"Questão a resolver: como conciliar a crença que o mundo é, em grande parte, uma ilusão, com crença na necessidade de melhorar essa ilusão? Como ser simultaneamente desapaixonado e não indiferente, sereno como um velho e ativo como um jovem?" Aldous Huxley

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domingo

Identificação (continuação)

- Oi Felipe. Tudo beleza? Cara, cê tá com a maior cara de destruído. Não tá dormindo direito não, é?
- Oi Ed, tô bem sim cara, e você? É, tou quebradaço, tá dando pra perceber? Que merda.
- Mas e a Andressa, ela não veio? Como ela tá?
A Andressa. Felipe sentiu uma enorme preguiça, então, pois o Ed e a Andressa eram colegas e conversavam entre si, então ele precisaria contar a estória da traição, e isso pouco a pouco chegaria nas tias e nas primas e mais olhos julgadores cairiam sobre ele, o que definitivamente não era conveniente agora. Acontece que Felipe não tinha escolha, e mesmo que não contasse nada, Andressa contaria dali a alguns dias, e certamente dramatizando tudo e fazendo-o parecer um crápula. Mas que merda, de novo. Não tinha saída.
- Nós terminamos, cara...
- Sério? Nossa, que duro... Sinto muito. Que que aconteceu? Cês eram tão casalzinho, velho... Não entendo mesmo.
E então Felipe contou sua versão da mentira. A reação de Edmundo foi supreendente. Edmundo tinha lá seus dezoito anos e ainda não abandonara sua rebeldia adolescente. Quando questionado, ele jurava não pertencer a tribo nenhuma, dizia que se limitar assim era ridículo, que ele não era estereotipável, que ele era ele mesmo e pronto. De qualquer forma, para facilitar a descrição, Edmundo tinha algo de punk. Seu cabelo era preto com as pontas azuis, habitualmente espetado, mas agora, com a família toda reunida no aniversário do avô, estava molhado e penteado para baixo por insistência da mãe. Bem, Edmundo tomava banhos e tinha um tênis surrado no pé, no lugar do imaginável coturno, logo ele não era tão punk assim, mas sua jaqueta de couro e a tatuagem do simbolo do anarquismo continuavam ali. O menino era inegavelmente libertário, visivelmente aberto a novas correntes de pensamento, e isso permitia que ele tivesse um ideário de respeito ao diferente, o que confortava Felipe. Mas, apesar de tudo isso, Edmundo tinha uma moral reta, e em circunstâncias normais teria abominado algo como traição em um relacionamento tão sólido como era o de Felipe e Andressa, já que isso quebrava a noção de respeito mútuo, que era algo que Edmundo colocava acima de tudo. Foi por isto que Felipe se surpreendeu: Edmundo perguntou-lhe, com sincera incompreensão e visível perplexidade, contudo sem julgamento ou acusação, o motivo para ele ter feito aquilo.
Era óbvio que traição não fazia parte da personalidade de Felipe. Edmundo sabia bem disso. De todos os primos, Edmundo era o que conhecia-o melhor, e ao unir tal ato com sua feição derrotada, percebeu que o primo não estava bem. Ed colocou a mão no ombro de Felipe e sugeriu que fossem conversar do lado de fora. Felipe, alheio a tudo, deixou-se guiar.
Quando chegaram na esquina do quarteirão, que ficava cinco casas depois da casa onde estavam, sentaram-se no meio fio. Felipe, primeiramente, deixou-se ouvir apenas o silêncio do local, que era prazeroso depois de passar horas condicionado às músicas e vozes da festa do avô. Depois, foi interrompido por um grande nervosismo de quem está prestes a contar uma mentira que ainda não inventou. Foi quando Felipe olhou para Edmundo. Edmundo era diferente. Edmundo não julgava as pessoas. Edmundo era o mais parecido com um amigo que Felipe jamais tivera. E, quando Felipe olhou-o, foi retribuído com um olhar de paciência e preocupação. Felipe sentiu, naquele momento, que confiava no primo, e por isso permitiu-se chorar na frente dele.
- Eu... Eu não traí ela. Ed, você já sentiu algo que você soubesse que era inofensivo e sincero, mas que você tivesse a certeza de que ninguém entenderia?
Ed enrugou a testa e olhou para a rua enquanto pensava, e quando Felipe começou a sentir-se envergonhado, a resposta veio:
- Cara, claro que já. A opinião dos outros fere muito a gente, e claro que nem todo mundo entende aquilo que nós pensamos. Por isso tem gente que deixa de falar muita coisa que pensa. A incompreensão dos outros chega junto com reprimendas, e não interessa se o que a gente fala é sincero e inofensivo, nem todo mundo vai achar isso. Mas eu falo mesmo assim.
Isso era o que Ed tinha de mais bonito, Felipe pensava. Ele sabia responder as palavras certas mesmo sem saber os detalhes do problema exposto. E ele não exigia sabê-los. Felipe ficou absurdamente contente quando Ed não perguntou mais nada. Ficaram os dois em silêncio olhando para a rua vazia, sentindo ambos um conforto e um contentamento simples que não tinham há um bom tempo. Então o celular de Felipe tocou.

