia do amor próprio, Marina? - respondeu outra voz.

A primeira riu das outras duas, e continuou. O padre de "Capitães da areia" entrou e passou reto. Resolvi parar de me depreciar, eu merecia ter um dia de descanso.

Suei mais algumas gotas até o ônibus parar na porta da escola, onde eu desci. Olhei para meus "coleguinhas", todos tão cheirosos (irritantemente cheirosos, juro que me coça o nariz) e arrumados, e senti pena deles. Deles ou de mim, não sei ao certo. Tentei passar o cartão, que nunca me dá mole, e na terceira vez consegui. Entrei, subi a rampa, sentindo neste ponto do dia a vontade de sumir que sempre eu sinto, então passei reto pelos meus colegas e adentrei a sala. Fui ao meu lugar, me sentei, e então percebi que esquecera o livro. Não é cultura, tampouco interesse. É mais a minha saída fácil para disfarçar os amigos que não tenho. Bom, de qualquer modo, sem o livro fui forçada a abrir o material e fingir que estudava algo.

A aula começou, tentei me concentrar - mas foi em vão. Tudo bem, afinal, eu havia me dado esse dia de presente. Voei a aula toda, me prendendo a filminhos que eu protagonizava; mas nem sempre como o moçinho. Adoro os meus filminhos. Neles eu nunca esqueço as palavras, nunca sou ridicularizada, e, sobretudo, nunca sou pega em flagrante. Neles eu até convenço àquelas pessoas que eu sei tão superiores de que eu também sou digna do cair do queixo delas. Esse, em particular era um drama, no qual eu era terminantemente humilhada por obra de uma tentativa de psicologia inversa. Contudo; o professor passou outro exercício e a ideia me fugiu.

As aulas continuaram, cansativas, minha barriga roncando graças ao almoço fraco e ao lanche que eu esquecera, e a bexiga explodindo, por obra da minha preguiça de descer a rampa e ir ao banheiro. Ao som do sinal de saída, me retirei. Não disse nenhum "tchau", e não, isso não me incomoda. Entrei no carro, abaixei o som como eu sempre faço (meu chofer - mentira, é perueiro - tem mania de som no último) e me entreguei a alguma conversa sem nexo com o motorista, que eu digo meu amigo. Ele me conta todos os segredos dele, e eu finjo que me importo, até dou conselhos; ao final do que eu conto os meus, sabendo que ele não está ouvindo nem uma palavra, mas os digo mesmo assim, pelo conforto barato que isso me dá. Nesse dia não foi diferente.

Entrei em casa, tirei a camisa de uniforme, a calça jeans, o tênis e as meias - tomando, é claro, o cuidado de não olhar pro espelho - e me enfiei em uma camisa gigante, que uso como vestido. Comi muito mais do que precisava, fui até o quarto, coloquei meu cd mais recente no rádio - aquele com as únicas vinte musicas grunge que conheço - me embolei na cama e chorei um pouco. Nem mesmo sei dizer por que. Acho que me dá prazer. Findo o cd, peguei o mesmo livro das primeiras horas da manhã e tentei costurar os olhos na mesmíssima linha. Fiquei com sono, fechei-o e dormi: amanhã começaria tudo de novo.

