"Questão a resolver: como conciliar a crença que o mundo é, em grande parte, uma ilusão, com crença na necessidade de melhorar essa ilusão? Como ser simultaneamente desapaixonado e não indiferente, sereno como um velho e ativo como um jovem?" Aldous Huxley

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domingo

Confissão (continuação)

Felipe olhou o visor do celular: Andressa, obviamente. Primeiramente sentiu raiva. Ele precisava de reclusão, de tempo, de se organizar, e ela era - sempre fora - incapaz de dar o devido espaço às pessoas. Mesmo assim, devido à culpa por não estar sendo honesto com, Felipe acabou atendendo calmamente o celular. Ele tivera uma resolução nos últimos minutos.
- Alô?
- Felipe, eu te odeio.
- O que? Não, você não me odeia Andressa.
- Você é um idiota. Tem razão, eu não te odeio, mas você é o maior cretino. Você não entende que está errado? Mesmo que você tenha me contado que me traiu, mesmo que você tenha terminado comigo no lugar de manter dois relacionamentos, você é um idiota. Um estúpido! Por que você fez isso, seu imbecil? Por quê?
E Andressa começou a chorar. Felipe levantou-se do meio fio e deu alguns passos a frente, mas sinalizou para que Ed continuasse ali, ele tinha tomado uma decisão. Doía muito em Felipe ouvir os soluços da menina. A relação deles já não estava boa e ela não o compreendia, mas depois de três anos é natural que se tenha um grande afeto pela outra pessoa, e ouvi-la chorar por algo que sequer era verdade era muito difícil. Foi então que Felipe olhou para uma parede, puxou o ar, criou coragem, e falou:
- Andressa, eu sou gay.
Ela parou de chorar no mesmo instante. Ed olhou-o, muito supreso. Ele olhou de volta para Ed, de relance, e voltou a encarar a parede, enquanto sua cabeça girava e reverberava, sentindo uma grande felicidade, um alívio estarrecedor, e muito, muito medo. Tudo isso durou apenas um segundo, que foi o tempo que Andressa levou para se recompôr e então, claro, soltar um grande "O QUÊ???". Felipe sorriu. Agora era tudo muito mais fácil. Sentou-se novamente no meio fio, ao lado de Ed, e respondeu a tudo o que ela perguntou. Disse que ela era uma menina muito íntegra, que tinha várias qualidades, que era sim atraente - e nada disso era mentira -, mas que essa é o tipo de coisa que não acontece, pois simplesmente é. Depois disse que queria vê-la, no dia seguinte, abraçá-la e pedir as devidas desculpas pelo sofrimento que a fizera ter com aquela mentira sobre traição, que queria olhar nos olhos dela e contar o que sentia, que queria dar a ela a chance de compreendê-lo, para que ela pudesse aceitar ou não, e também decidir como seria a relação dos dois dali para frente. Disse, então, que estava na festa de aniversário do avô, que não via a hora de explicar tudo a ela, mas que por hora era melhor que ela absorvesse a informação e pensasse a respeito, que ambos precisavam de tempo antes de esclarecerem tudo o que havia para ser esclarecido, e que ainda a amava muito, porém de uma forma diferente da que ela imaginava. Estabeleceram horário e local, despediram-se e então desligaram o celular.
Felipe colocou o telefone no bolso ainda olhando para a frente, um pouco inseguro sobre o que estaria reservado na feição do primo, e então, vagarosamente, virou-se para encará-lo. Ed estava, a princípio, muito surpreso. Depois fez-se grave. Então ele abriu um grande sorriso, deu-lhe um olhar de cumplicidade e disse:
- Mas por que diabos tu nunca me falou isso???
E abraçou Felipe em um gesto de amizade. Quem estava perplexo, afinal, era Felipe. De tudo o que ele imaginou como reação depois de confessar sua homossexualidade, um sorriso e um abraço era o que ele menos esperava. Felipe expôs, então, tal pensamento, e Ed gargalhou em resposta.
- Felipe, isso não significa nada meu velho. O primeiro passo para destronar o preconceito da cultura da gente é não ser preconceituoso contigo mesmo, mano. Como tu tem coragem de ter vergonha de ser gay? E como é que tu acha que alguém vai olhar pra tua homossexualidade sem julgar se tu mesmo tem vergonha disso? Felipe, brother, pessoas são só pessoas, independente do sexo ou da sexualidade. Beijar homem, beijar mulher, foder homem ou foder mulher não muda teu caráter, não muda quem você é. Eu, na verdade, acho que estar aberto a se relacionar com pessoas - homens e mulheres - te deixa mais disponível a conhecer gente que possa te ensinar algo sobre essa vida, e é por isso que eu não me limito com isso. E tu quer saber? Nada é assim tão sério quando a gente sabe que não é tão sério. Para de achar que ser diferente é grave, só aí é que tu vai conseguir sentir prazer em não ser robô.
Felipe olhava-o boquiaberto - Ed definitivamente ganhara um novo discípulo para sua filosofia informal. As palavras de Edmundo haviam tocado-o muito fundo. Foram tudo o que ele sempre sussurrara à própria consciência, mas nunca teve a coragem de ouvir. Finalmente, vendo alguém assim tão nobre e tão completo, e ao mesmo tempo tão simples, Felipe sentiu-se capaz de fazer aquilo que sempre quisera: deu a Ed o seu primeiro beijo de verdade, o primeiro sincero, o primeiro que ele realmente quis dar, ao qual Ed correspondeu na mais completa harmonia - e beijo nenhum poderia ter sido mais lindo.