Continua

quinta-feira

A revolução que eu hei de instigar

Por que estamos nos fechando, nos calando e fugindo? Quanto mais eu aprendo sobre o mundo de hoje - globalizado, urbanizado, industrializado, científico, racional e superlotado -, mais eu percebo que as pessoas estão agindo mal consigo.
Que não soe como propaganda socialista, mas na nossa sociedade as pessoas estão tão presas ao consumo ou ao trabalho que esquecem de zelar por sua própria condição como ser humano. De tão atarefados, percebo que o padrão é que elas ignorem valores pessoais, autoentendimento, as crises existenciais rotineiras e os anseios de mudança para gastarem seu precioso tempo em banalidades estéreis: o trabalho, os filmes e livros massificados, as compras e o transporte coletivo estão roubando-lhes preciosas horas de existência.
O problema é que esse costume vem se transvestindo em algo natural e, o mais preocupante, cultural. O perigo desse crescente desinteresse com questões psicológicas profundas é que os nossos sentimentos não se apagam simplesmente por não receberem atenção. Na verdade eles se agravam, pois, quando não são corrigidos ou canalizados no começo, sentimentos dessa espécie tendem a crescer e a tornarem-se comuns, de forma que, a cada dia que passa, fica mais difícil dar-se conta do absurdo daquela tristeza irracional, cuja tendência é ser considerada normal.
E é por isso que, dizem os jornais, o consumo de calmantes e antidepressivos atual é tão grande. As pessoas ignoram o próprio inconsciente pela dificuldade que representa tentar entendê-lo, e assim seus problemas escapam do controle. Quando esses problemas começam a realmente interferir na rotina de seu sujeito, este procura por drogas psiquiátricas para calarem-no sem gasto algum de tempo ou psicologia. E o resultado é a perda da consciência de si mesmo, da própria existência.
Quando alguém opta por alienar-se de si, a capacidade crítica e de criação dessa pessoa é seriamente danificada. Alguém que prefere fechar-se para os próprios sentimentos não é capaz de ajudar o mundo com novas ideias, não é sequer capaz de agir por alguma causa. Nós, cada um de nós, somos o ser mais importante do universo em nossa própria concepção - nascemos vivemos e morremos conosco, nossa lucidez para com nossa condição é o que há de mais precioso, deus nenhum pode salvar-nos da loucura de não estarmos presentes em nós mesmos. Logo, se abdicamos desse autoacompanhamento, se entregamos nosso estado psicológico ao acaso enquanto escondemos os sinais de que algo precisa ser feito quanto a eles com antidepressivos, por conseguinte, se deixamos de estar presentes em nós mesmos, como podemos estar presente em qualquer outro assunto? Como podemos ter alguma opinião política? Como podemos ter algo a dizer? A desimportância das pessoas consigo, que anda em voga no século XXI, causa mais que alta nos números de depressão e insatisfação: causa também alienação política, o que viabiliza corrupção, manipulação, injustiça - todos fontes de novas crises emocionais subconscientes.
As pessoas têm fechado os olhos para a própria condição na esperança de encontrarem fora de si a realização e o incentivo que as faltam, e aparentemente têm procurado-no no consumo e nos ídolos do rock, e estes, tenho dito, são drogas psiquiátricas providenciadas pelo governo para manter o povo quieto e distante como convém.
Entretanto toda droga para de fazer efeito um dia (não há meia vida que suporte tantas depressões consecutivas), e quando doses suficientes não puderem ser encontradas - o que eu não acho improvável, pois a desesperança, o niilismo e a preguiça existêncial podem reproduzir-se tão rápido quanto bactérias em um meio adequado, e a juventude hodierna é o meio adequado - quando doses suficientes não puderem ser encontradas, restar-nos-ão duas alternativas: enlouquecimento e suicídio, ou, minha preferida, revisão de conceitos.
Quando, finalmente, depois de muita decepção, as pessoas começarem a descobrir que reprimir suas tristezas por praticidade está fazendo-as doentes, quando entenderem que não há nada que resolva o vazio interno senão autobservação, elas irão (serão obrigadas a) dar um basta e enfrentar a si mesmas. Só depois dessa revolução pessoal será possível alguma mudança - mas, para os que dizem que a minha geração não tem valor histórico, eu peço mais algum tempo. (revoltas em Londres, revoltas no Chile, revoltas no Mundo Árabe... evite julgar um ser humano antes que ele amaduresça, é tão injusto...)

