"Questão a resolver: como conciliar a crença que o mundo é, em grande parte, uma ilusão, com crença na necessidade de melhorar essa ilusão? Como ser simultaneamente desapaixonado e não indiferente, sereno como um velho e ativo como um jovem?" Aldous Huxley

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terça-feira

mais férias

Sabe quando você canta junto com a música no tom exato do cantor, e então acredita que nem é tão difícil, mas depois tenta sozinho e percebe que você é terrível? É mais ou menos como quando você começa um desenho, acha que vai ficar esplêndido, e quando você termina e olha de longe descobre como as coisas ficaram desproporcionais e confusas e estranhas e horríveis. Também lembra aquela sensação de quando você começa a escrever um livro, pára na página 30 e percebe que odiou. Aí você religa a música, apaga o texto e rasga o desenho, olha pra baixo e vê que uma janela do msn está piscando: um desocupado resolveu te cumprimentar. Então você responde, e ambos conversam inutilidades até você esquecer de todo o resto... É, talvez não seja tão chato assim ter "amigos".

(sim, ainda preciso das aspas)
Engraçado como eu esqueço que tenho princípios em questão de minutos quando não estou triste nem irritada.

segunda-feira

Meu futuro

Me peguei olhando demais para os homens de camisa de manga comprida e calça social, para seus carros do ano brilhantes, para os cabelos curtos e escovados de suas esposas, para seus filhinhos de olhos claros; de repente descobri que morro de vontade de fazer parte dessa estupidez.
Demonstro princípios antimaterialistas o tempo todo, e nem vou me dar ao trabalho de esconder minha hipocrisia sob a pressão da mídia. Acontece que, por mais que eu idolatre a ideia de uma casa no campo, paz e conforto, eu não posso dizer que um emprego importante e férias no exterior sejam noções que me causem repulsa. Quero-as, e por vontade própria.
Penso muito a respeito: o que eu vou fazer, como eu quero viver. E ainda que na maioria arrebatadora das vezes eu diga desprezível o sucesso financeiro se em contrapeso estiver a realização pessoal; eu não pretendo viver de esmola. Nem de esmola, nem sem os prazeres da vida moderna.
Ainda me surpreendo com a minha própria insensatez por vender valores nos quais nem eu mesma acredito. É simplesmente lindo renunciar ao capitalismo e me cercar de moralismos; mas percebi o outro lado quando vi que são poucos os assim predispostos. No ponto extremo do meu sonho respondo por uma sociedade alternativa, onde não circula moeda alguma. Maravilhoso. Mas e quando a comida faltar?
Impossível acreditar em uma vida sem pretenções. Meus filhos fugiriam dali o quanto antes; os olhos brilhando só de pensar na cidade grande. Eu mesma não tenho espírito pra viver essa perfeição. Eu sou humana, colegianda e abarrotada de ambições. Eu quero passar no vestibular, fazer faculdade mestrado e doutorado; eu quero ocupar um alto cargo, quero um carro macio e dar uma educação de elite para os meus filhos. Eu, mera idealista corrompida que sou, quero uma casa de campo para ir aos fins de semana.