domingo

Sua voz

Sentados numa mesa de bar, não escuto a sua voz. Você fala sobre o futuro, e eu olho o seu sorriso. Tento ler seus lábios, já que a música está muito alta. Sua boca, levemente inclinada para a direita, se move rápido; desisto de entender o que está dizendo. Então opto por ouvir a música, e continuo sorrindo e acenando conforme você proporciona minhas deixas. Seus dentes, tão brancos, levemente tortos, as mãos gesticulando sem parar. Você está animada hoje. Sempre tão entusiasta, adora construir histórias hipotéticas sobre nós dois. Mas você já não é aquela garotinha ingênua da praça sete. Você embaraça caminhos alternativos em suas histórias, nunca se esquece de uma segunda opção, da saída alternativa caso nosso amor não dê certo. Você se resguarda, de mim. Pensa que eu não percebo, não é, meu amor? Mas eu venho anotando cada desarmar de sorriso, desde os nossos quinze anos. E isso é o que eu mais amo em você. Sua independência, sua personalidade forte, mandona. Mas isso não desmerece sua meiguice, o calor constante da sua pele, seu cheiro limpo, suas mãos macias. Nem o charme dos seus palavrões esporádicos, ou das suas crises de mau humor. Você andou amadurecendo, meu amor. Já não me deixa ler seus olhos quando eu os repreendo. Nem mesmo me conta suas frustrações mais embaraçosas. E eu também admiro-lhe isso. Aprendeu sozinha que não é bom que conheçam nossas fraquezas, especialmente aqueles mais próximos. Só ainda não percebeu que existem alguns que te conhecem de berço, e que desses você não se pode esconder. Mesmo assim, acho bonitinhas suas tentativas de dissimular. E agora você aqui, falando comigo, pra mim, de mim; daquele jeitinho que me faz pensar que você se importa. Sabe, um dia eu planejei meu futuro com você. Um dia eu levei bem a sério essas suas palavras, misturadas com a bossa nova do bar. Afoguei-me nelas, adorei o gosto. Mas então, deliciosamente vagante daquele seu mundo, eu entrei em um dos caminhos bifurcados que você guardava para si. Longe de seus olhos eu inspecionei cada metro quadrado das novas terras, com sorriso vitorioso de explorador. E então você me enxotou. Desmanchou aquele sorriso, desviou aquele olhar. E foi ali que descobri que você crescia. Sabe, meu amor, sua maturidade me enternece. É muito inteligente tirar sua vida do alcance daquele garoto mal vestido com a barba por fazer e sem perspectiva de futuro. Muito inteligente tirar seu sucesso das garras do seu amigo enamorado. De mim. Agora você segura meu braço, os olhos bem abertos, pergunta-me se concordo. Sim, meu amor, eu concordo com tudo em você. "Por quê?". Porque você mudou, meu amor.

segunda-feira

Tropeços


Eu sinto os sonhos presos em mim. Eu sinto o cheiro das suas mentiras a me sufocar. Falseio com o peso das palavras não ditas... Será que eu ainda vou cair? Hei de cair, todos eles parecem saber. Me observam ansiosos, me vigiam sem me guardar. Quem estenderá a mão a me levantar? Vejo pessoas passando, mas não vejo brilho em seus olhos. Eles fingem muito bem, mas não parecem dispostos a me ajudar. Ouço um sino atordoante, é o sinal de largada... e a corrida começou. Apostando para ver quem chega mais rápido ao fim, ao pódio do eu te disse. Jogando no nada sua ultima gota de suor, esbaforidos com a pressa de saber. Eles vão chegar, cedo ou tarde, e logo a corrida acaba. Vidas gastas em vão, enquanto as palavras pesam mais e mais... e o relógio avança, ele vai me engolir. Corro do tempo, corro dos sonhos, corro da corrida e corro de mim. Duas estradas, por qual seguir? Nenhuma é bela e nenhuma é escura, são só caminhos, caminhos quaisquer. O tempo se aproxima, parece faminto. O extinto de sobrevivência me joga sobre o mato, sem estrada e sem caminho. A folhagem parece dura, mais dura que o chão e mais dura que os erros. Um tapa na cara que soa de medo. Me levanto bem rápido, sem mão, sem nada. Olho pro céu e dou um basta em tudo. O tempo para. Os sonhos esperam. As mentiras ficaram para trás. As palavras me encaram do chão. A corrida acabou. Leve mas não livre, viro meu corpo e caminho à rumo oposto. O sol brilha quente e as flores cheiram a dor. Meu coração se esfria enquanto meus olhos esquecem do amor.

quinta-feira

Pelos becos.