Uma instrospecção de um professor que hoje ganhou minha estima:
"A mente é a droga. Pensem, imaginem, que dá barato. Mas tomem cuidado, tudo tem uma contraindicação..."

sábado

O problema das cidades grandes

Olhei pelo parabrisa, as luzinhas da cidade estavam todas piscando. Pensei em um flashmob gigantesco, em invasão alienigena, em energia das fadas; depois pensei na fumaça de algum carburador. De qualquer forma, se fosse haver algo grande eu teria visto no jornal. Esse é o problema das cidades grandes, acreditamos mais nos jornais que em nossos olhos. O sinal abriu, acelerei. Hoje é domingo.
Não estou muito certo de que isso interessa, mas meu nome é Luis Otávio. Nome estúpido, não? Era um saco chamar Luis Otávio no fundamental. Pior ainda era a minha mãe, senhora Ana Luiza, que obrigava o mundo inteiro a pronunciar meus dois nomes. Era até entediante ser chamado com toda aquela pompa desnecessária. Acho que ela queria que eu fosse importante. Importante e íntegro. É, porque nome composto é coisa de gente reta, bem resolvida, com caráter polido e carreira decente. Voce já viu algum mendigo de nome composto? Algum viciado? Não. E se eles, por infelicidade do destino, têm mesmo um nome composto, logo abdicam de um deles ou substituem-nos por algum apelido tosco - a verdade é que nome composto é uma coisa imponente, é preciso muita dignidade para que lhe chamem pelos dois nomes.
O triste é que eu não mereço os dois nomes. E acho que decepcionei minha velha. Eu sei que depois do Luis Otávio todo mundo aí começou a imaginar um cara alto, de ombros largos, camisa de manga comprida com gravata vermelha, e meu carro foi logo jogado no patamar de um importado preto, polidíssimo e brilhante, com os vidros fechados e o ar condicionado ligado. E erraram. Quer dizer, minha camisa é mesmo de botão, de mangas curtas, mas de botão - só que tem o logotipo da empresa onde eu trabalho ridiculamente bordado no bolso do lado direito. E é azul clara. E meu carro é branco, e sem brilho. Um gol 93, se alguém realmente ainda está interessado na minha estória.
Bom, no caso de alguém estar, deve querer saber para que eu estou uniformizado em um domingo. O caso é que eu não voltei para casa desde o fim do expediente de sexta feira. Ah é, eu sou o menino do xérox. Entretanto isso não deve ser analisado como extrema rebeldia, pois de fato não tenho esposa, filhos, cachorros ou qualquer coisa que o valha esperando por mim em casa. Minha casa é medíocre. Quase uma quitinete. E sempre muito mal organizada. minha mesa de centro - era uma dessas bem vagabundas - quebrou uns meses atrás, quando um amigo trôpego sentou-lhe em cima. Desde então, minha mesa de centro são três latas de tinta e uma madeira quadrada - que tive o admirável trabalho de colar nas latas - com uma toalhinha. Isso mesmo, uma toalhinha! Tanta desgraça nesse mundo, e a minha mesa de latas de tinta tem toalhinha. Ai. ai, e é rendada... Bom, mas voltando ao fato de eu ainda não ter voltado para casa: estava de saco cheio. Ainda estou de saco cheio, só que preciso ir visitar minha mãe. A família inteira vai estar lá, e eu estou nojento e fedendo a bebida. Mesmo sabendo que a velha não iria ligar, estou indo em uma loja, aí vou passar em casa e só depois vou para a casa dela. É que ela está bem doente. Na