"Questão a resolver: como conciliar a crença que o mundo é, em grande parte, uma ilusão, com crença na necessidade de melhorar essa ilusão? Como ser simultaneamente desapaixonado e não indiferente, sereno como um velho e ativo como um jovem?" Aldous Huxley

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sábado

Voltando pra casa

Hoje eu saí da escola relativamente tarde. Estava cansada e faminta, por isso decidi que merecia um milk shake. Cheguei no ponto a tempo de pegar o ônibus, mas perdi-o, resolvida a comprar meu sorvete. Comprei, vi um outro ônibus que me faria a vez passar, não daria tempo de correr. Me sentei, esperei alguns minutos, mas eu sabia que nenhum ônibus que me atendesse passaria por ali nos próximos cinquenta. Subi até outro ponto, no qual fiquei só alguns segundos, quando decidi que um terceiro, um pouco mais acima, me daria mais opções. Fui, o ombro doendo pelas duas bolsas, o mp4 passou de ney para pitty, eu sorri. Pitty é tão nostálgico. No terceiro ponto havia ainda um banco, o qual eu desejava deveras então, mas estava ocupado pela bolsa de uma quarentona. Pensei azeda comigo, "é, é por isso que eu sento nos lugares reservados". Estava realmente pesado, então parei em frente ao banco, tirei a bolsa transversal e pus no chão fazendo manha, gemendo 'ai'. Ela tirou a bolsa. Agradeci e sentei-me, satisfeita. Passou um belo tempo, a mulher foi embora, outras chegaram, chequei meu celular, dezesseis ligações perdidas, todas da minha mãe, claro. Liguei pra ela, que estava estressada, perdi todo o bom humor e desliguei tão logo quanto pude. Música alta, brigando com a mãe, quão típica... Juro que percebi olhares de reprovação dos comparsas do ponto, mas posso ter imaginado. Outro ônibus que me servia passou, mas não parou. Frustrante. Escurecia, e o milk shake acabara. Aí notei que alguém falava comigo. Tirei um fone, pedi desculpa, era uma senhorinha. Bem frágil, magrelinha, toda enrrugada e de cabelos brancos. Meias estampadas marrons com bolinhas - acho que eram bolinhas - rosa, rasgadas nas pontas. Sandálias ortopédicas, vestido - ou saia? - e celular no pescoço. Só reparei dos joelhos pra baixo porque era tal o limite do meu campo visual. Enfim, falava comigo. Perguntava se o número, 62seiláoque, teria um 3 na frente. Disse que tinha, ela tentou digitar. Não conseguia, ofereci ajuda. Digitei, ela ligou, ouvi o começo da conversa e recoloquei os fones. Notei quando ela desligou, e por ter sido bem na pausa da música, notei que ainda falava. Tirei os fones. Ela começou a conversar comigo. Contou que iria à missa. Contou que suas pernas doíam. Contou que seis meses atrás um motorista de ônibus dera partida antes que ela conseguisse terminar de descer, e que ela caiu. Caiu de pé, "graças a deus", na hora não sentiu nada. Depois sentiu dor. Agora a perna doía "que nada dá jeito". O médico já passara-lhe remédios de todos os tipos. Doía ao dormir, e ao acordar. Ao acordar era pior, mal podia relar os pés no chão. Mas à noite era "uma dorzinha enjoada". Estava doendo naquele momento, mas ela aguentara por querer ir à missa. Era daí a vinte minutos. Contou que colocara uma prótese, não me lembro onde, dez anos atrás. Contou que já passara por quatro cirurgias. Contou que fez uma no coração. Contou que achava que os médicos escondiam-lhe os motivos da dor na perna, que achava que deveria operar, que sabia que eles não queriam operá-la pela idade avançada. Contou que machucara o joelho hoje cedo, batera na pia, sangrou até. Contou que o homem para quem ligara, para contar sobre a dor e o joelho, era como um filho. Contou que seu filho morrera, um mês atrás... Então a voz dela falseou. Olhei-a, os lábios tremiam. Queria chorar. Falou sobre como era tudo difícil. Contou que não sabia o que fazer, que achava que devia arriscar outra operação. "Vou deixar na mão de deus". Na mão de deus... Quis abraça-la, mas não o fiz, não sei porque. Aí um ônibus, o que passara antes sem parar, apareceu na esquina. Como eu sabia que o próximo demoraria a chegar, pedi licença para pegar aquele. Uma outra mulher, que já tinha alguns fios brancos, ouvia a nossa conversa. Melhor dizendo, as palavras dela. Eu não encontrei nada além de "é complicado...". Me deu licença, desejei-lhe boa sorte, com tudo, saí correndo pois o ônibus estava parado no ponto da frente, uns cinco metros pra lá. A outra mulher me lembrou que eu estava esquecendo a bolsa transversal, agradeci, peguei-a, corri. Entrei no ônibus, enfim. Chorei. Deus... Errei ao dizer que ele não existe. Sei lá se ele existe. Mas quem poderia dizer àquela senhorinha que ele é uma mentira? Tanto faz se ele existe... Mas eu desejo, do fundo de mim, que ele continue a existir na concepção dela. E sabe a Pitty, o milk shake, a grosseria no telefone, os assentos reservados? Então, nunca me senti tão idiota.

domingo

Ego

Nós não somos nada além de uma coincidência da evolução. A espécie humana não tem nada de especial senão o fato de ser a nossa. Tudo isso é invenção. O nosso deus, a nossa moral, cada valor e cada significado desde o mais simples, está na nossa cabeça e só.
O mundo material não faz sentido. Nenhum dos meus desejos fazem.