--- Fim ---

sábado

O problema das cidades grandes

Olhei pelo parabrisa, as luzinhas da cidade estavam todas piscando. Pensei em um flashmob gigantesco, em invasão alienigena, em energia das fadas; depois pensei na fumaça de algum carburador. De qualquer forma, se fosse haver algo grande eu teria visto no jornal. Esse é o problema das cidades grandes, acreditamos mais nos jornais que em nossos olhos. O sinal abriu, acelerei. Hoje é domingo.
Não estou muito certo de que isso interessa, mas meu nome é Luis Otávio. Nome estúpido, não? Era um saco chamar Luis Otávio no fundamental. Pior ainda era a minha mãe, senhora Ana Luiza, que obrigava o mundo inteiro a pronunciar meus dois nomes. Era até entediante ser chamado com toda aquela pompa desnecessária. Acho que ela queria que eu fosse importante. Importante e íntegro. É, porque nome composto é coisa de gente reta, bem resolvida, com caráter polido e carreira decente. Voce já viu algum mendigo de nome composto? Algum viciado? Não. E se eles, por infelicidade do destino, têm mesmo um nome composto, logo abdicam de um deles ou substituem-nos por algum apelido tosco - a verdade é que nome composto é uma coisa imponente, é preciso muita dignidade para que lhe chamem pelos dois nomes.
O triste é que eu não mereço os dois nomes. E acho que decepcionei minha velha. Eu sei que depois do Luis Otávio todo mundo aí começou a imaginar um cara alto, de ombros largos, camisa de manga comprida com gravata vermelha, e meu carro foi logo jogado no patamar de um importado preto, polidíssimo e brilhante, com os vidros fechados e o ar condicionado ligado. E erraram. Quer dizer, minha camisa é mesmo de botão, de mangas curtas, mas de botão - só que tem o logotipo da empresa onde eu trabalho ridiculamente bordado no bolso do lado direito. E é azul clara. E meu carro é branco, e sem brilho. Um gol 93, se alguém realmente ainda está interessado na minha estória.
Bom, no caso de alguém estar, deve querer saber para que eu estou uniformizado em um domingo. O caso é que eu não voltei para casa desde o fim do expediente de sexta feira. Ah é, eu sou o menino do xérox. Entretanto isso não deve ser analisado como extrema rebeldia, pois de fato não tenho esposa, filhos, cachorros ou qualquer coisa que o valha esperando por mim em casa. Minha casa é medíocre. Quase uma quitinete. E sempre muito mal organizada. minha mesa de centro - era uma dessas bem vagabundas - quebrou uns meses atrás, quando um amigo trôpego sentou-lhe em cima. Desde então, minha mesa de centro são três latas de tinta e uma madeira quadrada - que tive o admirável trabalho de colar nas latas - com uma toalhinha. Isso mesmo, uma toalhinha! Tanta desgraça nesse mundo, e a minha mesa de latas de tinta tem toalhinha. Ai. ai, e é rendada... Bom, mas voltando ao fato de eu ainda não ter voltado para casa: estava de saco cheio. Ainda estou de saco cheio, só que preciso ir visitar minha mãe. A família inteira vai estar lá, e eu estou nojento e fedendo a bebida. Mesmo sabendo que a velha não iria ligar, estou indo em uma loja, aí vou passar em casa e só depois vou para a casa dela. É que ela está bem doente. Na pior, se querem saber. Eu vou vê-la aos domingos e às quartas, mas hoje a reunião se estendeu para a parentada