pior, se querem saber. Eu vou vê-la aos domingos e às quartas, mas hoje a reunião se estendeu para a parentada toda, como que num ritual de despedida. Não que estejamos preparados para a morte dela. É que quando uma coisa é iminente, não interessa você estar pronto ou não, e sim preparar tudo para que aconteça da melhor forma. Se é que tem alguma forma boa de morrer. É que a minha velha é um tanto emotiva, então nós queremos que ela tenha a chance de dizer o que quiser para quem quiser, por via das dúvidas. Nesse ponto da narrativa eu bem poderia começar um monólogo sobre a doença da minha mãe, explicar todos os pormenores, descrever a personalidade das minhas tias gordas e os quadros da sala da casa, mas eu tou com preguiça, então vou apenas contar uma estória, de quando eu era menino.
Eu tava lá, no quintal, brincando com o barro - é que nós tinhamos uma horta. Minha velha é bem conservadora e por isso gosta de plantar a própria cebolinha, e tal. Hoje o espaço abriga uma grama ordinária, três cadeirinhas de ferro e uma mesa, minha velha também gosta dessa lengalenga de tomar chá e conversar - enfim, brincando com o barro, aí ela apareceu. Eu já tinha passado a lama até na cara, estava imundo, e quando ela chegou eu tive certeza de que ia tomar o maior esporro. Mas ela falou (eu lembro, certinho) "Luis Otávio, o jantar já está pr-- oh. Luis Otávio, vá tomar um banho para comer, meu filho." E só. Quando eu passei por ela, beijou-me a cabeça enlameada. Nosso piso era branco, e eu fiz a maior meleca com as minhas pegadas marrons, mas quando eu voltei pra comer já estava tudo muito branco de novo. Minha velha é dessas que amam a gente até quando estamos sujos de barro no meio da cozinha branca.
E agora, vejam só, eu estou meio triste. Quer dizer, ela tá lá, a beira da morte, e eu sou o garoto do xérox. Ela queria tanto me ver com o tal carro importado e a camisa de manga comprida! Eu sei que queria. Niguém bota "Luis Otávio" como nome do filho assim, à toa, sem pretensão... E eu tô fedendo. Terminei meu terceiro colegial capengando, arrumei um emprego de vendedor, e enganei todo mundo com essa de "quero só juntar um dinheirinho, mas ano que vem eu faço faculdade". Era sempre ano que vem. Até que param de perguntar da faculdade. É que eu nunca fui muito certo sobre o que queria fazer, e, pra ser sincero, eu também nunca quis muito. Quando eu percebi que já era tempo, e isso foi lá pelos 23, arrumei um jeito de sair de casa. E aí fui pra aquele moquifo, com toalhinha na mesa de centro, e não saí até hoje. Pra vocês verem até onde chega a merda da acomodação de um ser humano.
Meu vocabulário não é dos melhores, não tive curso superior, também não arrumei garota nenhuma, e assim fui ficando sem inspiração. Acabou que a vida foi passando e eu encostei num canto. Sei lá. Mas acontece que não tá nada bem. Perdi contato com os amigos do colegial (mas também eu não tinha muitos, espinhudo e encurvado como eu era), aliás, aposto que estão bem de vida hoje, os filhos da puta, a maioria de carro importado e camisa de manga. Mas não ter feito faculdade nem é o meu recalque não. Meu recalque é ter sido tão alheio. Eu podia ter dedicado a minha vida a algo importante, sabe? Não necessariamente a uma profissão, mas sei lá, podia ter virado hippie, podia ter feito