Costumava ser feliz, mas foi ficando cada vez mais quieto. E eu percebi o silêncio. Por um lado ele me acalmava, esclarecia muita coisa... Mas não demorou pra eu cansar de entender. De repente eu só queria parar de saber, e de repente a minha própria voz se tornou inconveniente. Já gritei no travesseiro mais de uma vez, já puxei meus próprios cabelos tantas outras, e então comecei a fazer roxos nos meus próprios braços. O que eu via no espelho era tão irritante quanto tudo o que eu via na televisão. Resolvi mudar de plano. Aluguei tantos livros quanto eu era capaz de ler, me obriguei a ouvir música em qualquer tempo livre, e até que consegui me calar por um tempo. Mas vez ou outra, a solidão me pegava. Cogitei suicídio. Depois decidi que era fraqueza. Cansei até do meu cachorro. As músicas que eu idolatrava de repente perderam o timbre, e o Deus que todo mundo louvava me parecia cada vez mais egocêntrico. Tentei ouvir algo mais sério, pesquisei os temas mais bizarros, e até visitei rituais satânicos. Não muito tempo depois, o obscuro também perdeu a graça. A sociedade me enojava, e eu estava começando a sentir repulsa por todos os que um dia conheci. Minha vida não tinha motivos e minha luta por opinião própria estava começando a me irritar. Mesmo assim, drogas sempre me pareceram estupidamente inúteis. Foi mais ou menos depois de uma semana sem trocar de roupa que meus pais explodiram. Já vinham tentando me "ajudar" há muito tempo, mas qualquer tentativa da parte deles era inútil. Eu estava perdida, e sabia disso. E eu não acreditava que um dia me encontraria. De todo modo, em uma segunda-feira nublada, me lembro bem, eles tentaram me levar a um psicólogo. Foram duas horas de consulta sem a mínima manifestação da minha voz. Vi os lábios da médica aconselhando procedimentos aos meus país, mas juro que não ouvi uma palavra. Eu estava aprendendo a me perder em mim também. Na mesma segunda-feira, tarde da noite, eu decidi que não queria mais encenar aquele teatrinho de familia feliz. Roubei algumas notas da carteira do meu pai, peguei meu melhor jeans, um agasalho e uma outra troca de roupa, joguei tudo no fundo de uma mochila e saí. Não fiquei na cidade nem mais um dia, e usei dos meus tributos femininos para conseguir transporte, comida e estadia. Vivi nas ruas por dois anos, de cidade em cidade, de bar em bar, me prostituindo para não trabalhar, e vivendo de favores e doações. Não reclamo, foi uma aventura incrível, mas depois de um tempo comecei a ficar enojada com a quantidade de garotas grávidas e miseráveis que me cercavam. Percebi que aquela vida não tinha mais brilho. A esta altura eu tinha lá meus dezessete anos, e decidi começar algo do qual me orgulhasse. Fui para a capital, consegui um emprego como ajudante de bibliotecária e uma vaga em um pensionato de baixo calão. Ainda usava dos meus seios para conseguir refeições quando estas me faltavam, mas agora com motivos mais nobres: queria estudar. Aprendi muito sozinha, e depois de sete meses como assistente de bibliotecária eu já tinha uma boa noção de matemática, historia e política. Com o dinheiro que eu juntara por estes meses, um concurso de bolsas bem sucedido e um emprego regular, segui vivendo. Os cinco anos seguintes foram apáticos, com alguns garotos e algumas amizades fingidas, mas nada daquela magia universitária; mesmo por que eu já conhecia a vida o bastante para não me empolgar com transas e alguns goles de vodka. Nunca mais vi minha familia, e acho que eles cansaram de me procurar lá pelo terceiro ano. Também acho que em algum dia desde então eles brindaram minha fuga, mas esta é uma opinião que não divulgo mais. Hoje, tenho minha própria mobília e um aluguel em dia. Não frequento igreja nenhuma, e também não sorrio na rua. Sei que o bem não passa de farsa e que a humanidade não é bonita, e aquele sonho imaturo de mudar o mundo e ter nome na história já ficou para trás. Não sou feliz, não tenho amigos, familia ou marido; mas se querem saber, me considero muito melhor que todas essas pessoas realizadas e amadas por aí. Por que eu... Eu sei o que nós criamos.

The rivers on the pavement
Are flowing down with blood
The children of the future
Are drowning in the flood
Where did all the love go?

sexta-feira

Eu.


Primeiro, foi tão claro que quase me cegou. Do céu enegrecido e triste que era minha cabeça, floresceu um flash tão branco e maravilhoso, que chegou a ser trágico. Iluminou cada canto obscuro daquela personalidade forte e errônea que eu quase esqueci, e posso admitir que chegou a doer. Meus olhos ficaram marejados, mas não pouco a pouco como acontece ao lermos romances poéticos. Ficaram marejados como se a água por sobre as retinas tivessem sido cuspidas lá de dentro, como se a luz tivesse tomado seu lugar. E a sensação, foi tão limpa... Tão limpa que chegou a ser inentendivel. Foi ampla e simples, mas isto a fez complexa o suficiente para empenhar-se toda uma vida. Com a mente explodindo e os olhos ardendo, meu instinto de sanidade optou por só senti-la. Se no segundo seguinte eu ainda fosse eu, então pensaria algo a respeito.