...Só que eu cansei de ver desse jeito.
Estou aqui por motivo nenhum e com finalidade nenhuma. Isto é, nenhuma além de perpetuar a espécie, mas já está claro que perpetuar a espécie é tão inútil quanto eu. Não posso continuar existindo com essa concepção, então optei por ignorantemente negá-la.
Idependente dos motivos, a vida existe e eu estou aqui. Então tudo bem, vou viver até quando conseguir e vou estudar coisas que me interessam, mas sem me culpar por ler sobre criações mundanas que nada valem. Talvez um dia eu até esbarre nos conceitos que me assombram; mas nunca mais vou deixar que eles me governem.
Sou nova e inconsequente, sei pouco de mim; contudo posso dizer, alto e claro, sem medo da pretensão, que entendi o princípio da vida: ela não é poética ou apotética como iludiam-nos os filósofos. A vida é um acaso, e as razões do mundo não estão em nenhum lugar fora da consciência humana.
Não preciso mais existir nesse erro. Vou continuar aqui, e agora livre por saber que razão nenhuma me coage.
O engraçado é que eu ainda não estou feliz...

terça-feira

Nosso mundo

A globalização foi a maior desgraça da humanidade. Destruiu a nossa singularidade, espatifou as mais belas esculturas simplesmente porque não se encaixavam... Hoje a nação massificada sofre as consequências, que se expressam claramente nas religiões. E os conflitos estão aí, frutos de ideias que foram projetadas para jamais se chocarem. Acho triste a irreversibilidade de que crenças dessa natureza não possam ser as mesmas depois do contato com outras. Ainda pior é o prejuízo sofrido pelas doutrinas que tentam se massificar à lá séc. XXI, uma vez que é lógico o corrompimento de qualquer ideia proposta a adequar-se a diferentes culturas.
Ademais, com opções de verdades absolutas antagônicas não é de se surpreender que as pessoas fiquem perdidas. No mundo globalizado muita coisa deixa de ser acreditada, e valores antes de primeira importância passam a ser menosprezados. Só não entendo a maldita vantagem dessa bagunça cultural. Quer dizer, além do dinheiro que uns poucos empresários ganham graças a um mercado consumidor mundial - todos querendo a mesma coisa, do mesmo jeito, sem maiores exigencias - o que é que nós ganhamos?!
Somos os fantoches. E felizes por sê-los, de tão corrompidos.
O egocentrismo humano exige uma crença espiritual, um significado teologico para a nossa vil existência; e nada mais natural vindo de um ser "inteligente". O ponto é que a nossa versão precisa ser absoluta para convencer-nos em nossa ignorância, o que certamente é incentivado pela globalização. É inclusive a proposta da 'Nova Era'. E da ciência. Mas quanta guerra ainda teremos de travar para chegar a tal?
Comparando os dogmas imparcialmente, a resposta óbvia é o ateísmo e a consciência de que as diferentes manifestações em matéria de religião ao longo dos povos tem motivos comuns como educação e unificação social. Logo, a única fuga a essa regra se caracteriza em uma teologia unificada. Contudo, eu estou demasiadamente convencida pelo pragmatismo ateu para me iludir com a possibilidade. Se a finalidade é proporcionar princípios para a continuidade de uma vida sã, qual a diferença de uma noção unificada ou várias independentes, diferentes e incomunicáveis? Mas a globalização já nos tirou essa chance...
Ela generosamente deixou-nos com o ceticismo e a iminência de guerra. Sem esperança. Confundiu nosso credo e ridicularizou a filosofia ancestral. Aplaudi a globalização, venerai a globalização, mimai a globalização; antes que ela se enjoe da vossa ignorância também.

domingo

SIQUEIRA, Humanitas Silva

Humanitas (e isto importa, acima de tudo), Humanitas precisa comer.
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Afinal, qual a vantagem de ser civilizado?
É tanta hipocrisia que eu já nem sei quais os meus princípios, tanto positivismo que eu não conheço o que é real. Nem uma parca ideia sobre quanto do místico existe e quanto é golpe de poder.
A sociedade não para de "evoluir", nem eu de me perder em dúvidas. Fazem pilhéria da esperança e, não obstante, confessam os enfermos.
Nosso modelo e o exemplo só divergem, cada vez mais. Amor e interesse, abraço e traição. E o que fica no final?
Talvez adorar o Deus Fogo fosse mais saudável.

sexta-feira

Sobre deus (parte três)

Acho que a parte dois foi por desencargo de consciência. Se deus existe, ele deveria me castigar por isso.

Sobre deus (parte dois)


Quando escrevi a parte um, tive medo de publicar. Tive medo porque não sei se acredito ou não.
Até ontem eu pensei que ser devoto a deus é indiferente, e que sendo uma boa pessoa, o que quer que existisse depois estaria ao meu alcance. Então analizei melhor o medo que confessei na primeira linha, e entendi. Talvez eu não seja uma boa pessoa.

falando nisso,
Até parece prentenção de deus querer ser conhecido e ter um nome que não deve ser utilizado em vão. Me remete ao absolutismo, há tanto superado. Se ele é tão perfeito, por que exige glória e fama? Talvez até deus precise de reconhecimento...

Sobre deus.


Deus é a personificação do incentivo que os governantes criaram pra tapear o povo. Deus é a lei, o castigo e o vigio. Deus é a justiça e o justiceiro. Deus é a esperança dos fracos, e o medo dos frios. Crer em Deus é esperar algo em troca.

FAÇA O BEM PORQUE QUER O BEM, NÃO PELO SEU BEM.