algo de diferente nesse mundo, em vez de ficar apodrecendo com cerveja e televisão naquela quitinetezinha escrota. E, garoto do xérox? Mas que droga, qualquer coisa é mais vivo que garoto do xérox. Não que eu seja idiotinha o bastante para desprezar esse tipo de emprego, na verdade eu respeito muito quem rala pra ganhar a vida, seja como garoto do xérox ou como gigolô. Só que gigolô ainda teria mais emoção. Sabe? Sei lá. Garoto do xérox é monótono. Eu não queria ser milionário, mas também não queria essa vida de tédio. E, ah, a minha velha merecia mais que um garoto do xérox.
Saí do trabalho na sexta e fui para um boteco. Sou meio fraco para bebidas, se querem saber. No terceiro copo minha barriga começa a doer, e quase sempre acabo com diarreia. Mas adoro ficar ébrio. Bom, bebi uns vários copos, não comi nada, vomitei de leve, e aí bebi mais uns. Depois rumei para um puteiro. Eu sei que é triste precisar de um puteiro, e depois de vomitar ainda, quase que uma foto da decadência, mas cara, eu não tava nem aí. É por isso que eu curto ficar ébrio, é que então eu consigo não estar nem aí.
Quando cheguei lá, caramba, que tristeza que me deu. Odeio bêbado chorão, mas não deu, chorei. Umas putas gordas, outras meio pelancudas, credo. Mas arrumei uma até que boazinha. O legal mesmo foi que não transei. No quarto, continuei chorando, como uma menininha, e, pasmem, ela foi compreensiva. É lendário encontrar uma puta compreensiva. Mas essa ouviu a minha estória toda, falou uma ou outra coisa - que, alias, nem eram absurdas. Acho que no final das contas ser puta deve ensinar bastante sobre as pessoas... - e me deixou chorar. Aí eu paguei, fui beber mais pois estava voltando a ficar sóbrio e isso não era confortável, e aí fui para uma praça. O resto nem é importante. Dormi por lá, continuei bebendo e me odiando no dia seguinte, liguei pra um amigo, conversamos, ele foi embora e eu continuei na minha fossa, dormi em outra praça. Hoje de manhã eu cheguei a uma bela conclusão: a culpa é minha sim, mas a cagada não é irreversível. Tenho um empreguinho chato e uma vida chata, e isso é chato, mas se eu continuar nessa depressão boiola vou acabar é me matando. Decidi que vou passar numa loja granfina, comprar uma camisa de manga comprida e uma gravata, tomar um belo banho, fazer a barba e vesti-la; vou arrumar minha mala e depois vou lá ver minha mãe. Aí eu converso com as tias gordas, ajudo na cozinha, sorrio o tempo inteiro, dou um beijo na testa da minha velha e digo que amo muito ela. E aí eu vou embora.
Tem um lugarzinho, numa cidade litorânea a umas duas horas daqui, onde eu sempre quis morar. É um morro com vista pro mar, que não é ocupado. Vou fazer uma cabana por lá, e ficar alguns dias. Até alguém vir me mandar sair. Depois eu junto minhas coisas, volto pra cá, e se eu não for demitido, continuo sendo o garoto do xérox. Só que vou usar o dinheiro pra um curso superior. Administração, quem sabe? E já tenho a camisa e a gravata, e tal. A vida na cidade é uma bosta. Ninguém tá nem aí, mesmo sóbrios. O negócio é que ou você cala a boca e vai fazer o que tem de fazer, do tipo faculdade e puxar saco da chefia, ou você fica sendo o garoto do xérox. Esse é outro problema das cidades grandes, acreditamos mais num diploma que na pessoa que existe atrás dele...