toda, como que num ritual de despedida. Não que estejamos preparados para a morte dela. É que quando uma coisa é iminente, não interessa você estar pronto ou não, e sim preparar tudo para que aconteça da melhor forma. Se é que tem alguma forma boa de morrer. É que a minha velha é um tanto emotiva, então nós queremos que ela tenha a chance de dizer o que quiser para quem quiser, por via das dúvidas. Nesse ponto da narrativa eu bem poderia começar um monólogo sobre a doença da minha mãe, explicar todos os pormenores, descrever a personalidade das minhas tias gordas e os quadros da sala da casa, mas eu tou com preguiça, então vou apenas contar uma estória, de quando eu era menino.
Eu tava lá, no quintal, brincando com o barro - é que nós tinhamos uma horta. Minha velha é bem conservadora e por isso gosta de plantar a própria cebolinha, e tal. Hoje o espaço abriga uma grama ordinária, três cadeirinhas de ferro e uma mesa, minha velha também gosta dessa lengalenga de tomar chá e conversar - enfim, brincando com o barro, aí ela apareceu. Eu já tinha passado a lama até na cara, estava imundo, e quando ela chegou eu tive certeza de que ia tomar o maior esporro. Mas ela falou (eu lembro, certinho) "Luis Otávio, o jantar já está pr-- oh. Luis Otávio, vá tomar um banho para comer, meu filho." E só. Quando eu passei por ela, beijou-me a cabeça enlameada. Nosso piso era branco, e eu fiz a maior meleca com as minhas pegadas marrons, mas quando eu voltei pra comer já estava tudo muito branco de novo. Minha velha é dessas que amam a gente até quando estamos sujos de barro no meio da cozinha branca.
E agora, vejam só, eu estou meio triste. Quer dizer, ela tá lá, a beira da morte, e eu sou o garoto do xérox. Ela queria tanto me ver com o tal carro importado e a camisa de manga comprida! Eu sei que queria. Niguém bota "Luis Otávio" como nome do filho assim, à toa, sem pretensão... E eu tô fedendo. Terminei meu terceiro colegial capengando, arrumei um emprego de vendedor, e enganei todo mundo com essa de "quero só juntar um dinheirinho, mas ano que vem eu faço faculdade". Era sempre ano que vem. Até que param de perguntar da faculdade. É que eu nunca fui muito certo sobre o que queria fazer, e, pra ser sincero, eu também nunca quis muito. Quando eu percebi que já era tempo, e isso foi lá pelos 23, arrumei um jeito de sair de casa. E aí fui pra aquele moquifo, com toalhinha na mesa de centro, e não saí até hoje. Pra vocês verem até onde chega a merda da acomodação de um ser humano.
Meu vocabulário não é dos melhores, não tive curso superior, também não arrumei garota nenhuma, e assim fui ficando sem inspiração. Acabou que a vida foi passando e eu encostei num canto. Sei lá. Mas acontece que não tá nada bem. Perdi contato com os amigos do colegial (mas também eu não tinha muitos, espinhudo e encurvado como eu era), aliás, aposto que estão bem de vida hoje, os filhos da puta, a maioria de carro importado e camisa de manga. Mas não ter feito faculdade nem é o meu recalque não. Meu recalque é ter sido tão alheio. Eu podia ter dedicado a minha vida a algo importante, sabe? Não necessariamente a uma profissão, mas sei lá, podia ter virado hippie, podia ter feito algo de diferente nesse mundo, em vez de ficar