Mas o segundo seguinte... Ah, sim, o segundo seguinte... Nele não houve tempo para pensar a respeito. Nele eu nem pude saber se eu ainda era eu. Assim que a luz se apagou, meus olhos arderam. Arderam e choraram. Choraram de saudade da luz e choraram de alivio. Choraram confundidos pelo vácuo que a luz deixou, e choraram o ardume de seu baque. Choraram também em compaixão aos ouvidos. E estes, ah, estes sangraram. Começou com uma vibração no escuro, com algo intrigante e preocupante. E cresceu. Cresceu e não parou. Cresceu e detonou. Eu era toda sons. Não havia matéria e não havia razão. Só som e escuro. Só som e descoberta. Só som e um tapa na cara dos mais estalados. Acordei da vida, e o estrondo foi caindo regressivamente na antiga vibração conturbada. Novamente, o alivio do fim da turbulência veio triste e com gosto de derrota. Quando eu comecei a refletir sobre o que o barulho tinha me contado, o céu se rasgou brilhoso.

A noite turva que ao mundo parecia tão calma se desfez ao toque. Ao toque ríspido e inexplicavelmente delicado que se desenhou nela. E o rasgo não parecia pretender remendá-la. Rasgou a noite, as perguntas e as inseguranças. Rasgou a confiança, a pureza e a lembrança. Mas a noite não sangra. Não, quem sangra não é digno. A noite era tão nobre e tão palida, que de dentro do corte desesperador saiu brilho. Brilho do mais puro, brilho do mais nobre. Saiu um brilho sem pretensão, sem objetivos e sem circunstâncias. Saiu um brilho mágico que curou a ferida. E aquele brilho refletiu na minha derme. Meu couro branco respondeu. Me senti como o ultimo elfo da mitologia nórdica. E o reflexo me sanou. Sanou corpo e mente, fechou feridas e rancores.

Desta vez definitiva, o show de encantos acabou. Olhei para o céu, ele choramingava quieto numa garoa cintilante. Olhei para as estrelas, e elas não pareciam ter mais nada a dizer. Então fechei meus olhos e tornei meu corpo ao vento; deixei a escuridão embalar meu sonho surreal e entendi... Luz esclarece, barulho conforma, rasgos purificam; e eu... Eu vejo, ouço e sinto.

segunda-feira

Apólogo.


Era uma vez uma casa de palha. Lá dentro morava um sonho. O sonho tinha um animalzinho de estimação chamado Orgulho. Orgulho era um filhote adorável, de pequeno porte e muito ingênuo. Ingênuo como o sonho e como a casa. Ingênuo como eu fui um dia.

Então, em uma tarde entristecida pela neblina, o sonho levou Orgulho para passear, e ingenuamente, Orgulho conheceu Paixão. Paixão era o animalzinho da casa ao lado, cujo dono era um desejo ardente. A casa era feita de vidro, mas em certas manhãs o orvalho a fazia lembrar cristal.

No dia seguinte, Orgulho não conseguia parar quieto, e logo o sonho percebeu... Conversaram, riram, e Orgulho contou-lhe toda a historia. O sonho, que era sempre muito ousado, resolveu tomar um chá com o desejo. Chegando lá, percebeu que a casinha cheirava a caricias, e se sentiu muito confortável.

Enquanto tomavam o chá e conversavam sobre um assunto qualquer, Orgulho e Paixão se aproximavam mais e mais, e no fim do dia já eram quase irmãos.

Chegando em casa, o sonho tratou de encher Orgulho de perguntas. Orgulho não fazia idéia de quais respostas dar, e atordoado depois de um dialogo vazio, se retirou pra dormir.

Aconchegado e olhando o luar, Orgulho repassou o dia em sua cabeça. Tentou tirar conclusões sobre o que se passara, mas quanto mais pensava, mais se confundia. Desistiu e se rendeu ao sono.

Enquanto isso, na casa ao lado...

