"Questão a resolver: como conciliar a crença que o mundo é, em grande parte, uma ilusão, com crença na necessidade de melhorar essa ilusão? Como ser simultaneamente desapaixonado e não indiferente, sereno como um velho e ativo como um jovem?" Aldous Huxley

sábado

- Você é feliz?
- Não.
- Por quê?
- Porque eu não sou quem eu gostaria de ser.
- Alguém é?
- Não sei.
- Ninguém é.
- Por quê?
- Porque querer ser subentende não ser.
- Então a felicidade não existe.
- Não.
- Então por que a pergunta?
- Para provar minha teoria.
- Para quem?
- Para mim.
- Por quê?
- Para me consolar.
- Quanto a quê?
- Minha felicidade.
- Entristece-lhe?
- O tempo todo.
- Como?
- Fazendo-me egoísta.
- ...
- Egoísta. Insensível a dores alheias.
- Então todos os felizes são egoístas?
- Sim, exceto os infelizes.
- Mas os infelizes não são felizes!
- Por isso eu digo que o são.
- Você é louco.
- Provavelmente...
- Felicidade não existe.
- Não.
- Então ninguém é egoísta.
- Eu sou.
- E por isso é feliz?
- Você entendeu a teoria.

domingo

SIQUEIRA, Humanitas Silva

Humanitas (e isto importa, acima de tudo), Humanitas precisa comer.
-
Afinal, qual a vantagem de ser civilizado?
É tanta hipocrisia que eu já nem sei quais os meus princípios, tanto positivismo que eu não conheço o que é real. Nem uma parca ideia sobre quanto do místico existe e quanto é golpe de poder.
A sociedade não para de "evoluir", nem eu de me perder em dúvidas. Fazem pilhéria da esperança e, não obstante, confessam os enfermos.
Nosso modelo e o exemplo só divergem, cada vez mais. Amor e interesse, abraço e traição. E o que fica no final?
Talvez adorar o Deus Fogo fosse mais saudável.

terça-feira

Minha inexatidão

a gafe com chutes por baixo da mesa
o olhar de censura
o cheiro de chuva
a fofoca que ninguém contou
a panela de brigadeiro
o trânsito das sete horas
a briga de rua com torcida
o CD riscado
o pé sujo
a silhueta de um sorriso
o livro grosso e chato
o café quente demais
a impotência sexual
a história repetida
a ideia sem nexo
o clichê hollywoodiano
o plano maquiavélico
o vizinho implicante
a verruga com pelo

sexta-feira

Quem sou eu

Falo de mim na terceira pessoa, e também falo sozinha. Discordo de qualquer coisa, pelo simples prazer de discutir. Sou irônica comigo. Rio e choro pelas mesmas frustrações. Me acho a coisa mais normal do mundo, por mais que tente não demonstrar. Não gosto de sair de casa. Me empolgo e me freio ao mesmo tempo. Nunca me permiti acreditar em algo sério. Sou completamente hipócrita. Tenho a autoestima mais baixa que você já viu, e também o maior ego. Sempre me dou a razão, e sempre te faço acreditar que eu estou certa nisso. Me humilho por prazer. Me sinto sozinha o tempo todo. Sou obcecada por pessoas problemáticas. Fico furiosa com coisas que quase ninguém entende. Tenho nojo de multidões, e finjo repulsa a qualquer contato físico. Adoro quando me alimentam o ego, mas nunca aceitei de verdade um elogio. Sempre acredito no que dizem que eu sou. Meu maior sonho é entrar pra história. Digo aos quatro ventos que amor é superstição, mas continuo idealizando um para mim. Choro antes de dormir, escondida. Sinto ódio mortal quando alguém me pede ajuda com problemas sentimentais. Não gosto de me explicar, mesmo porque eu nunca me entendo. Minto bem quando quero. Me ofendo muito fácil. Pego coisas no ar, e percebo o que eu devo ou não dizer; mas é claro que eu sempre faço o contrário. Nunca terminei nada que eu tenha começado por vontade própria. Sou péssima agindo sob ordens. Gosto de dançar em frente ao espelho. Fico deprimida com frequência. Sempre acho que não vão me reconhecer ou lembrar meu nome. Sou revoltada com os padrões de beleza tanto quanto com a minha beleza. Tenho fascínio por idade média, Irlanda, duendes, ruivas naturais e cavalos brancos. Acho todos os adolescentes ridículos, e me incluo nisso. Odeio todo tipo de dó. Quando vejo alguém, imagino como é aquela pessoa, e acabo demonstrando pelo olhar. Sinto vontade de sumir quando reconheço esse mesmo olhar virado pra mim. Acredito que todos os seres vivos têm o mesmo direito à vida, mas continuo matando baratas. Insegurança me irrita, gírias adolescentes também. Adoro música, livros e chocolate. Me engano tão bem que às vezes acredito. Tenho resposta pra tudo, e se não tenho invento.