apodrecendo com cerveja e televisão naquela quitinetezinha escrota. E, garoto do xérox? Mas que droga, qualquer coisa é mais vivo que garoto do xérox. Não que eu seja idiotinha o bastante para desprezar esse tipo de emprego, na verdade eu respeito muito quem rala pra ganhar a vida, seja como garoto do xérox ou como gigolô. Só que gigolô ainda teria mais emoção. Sabe? Sei lá. Garoto do xérox é monótono. Eu não queria ser milionário, mas também não queria essa vida de tédio. E, ah, a minha velha merecia mais que um garoto do xérox.
Saí do trabalho na sexta e fui para um boteco. Sou meio fraco para bebidas, se querem saber. No terceiro copo minha barriga começa a doer, e quase sempre acabo com diarreia. Mas adoro ficar ébrio. Bom, bebi uns vários copos, não comi nada, vomitei de leve, e aí bebi mais uns. Depois rumei para um puteiro. Eu sei que é triste precisar de um puteiro, e depois de vomitar ainda, quase que uma foto da decadência, mas cara, eu não tava nem aí. É por isso que eu curto ficar ébrio, é que então eu consigo não estar nem aí.
Quando cheguei lá, caramba, que tristeza que me deu. Odeio bêbado chorão, mas não deu, chorei. Umas putas gordas, outras meio pelancudas, credo. Mas arrumei uma até que boazinha. O legal mesmo foi que não transei. No quarto, continuei chorando, como uma menininha, e, pasmem, ela foi compreensiva. É lendário encontrar uma puta compreensiva. Mas essa ouviu a minha estória toda, falou uma ou outra coisa - que, alias, nem eram absurdas. Acho que no final das contas ser puta deve ensinar bastante sobre as pessoas... - e me deixou chorar. Aí eu paguei, fui beber mais pois estava voltando a ficar sóbrio e isso não era confortável, e aí fui para uma praça. O resto nem é importante. Dormi por lá, continuei bebendo e me odiando no dia seguinte, liguei pra um amigo, conversamos, ele foi embora e eu continuei na minha fossa, dormi em outra praça. Hoje de manhã eu cheguei a uma bela conclusão: a culpa é minha sim, mas a cagada não é irreversível. Tenho um empreguinho chato e uma vida chata, e isso é chato, mas se eu continuar nessa depressão boiola vou acabar é me matando. Decidi que vou passar numa loja granfina, comprar uma camisa de manga comprida e uma gravata, tomar um belo banho, fazer a barba e vesti-la; vou arrumar minha mala e depois vou lá ver minha mãe. Aí eu converso com as tias gordas, ajudo na cozinha, sorrio o tempo inteiro, dou um beijo na testa da minha velha e digo que amo muito ela. E aí eu vou embora.
Tem um lugarzinho, numa cidade litorânea a umas duas horas daqui, onde eu sempre quis morar. É um morro com vista pro mar, que não é ocupado. Vou fazer uma cabana por lá, e ficar alguns dias. Até alguém vir me mandar sair. Depois eu junto minhas coisas, volto pra cá, e se eu não for demitido, continuo sendo o garoto do xérox. Só que vou usar o dinheiro pra um curso superior. Administração, quem sabe? E já tenho a camisa e a gravata, e tal. A vida na cidade é uma bosta. Ninguém tá nem aí, mesmo sóbrios. O negócio é que ou você cala a boca e vai fazer o que tem de fazer, do tipo faculdade e puxar saco da chefia, ou você fica sendo o garoto do xérox. Esse é outro problema das cidades grandes, acreditamos mais num diploma que na pessoa que existe atrás dele...