Paixão havia discutido com o desejo, pois ambas tinham se sentido muito atraídas pelo sonho. A discussão terminou com o desejo lembrando Paixão de que ela não tinha o direito de ter um sonho... Agora paixão estava muito chateada com o acontecido, e pensava se ao menos tinha o direito de ter Orgulho.

O dia seguinte foi dominado pelo silêncio dos gritos da ansiedade, e era um silêncio escuro. Orgulho acordou e foi até a padaria, para agradar o sonho, que tinha sido muito amável no dia anterior. Paixão não dormira nada, e assim que o sol raiou de mal humor, ela saiu de casa e foi admirar o horizonte da calçada.

Orgulho avistou-a, e sem hesitar, sentou ao seu lado. Paixão o confortou com um sorriso, e logo voltou a seu transe. Sem saber exatamente o que fazer, Orgulho preferiu um assunto bobo ao silêncio.

Olhou com toda a sua coragem para a indiferença dela e perguntou por que seus olhos estavam tão vazios. Ela sorriu sarcástica e lançou a pergunta no ar. “Acha que eu tenho direito de sonhar?”

Com medo do fundamento daquela pergunta e das conseqüências que sua resposta poderia causar, Orgulho resolveu responde-la com outra pergunta. “Acha que eu tenho direito de me apaixonar?”

Paixão não pegou a indireta, e respondeu honesta e indiferente: “Acho que qualquer um tem direito de se apaixonar... Mas você em especial pode se ferir.”

Orgulho se sentiu confuso e enjoado, e decidiu tentar esclarecer aquela bagunça. “Paixão, porque não se acha digna de sonhar?”

Ela o encarou, olhou para o asfalto e olhou vaziamente de volta para ele. Considerando-o um grande amigo, contou sobre a discussão com o desejo e sobre os medos que a assombravam.

Neste momento Orgulho se retirou ferido. Paixão não entendeu muito bem, mas permaneceu vazia no mesmo lugar.

O sonho já estava preocupado com a ausência do Orgulho, mas pensou que este era o momento perfeito para se declarar para o desejo. Chegando na casinha brilhante, o sonho reconheceu Paixão. Sentou-se perto dela. Afetada pela ausência do Orgulho, Paixão se aconchegou nos braços do sonho e lhe fez juras de amor. O sonho, iludido, mergulhou em seu extase.

Por trás da parede, o desejo assistia a tudo.

Algum tempo se passou, recheado por visitas secretas entre Paixão e o sonho da casa ao lado, até que o desejo ficasse opaco e Orgulho ficasse velho. Então a casamenteira da vizinhança, chamada Desilusão, juntou-os num encontro arranjado.

Orgulho se deu muito bem com o desejo, e o sonho viveu feliz para sempre com a Paixão... Mas quantos desejos a Paixão ainda pode sabotar? E de quantos sonhos o Orgulho ainda pode desistir?

Moral da história: Atenda à todos os seus desejos e cale suas Paixões, e dê espaço para que seu Orgulho cresça, pois assim ele poderá desistir de todos os seus sonhos estúpidos, antes que estes te levem à Desilusão.


quinta-feira

Turbulência calma.


Meio sentada, meio morta, jazia estática com a cabeça derrubada, ombros soltos e pele a mostra. Respirava, ouvia e via, mas o ambiente era tão calmo que não fosse o barulho de suas veias enchendo e vazando. Ao seu redor, livros, canetas, papeis amassados, idéias vagas. Entre pressões e opressões, boas notas eram um dever, estudar uma condição. Seu corpo mal formado e a cabeça menos ainda, não parecia certo um futuro brilhante, na verdade, nada parecia muito certo dentre suas oscilações de humor. Nem alta nem baixa, nem branca nem negra, nem bonita nem feia, indefinida a definia. Adolescência, hora de formar opiniões. Turbulência, hora em que opiniões são inexatas. Vestibular. Amigos. Garotos. Livros. Filmes. Descobertas. Baladas. Decepções. Seu coração palpitava, confuso com tantos comandos do cérebro. Seu intimo se despedaçava, despreparado para tantas contradições. Sua mente gritava, surdo para tantos sinais. Seu todo nada fazia, amedrontado de mais para agir além do ambiente. E era assim, com livros e sonhos que o sol morto ia e voltava, e os dias passavam, e a vida acontecia. Seu nome é insegurança.