Mas se me perguntarem Quem sou Eu...

-> digo meu nome completo e o número do meu RG, há!

segunda-feira

Amor platônico?


O Brasil é um meninão parado, que não entende de música nem de Shakespeare, daqueles que não vêem nexo em brigas ou em tinta pra cabelo. O Brasil é um meninote desengonçado, daqueles que adoram a camisa três números maior. O Brasil é um rapazinho cheio de espinhas, daqueles que espalham bons principios sem intenção nenhuma. O Brasil é um excluido, um invisível. O Brasil é aquele cara que todo mundo inveja nos cantos mais escuros do subconsciente.
-
O EUA é uma moçinha na moda, daquelas que lêem revista teen e usam calça colorida.

Tropeços


Eu sinto os sonhos presos em mim. Eu sinto o cheiro das suas mentiras a me sufocar. Falseio com o peso das palavras não ditas... Será que eu ainda vou cair? Hei de cair, todos eles parecem saber. Me observam ansiosos, me vigiam sem me guardar. Quem estenderá a mão a me levantar? Vejo pessoas passando, mas não vejo brilho em seus olhos. Eles fingem muito bem, mas não parecem dispostos a me ajudar. Ouço um sino atordoante, é o sinal de largada... e a corrida começou. Apostando para ver quem chega mais rápido ao fim, ao pódio do eu te disse. Jogando no nada sua ultima gota de suor, esbaforidos com a pressa de saber. Eles vão chegar, cedo ou tarde, e logo a corrida acaba. Vidas gastas em vão, enquanto as palavras pesam mais e mais... e o relógio avança, ele vai me engolir. Corro do tempo, corro dos sonhos, corro da corrida e corro de mim. Duas estradas, por qual seguir? Nenhuma é bela e nenhuma é escura, são só caminhos, caminhos quaisquer. O tempo se aproxima, parece faminto. O extinto de sobrevivência me joga sobre o mato, sem estrada e sem caminho. A folhagem parece dura, mais dura que o chão e mais dura que os erros. Um tapa na cara que soa de medo. Me levanto bem rápido, sem mão, sem nada. Olho pro céu e dou um basta em tudo. O tempo para. Os sonhos esperam. As mentiras ficaram para trás. As palavras me encaram do chão. A corrida acabou. Leve mas não livre, viro meu corpo e caminho à rumo oposto. O sol brilha quente e as flores cheiram a dor. Meu coração se esfria enquanto meus olhos esquecem do amor.

domingo

Um minuto sem verdade


Eu quero um pouco da hipocrisia burguesa, da vida inventada, da classe imaginária. Quero um pouco do glamour, dos cortejos, da burrice bem polida. Quero um pouco daquela maquiagem, e um pouco daquele sorriso estampado. Quero ouvir só coisas belas, e falar só o que quiserem ouvir. Quero um minuto sem verdade.

Pra onde foram

as ideias revolucionarias, a paixão pela vida, pelo real, pelo momento?

sexta-feira

Querido Amigo,

Será que poderias me contar mais uma vez aquela história sobre auto confiança? É que Glória tem falado muito sobre essa história, mas eu acredito que ela esteja contando errado.

sábado

Sobre a ataraxia politica.


Desde o grito da informática, que chegou com a terceira revolução industrial, jovens do mundo inteiro se esqueceram de contestar a sociedade, politica e economia mundial; para se trancarem em seu próprio mundo, onde regem suas próprias leis e onde os aborrecimentos daquela existência cada dia mais complexa não entram. Depois de pouco tempo, a juventude estava tão desintegrada do sistema vigente que qualquer intervenção por parte desta perdeu o sentido. E é aí que nós estamos. Agora, convenhamos: o sistema político, satisfatório ou não, foi projetado por pessoas incomparávelmente mais engajadas que a nossa geração; por tanto nossa falta de atitude, de vontade ou de ideais é simplesmente coerente. De todo modo, sistema nenhum é perfeito, então por que é tão dificil de se aceitar que o atual é correspondente ao nosso momento histórico? Acho que é hora de enxergar que revolta nem sempre é a melhor conduta. Às vezes, integração já basta.