terça-feira

Nossas páginas

"People are just people
They shouldn't make you nervous
People are just people like you..."
(Regina Spektor, Ghost Of Corporate Future)


Sempre ouvi dizer que todos somos legais até a segunda página. Estou começando a discordar. Afinal, todo mundo é legal exatamente depois da segunda página - na máscara somos todos clichés. É inegável que nas primeiras conversas com alguém estejamos todos encenando um papel, fingindo sermos o que melhor nos aprece, ou mostrando a nossa face mais trabalhada. E essa parte da relação é tediosa. Mais tarde, quando tirados os saltos e as maquiagens, é que a pessoa começa a mostrar quem ela realmente é. Somente lá pela quarta página é que podemos descobrir-lhe as reais qualidades e defeitos, sentir algo em relação a ela e ter um esboço de opinião a respeito. Antes disso, é tudo raso e fútil.
Mesmo porque julgar a pessoa até a segunda página é a maior injustiça. E se a casca dela não condiz com a sua? Isso não deveria significar que vocês não se darão bem. Quem já foi forçado a conviver com alguém cuja máscara lhe fosse repulsiva talvez concorde: depois da segunda página, quando não há mais tribo, classe social, time ou partido político, todos nós somos muito parecidos e capazes de afinidades. As primeiras páginas só servem para seccionar as pessoas, algo que eu acho extremamente inútil e triste. A diversidade da mentalidade humana é o que mais me encanta, não consigo concordar com a ideia de fugirmos de pensadores à priori diferentes.
Mas não posso fechar meus olhos ao fato de que estar rodeado por semelhantes gera conforto e é essencial, já que do contrário nos sentimos deslocados e frágeis e isso é muito desagradável. Insisto, porém, em que não passa de uma questão de ponto de vista: só iremos nos sentir estranhos longe de máscaras com as quais nos identificamos enquanto classificarmos as pessoas por tais máscaras. Uma vez entendido que essa casca é dispensável e estando-se decidido a olhar mais fundo, nós podemos compreender e sermos compreendidos por qualquer um. Sentirmo-nos deslocados é um erro da cultura imposta quando entendemos que o ser humano é nada além de um ser humano, em qualquer lugar. Aceitar e ser aceito só depende de lermos o trecho inteiro.

domingo

"Os indivíduos

devem matar-se uns aos outros porque os interesses da Nação o exigem; devem ser educados no sentido de cuidarem dos fins e desprezarem os meios, porque os mestres-escola não se fazem esperar e não conhecem outro método; devem viver em cidades, devem ter tempo para lerem os jornais e irem aos cinemas, devem ser instigados a comprarem coisas de que não precisam, porque o sistema industrial existe e precisa ser mantido em atividade constante; devem ser coagidos e escravizados, porque, do contrário, poderiam pensar por si e causar embaraços aos seus governantes.
O sabat foi feito para o homem. Mas o homem agora se comporta como os Fariseus e insiste em que ele é que é feito para todas as coisas - ciência, indústria, nação, dinheiro, religião, escolas - que foram realmente feitas para ele. Por quê? Porque tem tão pouca consciência de seus próprios interesses como ser humano, que se sente irresistivelmente tentado a sacrificar-se por esses ídolos. Não existe outro remédio a não ser tornamo-nos conscientes dos nossos próprios interesses como seres humanos e, uma vez conscientes, aprendermos a agir em conformidade com essa consciência. O que significa aprendermos a fazer uso de nós mesmos e aprendermos a dirigir nosso espírito."