domingo

"Os indivíduos

devem matar-se uns aos outros porque os interesses da Nação o exigem; devem ser educados no sentido de cuidarem dos fins e desprezarem os meios, porque os mestres-escola não se fazem esperar e não conhecem outro método; devem viver em cidades, devem ter tempo para lerem os jornais e irem aos cinemas, devem ser instigados a comprarem coisas de que não precisam, porque o sistema industrial existe e precisa ser mantido em atividade constante; devem ser coagidos e escravizados, porque, do contrário, poderiam pensar por si e causar embaraços aos seus governantes.
O sabat foi feito para o homem. Mas o homem agora se comporta como os Fariseus e insiste em que ele é que é feito para todas as coisas - ciência, indústria, nação, dinheiro, religião, escolas - que foram realmente feitas para ele. Por quê? Porque tem tão pouca consciência de seus próprios interesses como ser humano, que se sente irresistivelmente tentado a sacrificar-se por esses ídolos. Não existe outro remédio a não ser tornamo-nos conscientes dos nossos próprios interesses como seres humanos e, uma vez conscientes, aprendermos a agir em conformidade com essa consciência. O que significa aprendermos a fazer uso de nós mesmos e aprendermos a dirigir nosso espírito."

Anthony Beavis, em Sem Olhos em Gaza / Aldous Huxley

sexta-feira

Vencida.


Ele olhou para o chão. O silêncio reinou. Ambos sabiam que nada mais poderia ser feito ali. Ela encarou a porta enquanto a furia e a melancolia brigavam dentro de si. Ele continuava errando. Fraco como sempre, não suportou olhar para suas perdas e assumir as consequências. Fraco como sempre, tentou maquiar suas burradas com outra mentira. Eu te amo. Ela o analizou e seus olhos brilharam. Só durou um segundo. Então a verdade caiu sobre seus ombros. Aquilo doeu, mais que um tapa e mais que sair andando rumo à porta. Foi a dor de saber que ele não mudaria. A dor de saber que era o fim. O fim de algo que nunca deveria ter começado.

(o fim que talvez ela não fosse forte o suficiente para deixar acontecer)

quarta-feira

Mentiras cômodas, futilidade agradável.


Há não muitos minutos estava me sentindo miserável, por motivos aparte. Não conseguia ficar em um cômodo fechado comigo mesma sem me irritar, não conseguia ouvir nada sem querer gritar. Gritar para espantar meu mau humor, gritar para expressar meu desespero, gritar para concretizar minha loucura. Tal angustia me dominou, e por mais que eu de certo modo soubesse que era uma simples TPM, que em segundos eu estaria tão feliz quanto um dia de sol solto em uma campina verde, que eram somente hormônios descontrolados existindo um dia a mais rumo à dominação global, por mais que eu soubesse de tudo isso, eu precisava extravasar, precisava fazer alguma coisa antes que aquele grito fizesse um nó em minha garganta e me asfixiasse.

Então peguei minhas moedas e um dos livros de auto-ajuda que eu tanto critico e que minha mãe tanto preza, talvez eu estivesse precisando deles. Comprei na sorveteria mais próxima o maior milk shake à venda. Eu sei, soa fútil. Sim, eu sou fútil. É, também odeio isso. Não, nunca fiz nada para mudar.

Tendo em mãos a dupla perfeita para um dia de fossa, percebi que voltar para casa não era o que meu espírito precisava. Então fui até a praça publica local e me sentei sozinha, com meu sonho calórico e minha caixa de sabedoria barata, próxima da natureza pacifica das arvores plantadas graças à qualquer projeto que mascarasse o egoísmo social e cercada pelo irônico cheiro doce de mendigos desprivilegiados graças ao mesmo egoísmo social.

Muitos dos que passavam me olhavam com olhos críticos e intrigados, me provando mais uma vez que a sociedade se tornou tão excêntrica que é considerado muito mais comum andar com o olhar baixo e o passo rápido rumo a qualquer lugar dominado pelo consumismo que se sentar próximo aos próprios sentimentos e deixá-los dominar um momento qualquer. Me dói admitir que nesta sociedade excêntrica o comum é dado por certo.

O caso é que, muito oposto à idéia que minha estúpida futilidade juvenil havia me imposto, livros de auto-ajuda não são somente clichês quaisquer postos entre palavras para confortar pessoas deprimidas, na verdade hoje descobri que livros de auto-ajuda são de fato idéias propostas em momentos de paz e que não são formados por infelizes clichês que servem para confortar e sim de sabedorias particulares que servem para questionar clichês confortantes.

Esta é uma mentira cega que a futilidade do mundo me propôs e que eu aceitei prontamente. Em quantas outras mentiras disfarçadas temos acreditado comodamente?