sexta-feira

" Sorriu.
E no seu sorriso já havia garras.
Uma aluvião de cenas, que ela jamais tentara explicar e que até aí jaziam esquecidas nos meandros do seu passado, apresentavam-se agora nítidas e transparentes. Compreendeu como era que certos velhos respeitáveis, cujas fotografias Leónie lhe mostrara no dia que passaram juntas, deixavam-se vilmente cavalgar pela loureira, cativos e submissos, pagando a escravidão com a honra, os bens, e até com a própria vida, se a prostituta, depois de os ter esgotado, fechava-lhes o corpo. E continuou a sorrir, desvanecida na sua superioridade sobre esse outro sexo, vaidoso e fanfarrão, que se julgava senhor e que no entanto fora posto no mundo simplesmente para servir ao feminino; escravo ridículo que, para gozar um pouco, precisava tirar de sua mesma ilusão a substância do seu gozo; ao passo que a mulher, a senhora, a dona dele, ia tranquilamente desfrutando o seu império, endeusada e querida, prodigalizando martírios que os miseráveis aceitavam contritos, a beijar os pés que os deprimiam e as implacáveis mãos que os estrangulavam.
- Ah! homens! homens!... sussurou ela de envolta com um suspiro."

O cortiço,
Aluísio Azevedo

quinta-feira

Pelos becos.


Costumava ser feliz, mas foi ficando cada vez mais quieto. E eu percebi o silêncio. Por um lado ele me acalmava, esclarecia muita coisa... Mas não demorou pra eu cansar de entender. De repente eu só queria parar de saber, e de repente a minha própria voz se tornou inconveniente. Já gritei no travesseiro mais de uma vez, já puxei meus próprios cabelos tantas outras, e então comecei a fazer roxos nos meus próprios braços. O que eu via no espelho era tão irritante quanto tudo o que eu via na televisão. Resolvi mudar de plano. Aluguei tantos livros quanto eu era capaz de ler, me obriguei a ouvir música em qualquer tempo livre, e até que consegui me calar por um tempo. Mas vez ou outra, a solidão me pegava. Cogitei suicídio. Depois decidi que era fraqueza. Cansei até do meu cachorro. As músicas que eu idolatrava de repente perderam o timbre, e o Deus que todo mundo louvava me parecia cada vez mais egocêntrico. Tentei ouvir algo mais sério, pesquisei os temas mais bizarros, e até visitei rituais satânicos. Não muito tempo depois, o obscuro também perdeu a graça. A sociedade me enojava, e eu estava começando a sentir repulsa por todos os que um dia conheci. Minha vida não tinha motivos e minha luta por opinião própria estava começando a me irritar. Mesmo assim, drogas sempre me pareceram estupidamente inúteis. Foi mais ou menos depois de uma semana sem trocar de roupa que meus pais explodiram. Já vinham tentando me "ajudar" há muito tempo, mas qualquer tentativa da parte deles era inútil. Eu estava perdida, e sabia disso. E eu não acreditava que um dia me encontraria. De todo modo, em uma segunda-feira nublada, me lembro bem, eles tentaram me levar a um psicólogo. Foram duas horas de consulta sem a mínima manifestação da minha voz. Vi os lábios da médica aconselhando procedimentos aos meus país, mas juro que não ouvi uma palavra. Eu estava aprendendo a me perder em mim também. Na mesma segunda-feira, tarde da noite, eu decidi que não queria mais encenar aquele teatrinho de familia feliz. Roubei algumas notas da carteira do meu pai, peguei meu melhor jeans, um agasalho e uma outra troca de roupa, joguei tudo no fundo de uma mochila e saí. Não fiquei na cidade nem mais um dia, e usei dos meus tributos femininos para conseguir transporte, comida e estadia. Vivi nas ruas por dois anos, de cidade em cidade, de bar em bar, me prostituindo para não trabalhar, e vivendo de favores e doações. Não reclamo, foi uma aventura incrível, mas depois de um tempo comecei a ficar enojada com a quantidade de garotas grávidas e miseráveis que me cercavam. Percebi que aquela vida não tinha mais brilho. A esta altura eu tinha lá meus dezessete anos, e decidi começar algo do qual me orgulhasse. Fui para a capital, consegui um emprego como ajudante de bibliotecária e uma vaga em um pensionato de baixo calão. Ainda usava dos meus seios para conseguir refeições quando estas me faltavam, mas agora com motivos mais nobres: queria estudar. Aprendi muito sozinha, e depois de sete meses como assistente de bibliotecária eu já tinha uma boa noção de matemática, historia e política. Com o dinheiro que eu juntara por estes meses, um concurso de bolsas bem sucedido e um emprego regular, segui vivendo. Os cinco anos seguintes foram apáticos, com alguns garotos e algumas amizades fingidas, mas nada daquela magia universitária; mesmo por que eu já conhecia a vida o bastante para não me empolgar com transas e alguns goles de vodka. Nunca mais vi minha familia, e acho que eles cansaram de me procurar lá pelo terceiro ano. Também acho que em algum dia desde então eles brindaram minha fuga, mas esta é uma opinião que não divulgo mais. Hoje, tenho minha própria mobília e um aluguel em dia. Não frequento igreja nenhuma, e também não sorrio na rua. Sei que o bem não passa de farsa e que a humanidade não é bonita, e aquele sonho imaturo de mudar o mundo e ter nome na história já ficou para trás. Não sou feliz, não tenho amigos, familia ou marido; mas se querem saber, me considero muito melhor que todas essas pessoas realizadas e amadas por aí. Por que eu... Eu sei o que nós criamos.