Anthony Beavis, em Sem Olhos em Gaza / Aldous Huxley

Lugar comum

- Mas você suportaria sustentar vadios com o seu próprio trabalho?
- Então, mas a gente já faz isso. Só que eles chamam-se políticos. E outra, qual o seu objetivo por aqui? Acumular riqueza, bens e luxos, ou estar bem e ser o melhor que puder? Porque, se for o segundo - e deveria ser o segundo - você talvez devesse olhar melhor ao seu redor. Existem pessoas morrendo de fome, pessoas morrendo de frio - existências que valem exatamente tanto quanto a sua. Você suportaria ser indiferente a isso?
- Augusto, seu discurso socialista me cansa. Eu não devo ter qualquer empatia com a desgraça socioeconômica, essa é a magia de um sistema autossuficiente.
- Um sistema que cuida de si mesmo, enquanto esmaga o povo. E vocês concordam.
- Não acredito que você consiga acreditar em uma colocação tão pueril com seus quarenta e dois anos de idade. Será que você nunca vai amadurecer e entender que teoria e prática divergem? Você soa como um adolescente falando, Augusto.
- E você, Paulo, soa exatamente como um adulto. Sem sonhos, sem pretensões que não sejam graficamente prováveis, pragmático e insensível.
- E qual a vantagem em ser entusiasta? Qual o ponto em viver entre ilusões, com desejos impossíveis e com crenças equivocadas? Qual o sentido de tudo isso, depois que se olha pelo lado de fora uma vez?
- Eu não sei, Paulo. Mas responda-me você: qual é a vantagem do racionalismo e do decadentismo sob os quais você enxerga sua vida?
- Eles não são vagos ou fugidios. Seu sermão de altruísmo e empatia é quase místico. Ele não tem bases reais, foi todo fundado em esperanças e suposições. Não é um discurso seguro. Pode sim acontecer, mas eu posso citar-lhe vários exemplos - se não empíricos, ao menos embasados - de falência para o socialismo. E mesmo para a bondade humana. Não me ataque com termos pejorativos como pragmatismo ou niilismo. Trata-se de lógica. Uma lógica que demanda maturidade para ser atingida. Uma lógica que idealistas incorrigíveis, adolescentes de quarenta e dois anos, não podem compreender.
- Proposta alguma funcionará enquanto a maior parte da população continuar cega pelos discursos embasados do capitalismo. E sabe o que mais me chateia? As bases de que esses discursos se valem. São todos construídos sobre a natureza má do homem. O homem é egoísta, o homem é avarento, o homem é perverso; e todos aceitam isso prontamente. Como que "sim, nós somos sim", e ao admitir isso tivessem motivo para continuar sendo. Será que nenhum de vocês, adultos lógicos e senhores de si, é capaz de perceber o quão errado esse discurso é? Será que nenhum de vocês pode sentir que nós devemos mudar?
- Eu vejo isso como um teatro darwinista: somos todos animais em busca da própria sobrevivência e precisamos adaptarmo-nos ao meio (no caso, ao sistema), ao invés de tentarmos mudá-lo. A natureza prevalece. Você é apenas uma mutação inútil. Mais um dos que tentarão mudar o mundo para cair e ser esquecido mesmo pelos livros de história. E sabe por quê? Porque o seu gene reacionário não se encaixa no nosso contexto.
- O seu cientificismo é só o que você consegue ver. E você nem mesmo foi autor deste. É assim que eu vejo tudo isso. Eu e meus semelhantes somos sim adolescentes em ideário, mas vocês, embora adultos em comportamento, são crianças coagidas pela mídia. Vocês acreditam em tudo que uma revista especializada coloca. Vocês se ajoelham para a ciência sem questionar, pois a grande maioria não tem bases - sim, bases - para questionar. Vocês se ajoelham às faces da ciência assim como os medievais se ajoelhavam nas igrejas. E são tão cegos que aniquilam, com as próprias mãos e palavras, os dissidentes da ordem que os domina. Você está iludido, Paulo.
- Caralho, isso é o que eu mais odeio sobre socialistas. A saliva branca que espuma de suas bocas quando usam palavras bonitas em um discurso de luta de classes. Um bando de graduados cheios de morais e frustrados com o mercado de trabalho. Fracassados imaturos, que em vez de trabalhar nos próprios atributos para conseguir um emprego melhor, saem por aí mentindo idealismos sobre um mundo perfeito. Então somos todos crianças perante o pai governo. A diferença é que os mais espertos de nós sabem o que fazer para agradar ao papai e conseguir dele o que deseja, e outros choram birrentos no tapete da sala. Quer mesmo ser algo de útil, Augusto? Então cresça fronte ao governo, torne-se independente dele no lugar de reclamar assistencialismo, seja um anarquista. Continuaria sendo absolutamente inútil e você ainda seria frustrado, mas ao menos mereceria respeito.
- Ótimo. Um adulador que respeita a rebeldia e se acha digno de criticar o comportamento mais lógico para os filhos de um pai indiferente, o choro reivindicativo; brilhante, Paulo, simplesmente brilhante.
- Pois não, chame-me hipócrita agora. É a pejorativa esquerdista clássica. Lembra do meu niilismo e pragmatismo? É. Eles casam bem com hipocrisia. Corroa-se, eu até gosto. E não é por que isso me faz mais apto a sobreviver no sistema vigente. É algo sobre o meu caráter. Porque eu realmente sou egoísta, avarento e perverso, mas não é esse o meu "motivo", a minha inspiração, para continuar sendo. Não. Eu continuo sendo porque eu gosto. E eu não estou dizendo isso somente para irritá-lo - embora seu rosto avermelhando-se esteja-me sendo deleitoso de olhar -, estou dizendo tudo isso por que é a mais pura verdade. Augusto, eu conheço você há mais de quinze anos e me sinto à vontade para confessar, eu gosto e eu faço de propósito, eu sou assim e eu não sinto nenhum impulso autônomo para mudar. O que eu finjo é pela convivência social, mas meus sentimentos podem divergir um tanto. E eu não acho que eu tenha qualquer disfunção cerebral, nem que eu seja o único a sentir tudo isso. Transforme-me em um socialista, pois, em um filantropo convicto - e sincero -, e eu calo-me para sempre. Contudo, até mesmo você sabe que é impossível.

E Augusto ficou em silêncio. As luzes pareceram abaixar, onde quer que eles estivessem; a musica soou distante e fraca. Paulo reverberava sozinho, a boca espumante por seu próprio discurso, copiosamente enfeitado por palavras bonitas e silogismos também comprados, embora de filósofos menos populares, a pensar-se vitorioso daquele nada. Eles não eram vencedores ou fracassados, e eles não sabiam o que estavam dizendo.

- Você disse anarquista, sim?
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sexta-feira

"rambling man"


a gente morre o tempo todo. a gente vive morrendo, de novo e de novo. falamos coisas que não fazem sentido, com ou sem pretensão de parecer quaisquer coisas. agimos sem coerência, pra arrependermo-nos mais tarde. ou não. às vezes não ligamos a mínima. se eu me preocupo com a gramática e falo palavrões, é porque e apenas porque eu vejo que sempre erro na gramática, e ainda torço o nariz para alguns verbetes. essa romantização do ser e do não ser não faz o menor sentido, mas não deixa de ser tocante. o mesmo para a idealização do escrever, quando escrever é vazio. às vezes é esse vácuo mesmo que idealizam. a gente adora idealizar o ignóbil. no fundo a gente não faz ideia de o que pensa. e de o que somos. huxley me agradou hoje pela manhã, através da obra de um personagem. eu sempre reclamei não ter tido nenhum motivo maior, grandiloquente ou traumático que fosse, para moldar-me a personalidade - escolhi a dedo tudo o que fingi ser até agora. anthony, o personagem, colocou que a única possibilidade sincera de personalidade é aquela que não se é moldada pelo meio. aquela que não se define e que não tem razão para ser, pois somente esta pode vir do nosso verdadeiro âmago, e não de um desenhado pelas circunstâncias. ou talvez anthony não pensasse nada disso e o meu cérebro tenha deixado-se divagar demasiado. mas, independente disso, ele logo se embasbaca em sua própria desgraça de caráter romântico e justifica as conclusões como fugas generalizadoras vazias de significados, as quais ele apenas buscou por consolo fraco. não vou desmenti-lo, pois então ele explica que apenas os bárbaros e ignorantes têm uma personalidade, pois nada sabem de si, ou em que podem transformar-se, e a partir dessa linha deixa de felicitar-me para cair de cara em uma explicação surda. existir é tão vazio. ser. a gente não é. a gente nem sabe o que fazer para começar a ser. personalidades, limites, obras... não passam das fugas generalizadoras do anthony. do huxley. suas e minhas. e tanto faz ser romântico, intelectual, claro ou caótico - e ninguém está sugerindo respectividade entre essas linhas -, o homem "não-é" do mesmo jeito. e se eu perdi a clareza, não quer dizer que já não tenha um sentido. ao menos não obrigatoriamente. que seja. o homem não-é. o homem não-sabe. mas ele quer... só que, bem ou mal, eu estou morrendo agora mesmo.

oh naive little me, asking what things you have seen, and you're vulnerable in you head
you'll scream and you'll wail 'till you're dead
creatures veiled by night, fallowing things that aren't right,
and they are tired and they need to be led
but you'll scream and wail 'till you're dead
[...]
but if i sit here and weep, i'll be blown over by the slightest of breeze, and the weak need to be led
and the tender are carried to their bed, and it's a pale and cold affair, and i'll be dammed if i'll be found there
[...]
and it's hard to accept yourself as someone you don't desire
as someone you don't want to be
http://www.youtube.com/watch?v=JvwWzcLfH-k