The rivers on the pavement
Are flowing down with blood
The children of the future
Are drowning in the flood
Where did all the love go?

domingo

On the radio

[...]


This is how it works:
You're young until you're not
You love until you don't
You try until you can't
You laugh until you cry
You cry until you laugh
And everyone must breathe
Until their dying breath


No, this is how it works:
You peer inside yourself
You take the things you like
And try to love the things you took
And then you take that love you made
And stick it into some
Someone else's heart
Pumping someone else's blood
And walking arm in arm
You hope it don't get harmed
But even if it does
You'll just do it all again


[...]


(On the radio - Regina Spektor)

sábado

E se os animais falassem?
E se as fadas existissem?
E se as memórias não perturbassem?
E se os sussurros se calassem?
E se as ideias vingassem?
E se os fatos encorajassem?
E se as paixões durassem?
E os doces não engordassem?
E se as flores não murchassem?
E se os adultos brincassem?



Seria ruim do mesmo jeito.

-


Não tema
Não traia
Não odeie
Não dissimule
Não manipule

Você faz certo daí, eu faço daqui, e ninguém se machuca hoje.

Por obséquio:


Não me ame. Nunca, sob circunstancia alguma. É o tipo de coisa que me intimida. E eu não faço nada certo quando me sinto acuada. Aliás, queira fazer a gentileza de também não me elogiar? É que eu sempre procuro convencer a pessoa do contrário, e eu posso ser persuasiva... Grata.

Eu vou acabar ficando louca.


Preciso de qualquer coisa real, se é que ainda existe alguma. Preciso sair deste tempo, deste país. Preciso de cultura, preciso de sabedoria. Preciso de um amor, de uma aventura. Preciso de uma vida, para revesar meus pensamentos. Preciso saber que existe algo além da minha ficção insensata, surreal. Preciso entender como eu sou, pra explicar à mim mesma quem pretendo ser. Percebo a loucura logo ali, e vejo a sátira de todo esse quadro supérfluo-adolescente em cada esquina. Preciso acreditar, mas plenamente. Preciso decidir, entre a frustração ou a alegria superficial. Preciso que vejam, e que acreditem também. Preciso saber, preciso muito saber. Preciso dá-los o que entender, mas antes preciso entender o que me deram; me deram muito. Preciso ganhar, ser melhor e maior. Preciso matar o ego de mim, preciso me deixar morrer. Preciso também da certeza de que vou renascer, preciso dela enquanto viver. Preciso da beleza antiga, aquela que me descreveram tão bela; preciso da beleza, qualquer que seja ela. Preciso dela, preciso agora; mas a preciso real, como nada neste mundo. Preciso daquela velha ficção amarelada. Preciso existir, hoje e um dia. Um dia longe daquele passado amarelo, e desse presente azul brilhante.

sexta-feira


Minha alma chegou a tal nível de degradação que nem me expressar eu consigo mais. Aprendi a controlar todo e qualquer sentimento. Agora eu não consigo demonstrá-los naturalmente. Eu usei tanto do seu apoio, que me tornei dependente quimica fisica e moral. Até o sono eu perdi. Não tem mais graça, não tem nem nexo. Agora eu sou cética e rancorosa. E nem assim me tornei prática. Eu quis tanto, eu soube tão claramente, que agora nem opinião eu tenho. Estou a beira de um colápso. De outro. Por favor, alguém pode fazer parar?

quinta-feira

-

Só existem dois jeitos dignos de viver: acima de tudo ou excluido de todos. Toda e qualquer filosofia de vida entre estas é mediocre, e de mediocre basta o mundo.